Mandetta fica no governo e Bolsonaro insiste na cloroquina

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O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

São Paulo – O ministro da Saúde, Henrique Mandetta, afastou ontem à noite os receios quanto à possibilidade de ser demitido do cargo, indicando que chegou a um consenso com o presidente Jair Bolsonaro a respeito de como proceder no combate à pandemia do novo coronavírus – causador da Covid-19.

“Nós vamos continuar, porque continuando a gente vai enfrentar o nosso inimigo. Tem nome e sobrenome: é o Covid 19. Médico não abandona paciente. Eu não vou abandonar”, disse o ministro durante um pronunciamento. “A única coisa que a gente está pedindo é que tenhamos o melhor ambiente para trabalhar aqui dentro do Ministério da Saúde”, acrescentou.

Ele disse que uma reunião ocorrida ontem às 17h com Bolsonaro e os demais ministros “foi muito produtiva, muito boa. acho que governo se reposiciona no sentido de ter mais união.”

Apesar do discurso conciliador, Mandetta deixou claro que as declarações feitas por Bolsonaro, contrariando as recomendações feitas pelo Ministério e indicando que poderia trocar o comando da pasta estavam desestabilizando a equipe e atrapalhando as medidas de combate à Covid-19.

“É muito difícil num momento em que estão todos com nervos à flor da pele, pelos mais diferentes motivos, em que reações ão todas muito extremadas, é muito difícil trabalhar neste sistema em que a gente não sabe ao certo como vai ser o próximo dia, a próxima semana”, disse Mandetta.

“Gostamos da crítica construtiva. O que temos muita dificuldade é quando, em determinadas situações, por determinadas impressões, as críticas não vêm no sentido de construir, mas vem para trazer dificuldades no ambiente de trabalho”

“E isso não preciso traduzir, vocês todos sabem: isso tem sido uma constante. No Ministério da Saúde, de adotar determinada linha, adotar situação, e temos muitas vezes que voltar, fazer determinados contrapontos, para podermos reorganizar a equipe, que fica com uma sensação de angústia.”

Ele disse que ontem a equipe do Ministério da Saúde “rendeu muito pouco”. “Ficou todo mundo com a cabeça meio avoada se eu iria permanecer, se eu iria sair”, disse Mandetta. Teve gente aqui dentro limpando gaveta, pegando as coisas. Até minhas gavetas – vocês ajudaram a fazer a limpeza das minhas gavetas”, disse ele, dirigindo-se a outras autoridades do Ministério que estavam presentes no pronunciamento.

O ministro também rebateu críticas que sofreu nas redes sociais após um dos secretários do Ministério ter sido flagrado praticando corrida ao ar livre em Brasília. Segundo ele, a recomendação feita por ele é de isolamento social. “Não é quarentena, não é lockdown”, que são situações muito piores, segundo ele.

Mandetta também disse que o número de casos da Covid-19 no Brasil está dentro do esperado, mas reconheceu que existe dificuldade para fazer a testagem da doença.

Durante o pronunciamento, Mandetta fez menções ao embate sobre o uso da cloroquina para combater a Covid-19. A posição do ministro é de que ainda não há estudos comprovando a eficácia do medicamento nestes casos.

“O trabalho que nós fazemos é um trabalho técnico”, disse Mandetta.

“Não temos a menor pretensão de sermos os donos da verdade aqui dentro. Somos os donos das dúvidas e procuramos respostas nos consensos, às vezes muito complexos”, disse o ministro.

Bolsonaro, porém, é um entusiasta do uso da cloroquina, e vem defendendo publicamente o uso da substância. Ontem, em sua conta no Twitter, o presidente republicou uma notícia de que um estudo com médicos apontou o medicamento como eficaz para o tratamento da Covid-19.

Hoje, Bolsonaro publicou um vídeo de uma entrevista do médico David Uip, que recentemente se recuperou do novo coronavírus, em que ele se recusa a responder se tomou o medicamento.

Uip é o coordenador da equipe médica que assessora o governador de São Paulo, João Doria, na formulação de estratégias contra a Covid-19. Doria, por sua vez, questiona constantemente as posições de Bolsonaro sobre qual devem ser as medidas de combate à pandemia.

O presidente, por exemplo, defende que o isolamento social seja aplicado somente às pessoas que tem mais risco de morrer caso contraiam a Covid-19 idosos e pessoas com doenças crônicas. Doria e Mandetta defendem que o isolamento social seja o mais amplo possível.