Mercado vê novo corte na Selic e debate taxa ao final do ciclo

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Por: Olívia Bulla

São Paulo – O Comitê de Política Monetária (Copom) deve reduzir a taxa básica de juros pela terceira vez consecutiva neste mês, mantendo o ritmo de corte em 0,50 ponto percentual (pp), para 5%. Apesar do consenso, o mercado financeiro discute qual deve ser a duração e o nível da Selic ao final do ciclo de cortes, com muitos vendo uma extensão do processo até a taxa alcançar 4% – ou menos – já no início do ano que vem.

O fato é que o mercado financeiro tem constantemente precificado cortes mais intensos no juro básico, em meio ao sinal suave (“dovish”) emitido pelo Banco Central em sua comunicação recente e ao comportamento benigno da inflação, na esteira da atividade econômica ainda frágil, porém, em recuperação. O avanço da agenda econômica, em especial das reformas, também serve de ingrediente ao debate.

“Dos 4,75% mais recentes, há ‘casas’ partindo para os 4% ou até 3,75%. Daí, então, fica a pergunta: por que não 3%?”, indaga o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira. Para ele, o ideal seria que o ciclo terminasse neste mês, com a Selic em 5%. “O ponto importante é que não ocorreram mudanças substanciais no arcabouço macroeconômico para acreditar que tal cenário é estrutural”, avalia.

Nesse sentido, o economista-chefe da Necton Corretora, André Perfeito, questiona se uma taxa básica de juros abaixo de 4% é sustentável ou não. “Ou seja, estamos preconizando taxa de juros reais nula ao longo do ano que vem”, pondera, citando as projeções para a inflação oficial (IPCA), segundo o relatório de mercado Focus. “Há ainda muito o que acontecer em 2020, e não sei se isso valida juros reais em zero”, observa.

Para ambos os economistas, o problema é que a conjuntura do Brasil em 2020 deve mudar consideravelmente, com o país vivendo com uma taxa básica de juros sensivelmente mais baixa e uma recuperação mais acentuada da atividade, em um cenário permeado por um real desvalorizado. “À autoridade monetária, resta a cautela em conduzir o ciclo de juros de modo a não torná-lo um entrave, revertendo a política de afrouxamento no momento em que a recuperação econômica ganhar ímpeto”, avalia Vieira, da Infinity.

COLUNA DO MEIO

Diante desses fatores de risco ao esticar demais o ciclo de cortes, o nível consensual para o juro básico ao final do processo neste ano parece ser de 4,5%, conforme a mediana das expectativas trazidas no relatório de mercado Focus. Nesse cenário, o afrouxamento monetário encerraria no último encontro deste ano, em dezembro, com uma queda adicional de 0,50 ponto percentual (pp). A dúvida é: e depois?

Para o Bradesco, a inflação comportada deve levar a Selic a 4,5% ao final deste ano, ficando estável nessa taxa em 2020. “Se por um lado as surpresas baixistas com a inflação sugerem cortes adicionais de juros; por outro, a recuperação econômica que começa a ganhar corpo pode diminuir a necessidade, por parte do BC, de prover estímulos adicionais”, afirma o banco, em relatório assinado pelo diretor Fernando Honorato.

Já o Itaú prevê uma continuidade do processo no início do ano que vem, com dois cortes de 0,25 pp, cada, em fevereiro e em março, o que levaria a Selic a 4%. “Dada a queda do juro real neutro, é necessário estímulo monetário adicional para que a economia passe a ter uma recuperação mais robusta”, diz, em relatório, o economista-chefe do Itaú, Mário Mesquita.

Dessa forma, tudo indica que o aparente confronto entre inflação versus atividade irá equacionar o debate sobre juros neutros e a taxa terminal da Selic ao final do ciclo de cortes. E a principal razão para esse dilema é a questão sobre se o Brasil pode realmente ter inflação e juros tão baixos por um período prolongado. A conferir.

Edição: Eduardo Puccioni (e.puccioni@cma.com.br