Pandemia e protestos devem fazer Biden vencer Trump em eleições dos EUA

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São Paulo – O candidato do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, deve vencer as eleições em novembro. Especialistas consultados pela Agência CMA informam que a pandemia do novo coronavírus juntamente com as denúncias de violência policial que foram o gatilho para as manifestações que ocorrem por todo o país, corroeram a confiança do eleitorado sobre o atual presidente, Donald Trump.

Segundo as últimas pesquisas realizadas em âmbito nacional, Biden possui uma média de 5 pontos percentuais (pp) de vantagem em relação a Trump nas eleições deste ano.

As pesquisas de âmbito estadual, que indicam qual partido a população de cada estado deve eleger majoritariamente, apontam a mesma tendência, com Trump caindo nas pesquisas mesmo em estados classicamente republicanos. No Arizona, por exemplo, onde o eleitorado tem perfil conservador, as pesquisas indicam vitória do Partido Democrata.

O motivo principal para a mudança é a crise sanitária e, consequentemente, econômica causada pela pandemia de covid-19. “O novo coronavírus virou a economia de cabeça para baixo. Os eleitores podem não culpar Trump pelo vírus, mas o veem mais vulnerável do ponto de vista econômico do que antes”, afirma o economista-chefe para os Estados Unidos do Société Générale, Stephen Gallagher.

Ele explica que a capacidade de liderança é o que impacta o eleitorado em momentos de crise e que Trump não conseguiu oferecer isso nem mesmo para sua base de apoio. “Mensagens confusas e às vezes caóticas, tentativas de culpabilização e afirmações insistentes de que estava tudo bem tiveram pouco efeito sobre uma população votante que estava sinceramente preocupada com sua saúde e de seus entes queridos”, afirma ele.

O economista sênior para Estados Unidos da Capital Economics, Michael Pearce, destaca que com a pandemia a maior vantagem de Trump – a prosperidade econômica que o país estava vivendo – foi destruída, o que tirou sua imagem de escolha segura. “A contração no PIB do segundo trimestre deve ser maior que a do primeiro, e mesmo com o número de vagas criadas tendo sido surpreendente no último mês, a taxa de desemprego está em 13,3%.”

A expectativa é de que a economia volte a crescer no segundo semestre do ano, mas mesmo assim isso pode não beneficiar Trump. “Os índices que impactam o eleitorado, como mercado de trabalho e atividades industriais e de serviços, podem demorar demais para sentir o efeito das reaberturas, o que vai prejudicar o presidente”, disse Pearce.

ELEIÇÕES E PROTESTOS

Além da pandemia, um novo fator contra Trump entrou em jogo recentemente – os protestos contra o assassinato do segurança negro George Floyd por um policial branco. Floyd estava desarmado e foi asfixiado até a morte mesmo se rendendo à prisão. As imagens do estrangulamento foram gravadas e circularam na internet, o que levou manifestantes às ruas mesmo em meio a restrições à circulação.

Gallagher explica que a situação deve pesar nas urnas. “Um bom líder deveria ter reconhecido a dor provocada pelo vídeo e reagido com compaixão e com um plano concreto para reduzir as recorrências. Não há problema no presidente se mostrar contra saques e a violência que ocorreram durante os protestos, mas é provável que a falta de compaixão e o fracasso em reconhecer um amplo sofrimento público sejam lembrados.”

O estrategista sênior em Estados Unidos do Rabobank, Philip Marey, concorda com Gallagher. “Os protestos devem levar ainda mais apoiadores para Biden, já que Trump demonstrou pouca liderança também nesse assunto”, afirmou ele.

Ele, no entanto, afirma que “o presidente norte-americano possui uma base fiel de apoiadores que irá votar nele não importa o que aconteça”. Mesmo com o apoio ao presidente caindo em estados classicamente republicanos, é nos chamados swing states que serão vistos os principais campos de batalha dos dois oponentes.

Os swing states são o termo usado para descrever estados que historicamente não demonstram preferência por candidatos a presidente de nenhum dos partidos.

Para Marey, Trump deve ter mais dificuldades tentando conquistar o eleitorado do Colorado, que nas últimas pesquisas demonstrou preferência por Biden. O estado tem como principal atividade a agropecuária, que vem sofrendo não só devido à diminuição de exportações por causa da pandemia mas também pelo desgaste causado na guerra comercial entre China e Estados Unidos.

Para Gallagher, o atual presidente norte-americano deve enfrentar dificuldades com os estados que na eleição passada conquistou no meio oeste industrial. “As vitórias em Michigan, Wisconsin, Ohio e Pensilvânia foram motivadas por preocupações com a concorrência global. Trump pode ter dificuldade em manter esse bloco em 2020. Biden foi forte nas primárias democráticas”, afirma ele.

Apesar das indicações das pesquisas, porém, Marey destaca que os resultados a favor de Biden só irão se comprovar se sua base eleitoral de fato comparecer às urnas, algo que impactou fortemente a eleição de 2016, quando os apoiadores democratas escolheram não votar.

“O eleitorado de Biden parece menos entusiasmado, mas supera a base de Trump. Como em 2016, muito dependerá de que seus apoiadores saiam de casa e votem nele.”