PMIs da China mostram possível efeito global do coronavírus

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O presidente da China, Xi Jinping. (Foto: Divulgação/ Conselho de Estado da China)

São Paulo – O surto do novo coronavírus finalmente está mostrando ao mundo seu impacto negativo sobre o setor manufatureiro e seu potencial para desacelerar a economia global, embora para os especialistas consultados pela Agência CMA ainda haja incertezas sobre como afetará os Estados Unidos.

Um índice do governo chinês que rastreia a confiança entre gerentes de compras da indústria caiu em fevereiro para o nível mais baixo já registrado, mergulhando profundamente em território de contração. O Departamento Nacional de Estatística da China informou na sexta-feira à noite que o PMI do setor manufatureiro caiu de 50,0 pontos em janeiro para 35,7 pontos em fevereiro – o menor patamar registrado desde a crise financeira global de 2008.

Já o índice que acompanha os planos de compras no setor de serviços da China caiu para uma mínima recorde de 29,6 pontos no período – bem abaixo da marca de 50 que separa expansão da contração – sugerindo fraqueza na construção, transporte, restaurantes e turismo.

Os dados são os primeiros indicadores de controle econômico oficiais a serem divulgados após o agravamento do surto do novo coronavírus e confirmam um congelamento que data do final de janeiro, quando as autoridades sinalizaram que a doença – agora chamada de Covid-19 – estava se espalhando mais rapidamente do que o esperado, levando indústrias, comércio e os serviços a paralisarem suas atividades.

“O Covid-19 não apenas interrompeu a fabricação de bens, como também quebrou a cadeia de produção chinesa, o que explica o PMI muito baixo, assim como os pedidos de exportação”, disse a economista da ING para a China, Iris Pang.

O PMI do setor industrial chinês, que caiu a 35,7 pontos em fevereiro, situou-se durante a crise financeira global de 2008 e 2009, na faixa de 38,8 pontos a 45,3 pontos. Os subíndices do dado de fevereiro mostram problemas não apenas na produção, que foi surpreendentemente fraca – 27,8 pontos -, mas também em encomendas. Os pedidos de exportação atingiram 28,7 pontos e os novos pedidos, que representam pedidos domésticos, chegaram a 29,3 pontos.

“O novo coronavírus representa um evento econômico significativo, com sinais de desaceleração da economia da China, onde muitas regiões passam por quarentenas que reduzem a atividade industrial do país e dificultam a vida de empresas globais que não conseguem compensar a obstrução nas cadeias de suprimento chinesa”, disse o economista chefe da Scotiabank Economics, Jean-François Perrault.

Segundo Pang, da ING, mesmo que a produção industrial da China possa se recuperar em março, o setor ainda enfrentará o risco de um baixo nível de pedidos de exportação.

“Isso ocorre porque ainda haverá uma ruptura na cadeia de suprimentos, desta vez na Coreia do Sul, Japão, Europa e Estados Unidos, onde o Covid-19 começou a se espalhar”, afirmou ela, acrescentando que as exportações da China continuarão fracas até o segundo trimestre do ano.

O economista chefe do Wells Fargo para os Estados Unidos, Sam Bullard, é mais otimista quanto aos efeitos do novo coronavírus na economia norte-americana depois dos dados mais fracos dos setores industrial e de serviços da China.

“Até agora, os PMIs do setor industrial regional foram amplamente positivos nos Estados Unidos”, disse Bullard, lembrando que a leitura preliminar do PMI industrial norte-americano caiu a 50,8 pontos em fevereiro, mas permaneceu em território de expansão.

Segundo projeções do Wells Fargo, a atividade industrial dos Estados Unidos medida pelo índice do Instituto de Gerência e Oferta (ISM, na sigla em inglês) deve sofrer alguma alteração em fevereiro depois de alcançar 50,9 pontos em janeiro.

“O ISM industrial de fevereiro deve ser mais sensível às questões de produção e cadeia de suprimentos na China do que muitas das pesquisas regionais e, portanto, oferece algum risco negativo. Além disso, a coleta de dados para as pesquisas regionais de indústria é tendenciosa na primeira parte do mês e, portanto, pode não capturar ramificação econômica negativa do novo coronavírus”, afirmou Bullard.

Na Europa, os agentes do mercado aguardam a confirmação da resiliência observada nas leituras preliminares dos PMIs de fevereiro.

“As leituras finais de fevereiro ajudarão a determinar o impacto econômico do novo Covid-19. Na pesquisa preliminar, o setor manufatureiro europeu observou restrições de fornecimento de materiais essenciais devido aos cancelamentos de remessas para fora da China, enquanto novos pedidos de exportação caíram substancialmente à medida que as vendas para a China recuaram”, disseram analistas do Deutsche Bank em nota.

Para Perrault, da Scotiabank Economics, a incerteza ainda deve predominar sobre mercados e indicadores até o final de março. “Estamos lidando como o medo.

Não sabemos ainda como as pessoas vão reagir, se as pessoas viajarão menos, e gastarão menos. Só saberemos de fato o impacto desse vírus sobre a economia global depois do primeiro trimestre”, completou.