Estrangeiro reduz retirada na Bolsa, mas política atrapalha

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Indicadores da Bolsa de Valores

São Paulo – A recente disparada do dólar frente ao real fez ativos em Bolsa ficarem mais baratos para investidores estrangeiros, que estão atentos a oportunidades e chegaram a voltar a aportar recursos na B3 em alguns dias de abril e maio, após uma retirada recorde em março.

Porém, analistas avaliam que isso não deve ser suficiente para reverter o saldo ainda bastante negativo de investidores estrangeiros na Bolsa brasileira este ano, já que o cenário político local conturbado é um obstáculo, além de ser necessário que a economia doméstica dê sinais mais fortes de recuperação após a crise causada pela pandemia do novo coronavírus.

Saída de recursos estrangeiros na B3 de janeiro a maio de 2020
Saída de recursos estrangeiros na B3 de janeiro a maio de 2020.

O final de maio mostrou sinais favoráveis, já que nos últimos nove dias, sete foram de saldo positivo de investimentos estrangeiros na B3. Entretanto, o mês ainda encerrou negativo em R$ 7,441 bilhões. Em abril, o saldo também foi negativo, em R$ 5,069 bilhões, mas mostrando que o período de maior saída de recursos estrangeiros na Bolsa pode já ter passado, depois de recordes seguidos de retirada em março (R$ 24,207 bilhões), fevereiro (R$ 20,971 bilhões) e janeiro (R$ 19,157 bilhões). No acumulado do ano, o saldo está negativo em R$ 76,847 bilhões.

“Quando o dólar bateu quase R$ 6,00 acendeu uma luz para o gringo, além disso, tivemos ações que caíram muito, que ficaram atrativas. Isso fez eles voltarem um pouquinho, mas voltar mesmo só na hora em que acalmar o lado político e se ocorrer um endereçamento correto da economia e de reformas no pós-pandemia”, afirmou o economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira.

No dia 14 de maio, o dólar comercial bateu a máxima histórica de R$ 5,9730 e a moeda norte-americana já subiu quase 33% frente ao real no acumulado do ano, refletindo a aversão ao risco global com a pandemia, as preocupações com o governo de Jair Bolsonaro e ainda a queda da taxa básica de juros (Selic). No início do mês passado, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu a Selic em 0,75 ponto percentual (pp), para 3,00% ao ano (aa), uma nova mínima histórica, sendo que a perspectiva é que a taxa possa continuar baixa.

A Selic já não é um fator que atrai investimentos estrangeiros para o Brasil como no passado, quando o País tinha uma das maiores taxas de juros do mundo e era possível lucrar com o diferencial frente às taxas de outros países, por meio de operações chamadas de “carry trade”, lembra o CEO da WM Manhattan, Pedro Henrique Rabelo. Para ele, agora, é ainda mais necessária a melhora do ambiente político para o investidor de fora se sentir seguro e voltar a fazer aportes.

“Antes havia um fluxo muito maior daquele investidor que vinha aproveitar a taxa de juros, fazia ‘carry trade,’ mas não tem mais essa opção, o fluxo de estrangeiros já é bem menor”, disse. “Enquanto não houver um panorama mais estável no Brasil, uma estabilidade entre os três Poderes, eles não voltam, o “smart money” [dinheiro de investidores institucionais, especialistas de mercado financeiro] não volta”, completou.

Os constantes conflitos causados pelo presidente Jair Bolsonaro, inclusive com o Judiciário e o Legislativo, e a forma como desprezou possíveis impactos da covid-19 têm chamado a atenção na imprensa internacional e de investidores estrangeiros. Porém, analistas do Credit Suisse afirmam que seguem confiando no ministro da Economia, Paulo Guedes, para conduzir a economia.

“Houve críticas generalizadas ao tratamento do presidente Bolsonaro ao surto de covid-19, bem como as demissões de ministros da Justiça e da Saúde. No entanto, a chave para nós é que Guedes continua no cargo. Além disso, acreditamos que as medidas fiscais do Brasil para combater o vírus, equivalentes a 9% do PIB, estão entre as respostas políticas mais generosas vistas entre os países emergentes”, afirmaram em relatório divulgado no fim da semana passada.

Os analistas também destacaram a forte queda do real, a melhor posição fiscal que o previsto, a possível valorização de commodities (já que o Brasil é um grande exportador de commodities) e um mercado barato depois das quedas recentes. Devido a esses fatores elevaram a recomendação para ações no Brasil de “underweight” (equivalente à venda) para “overweight” (equivalente à compra). Entretanto, afirmam reconhecer que essa pode ser uma decisão controversa e que preferem países asiáticos, que também estão com moedas mais fracas, como Coréia do Sul e China.