Mercados se recuperam de queda de ontem puxados pelos EUA

São Paulo – Após cair mais de 1% ontem, o Ibovespa encerrou em alta de 1,24%, aos 101.292,05 pontos, acompanhando a recuperação dos mercados acionários no exterior, com uma pausa na correção de ações de grandes empresas de tecnologia norte-americanas vista nos últimos pregões. O volume total negociado foi de R$ 24,1 bilhões.

“Ontem, as ações de tecnologia puxaram a fila de novas perdas no mercado, as ações da Apple chegaram a cair mais de 6%, mas hoje tivemos um quadro inverso, com Europa e Estados Unidos se recuperando. O Ibovespa está seguindo essa trilha e pode reduzir risco de perder os 100 mil e depois os 98 mil, que poderia dar força para a venda”, disse o economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira.

Apesar da baixa acentuada nos pregões da primeira semana de setembro e do tombo de 4,1% no índice Nasdaq ontem, para o estrategista-chefe da Levante Investimentos, Rafael Bevilacqua, “o cenário para o mercado acionário americano permanece sendo de alta, e muitos investidores ao redor do mundo deverão aproveitar o momento de liquidação para ir às compras”, já que o horizonte ainda é de juros baixos e ampla liquidez.

Ele explica, em relatório, que as ações de grande empresas de tecnologia, como da Apple, Amazon, Tesla, Facebook, entre outras, subiram muito com consumidores retidos em casa ou em home office em função da pandemia de coronavírus, com a tendência de crescimento das compras online e mais tempo passado nas redes sociais. “Agora, as perspectivas de relaxamento das medidas de contenção e da volta de algo mais próximo da situação anterior à pandemia dispararam uma correção nas cotações”, completou.

O CIO e sócio da TAG Investimentos, Dan Kawa, também não vê uma reversão de tendência dos mercados, mas é cauteloso. “Não vejo uma mudança de tendências. Todavia, dado à velocidade, duração e magnitude da alta [de ações de tecnologia], não podemos descartar alguns dias, quiçá semanas ou poucos meses, de correção”, afirmou em seu perfil no Twitter. Para ele, o período é de consolidação, com os índices podendo passar algum tempo rodando “de lado”, sem tendências claras e movimentos erráticos.

Na cena doméstica, investidores ficaram atentos a declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, que estimou que a reforma administrativa irá cortar despesas com o funcionalismo em R$ 300 milhões em 10 anos. Além disso, reiterou que espera que a reforma seja aprovada ainda este ano.

Já o Indice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto subiu 0,24% ante julho, quase em linha com o esperado pelo mercado, que previa alta de 0,25% de acordo com o Termômetro CMA. No entanto, a forte de alta de itens da cesta básica, como o arroz, tem preocupado, e pode fazer o governo tomar medidas como facilitar a importação do produto, o que está monitorado pelo mercado e pode ter reflexos também na cena política.

Entre as ações, as maiores altas do índice foram das ações de siderúrgicas e mineradoras, caso da CSN (CSNA3 4,78%), Usiminas (USIM5 6,26%) e Gerdau Metalúrgica (GOAU4 4,36%), em dia de alta dos preços do minério de ferro, com o contrato futuro mais negociado da commodity subindo 1,5% na Bolsa chinesa de Dalian.

Na agenda de amanhã, na Europa, o destaque será a decisão de política monetária do Banco Central Europeu (BCE), seguida de entrevista coletiva da presidente do BCE, Christine Lagarde. Já nos Estados Unidos, investidores devem ficar atentos a indicadores como os pedidos de seguro-desemprego da última semana, o índice de preços ao produtor e os estoques no atacado. No Brasil, por sua vez, serão conhecidos os dados de vendas do varejo.

O dólar comercial fechou em queda de 1,28% no mercado à vista, cotado a R$ 5,3020 para venda, em sessão de recuperação no exterior com as bolsas de Nova York operando alta de mais de 2% após fortes perdas nos últimos dias, enquanto o preço do petróleo tentou recuperar parte da forte queda ontem, o que puxou a valorização das moedas de países emergentes.

O diretor superintendente de câmbio da Correparti, Jefferson Rugik, reforça que o principal “indutor” para a queda da moeda, que prevaleceu por toda a sessão, foi um movimento de “caça às pechinchas” pelos investidores no mercado de ações dos Estados Unidos, após as fortes perdas dos últimos três dias. “Esta procura por risco fortaleceu as bolsas ao redor do globo e penalizou o dólar”, comenta.

Aqui, investidores reagiram com bom humor às declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que a reforma administrativa deverá cortar gastos com o funcionalismo público de R$ 300 bilhões em 10 anos, além da possibilidade da pauta ser votada ainda este ano.

“Eu acredito que essa pauta vai demorar a sair do papel. A reforma administrativa vai caminhar junto com a reforma tributária em um momento complicado no mundo por conta da pandemia [do novo coronavírus]. Ainda vai ter muita discussão em cima dessa reforma. Mas é um assunto que sempre anima o mercado”, avalia a estrategista de câmbio do banco Ourinvest, Cristiane Quartaroli.

Amanhã, na agenda de indicadores, o destaque fica para o índice de preços ao produtor de agosto, nos Estados Unidos, e para a decisão de política monetária do Banco Central Europeu (BCE).

Quartaroli diz que a decisão do BCE, seguida pela entrevista coletiva da presidente da autoridade monetária, Christine Lagarde, no qual pode anunciar novos estímulos para a economia da região ficará no radar dos investidores.

“Acredito que o BCE tenha mais força para fazer preço do que os indicadores. Investidores estão atentos à preocupação deles quanto a valorização do euro ante o dólar”, diz.

As taxas dos contratos de juros futuros (DIs) encerraram a sessão em queda, mantendo a trajetória vista desde a abertura, beneficiadas pelo recuo acelerado do dólar, em meio em ambiente externo favorável ao apetite por risco, apesar de notícias negativas sobre uma vacina contra coronavírus. Os investidores retiram prêmios da curva a termo, ao mesmo tempo em que o resultado da inflação oficial ao consumidor brasileiro (IPCA) calibrou as expectativas sobre o rumo da Selic na semana que vem.

Ao final da sessão regular, o DI para janeiro de 2022 ficou com taxa de 2,79%, de 2,83% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 terminou projetando taxa de 4,00%, de 4,04% após o ajuste ontem; o DI para janeiro de 2025 encerrou em 5,81%, de 5,84%; e o DI para janeiro de 2027 ficou com taxa de 6,77%, de 6,79%, na mesma comparação.

Os principais índices do mercado de ações dos Estados Unidos fecharam o pregão em campo positivo depois de acelerarem os ganhos ao longo do dia em um movimento de recuperação após as altas perdas da última semana.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos principais índices de ações dos Estados Unidos após o fechamento:

Dow Jones: +1,60%, 27.940,47 pontos

Nasdaq Composto: +2,71%, 11.141,56 pontos

S&P 500: +2,01%, 3.398,96 pontos