Médicos defendem na CPI tratamento contra covid com acompanhamento

O médico infectologista e ex-presidente da Associação Gaúcha de Profissionais em Controle de Infecção e Epidemiologia Hospitalar, Ricardo Ariel Zimerman (e); o especialista em Infectologia pelo Instituto Emílio Ribas e diretor-presidente da Associação Nacional dos Médicos Peritos da Previdência Social (ANMP), Francisco Eduardo Cardoso Alves (m); e o presidente da CPI da Pandemia, senador Omar Aziz (PSD-AM) (d). (Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado)

São Paulo – Dois médicos ouvidos pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado que investiga erros e omissões do governo no combate à pandemia de covid-19 defenderam o uso de medicamentos já existentes para o tratamento de pacientes contaminados, desde que haja acompanhamento médico.

“Quem procura o médico e obtém um tratamento – e esse tratamento, repito, não é só a cloroquina e em alguns casos nem é a cloroquina -, a avaliação é individualizada. Temos quase 20 classes de drogas neste momento pesquisadas para tratamento de covid. E quem se submete a tratamento costuma ter evolução melhor do que aqueles que procuram tardiamente o tratamento”, disse Francisco Eduardo Cardoso Alves, diretor presidente da Associação Nacional dos Médicos Peritos (ANMP).

O infectologista Ricardo Ariel Zimerman ecoou a opinião, afirmando que nenhum tratamento contra a covid-19 pode ser feito “com kit fixo sem a prescrição do médico, sem a individualização”.

Os dois médicos foram chamados a falar em defesa do tratamento contra a covid-19 na CPI a pedido de senadores alinhados com o governo do presidente Jair Bolsonaro, que promove o uso de medicamentos já existentes para o tratamento da doença – em particular da cloroquina e da ivermectina, incentivando inclusive o uso de ambos.

Especialistas apontam que nenhum destes dois medicamentos é comprovadamente eficaz contra a covid-19. A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) afirma que até o momento não há nenhum estudo rigoroso – controlado e randomizado – que demonstre a eficácia de drogas atuais para tratar a doença.

Em março, a entidade chegou a publicar comunicado dizendo que “infelizmente, medicações como hidroxicloroquina/cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e colchicina, entre outras drogas, não possuem eficácia científica comprovada de benefício no tratamento ou prevenção da covid-19, quer seja na prevenção, na fase inicial ou nas fases avançadas dessa doença, sendo que, portanto, a utilização desses fármacos deve ser banida”.

A SBI foi a instituição que que posicionou contra um artigo publicado no American Journal of Medicine que defendia que médicos adotassem tratamentos contra a doença baseados nas evidências disponíveis diante da falta de estudos controlados sobre o assunto.

O artigo citava um estudo como prova que de que a hidroxicloroquina era eficaz contra a covid-19 e chegou a ser usado no Brasil para justificar o uso do medicamento no combate à doença. A SBI reportou ao American Journal of Medicine que o estudo citado na verdade dizia o contrário do que afirmava o artigo – ou seja, que a diferença entre tratar o paciente com a hidroxicloroquina ou com nenhum medicamento era insignificante.

Os médicos presentes na CPI disseram que, numa situação emergencial, como a da pandemia de covid-19, é preciso trabalhar com as evidências disponíveis, mesmo que elas não sejam as mais confiáveis.

“Muita gente foi introduzida ao conceito da medicina baseada em evidência e se vendeu a ideia de que medicina baseada em evidência, de que evidência científica, era somente os estudos padrão ouro, os chamados ensaios clínicos randomizados duplo cego controlados por placebo”, disse Zimerman.

“Óbvio que na pandemia a gente não deve se posicionar com base nesse nível de evidência. Medicina baseada em evidência não é ensaio clínico randomizado, é se posicionar com a melhor evidência disponível”, afirmou.

Alves também defendeu o uso dos medicamentos a despeito da ausência de evidências de eficácia colhidas na modalidade mais rigorosa de estudos clínicos. “Se a situação é emergencial, pandemia, a gente não pode se dar ao luxo de esperar meses ou anos por estudos perfeitos, caros, que não são conduzidos de maneira pública, e sim por entidades privadas, para poder determinar que tal tratamento deve ou não deve ser feito à população.”

Assista a íntegra da reunião: