Lula livre seria péssimo sinal e poderia atrapalhar reformas, dizem especialistas

Por: Olívia Bulla

São Paulo – A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) ontem à noite, por 6 votos a 5, de retomar o entendimento sobre a Constituição, de que um réu só pode cumprir pena depois de esgotados todos os recursos – derrubando a condenação em segunda instância e abrindo caminho para a soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – é um “péssimo sinal” e pode prejudicar o governo Bolsonaro, avaliam especialistas consultados pela Agência CMA.

Para o economista-chefe da Necton Corretora, André Perfeito, o petista solto pode alterar, “e muito”, a dinâmica política no Brasil, com efeitos práticos no conjunto de reformas enviadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, ao Congresso nesta semana. “A saída de Lula pode beneficiar Bolsonaro no curto prazo e atrapalhar as reformas”, diz, em comentário a clientes.

O economista explica que, em um primeiro momento, haverá “certo alívio” para o Palácio do Planalto, na medida em que a volta de Lula ao cenário político irá monopolizar as atenções da sociedade e de Brasília, “tornando assim menores os problemas que pairam sobre o presidente”. Ao mesmo tempo, porém, ele observa que, “muito provavelmente” o clima político no país irá de novo se radicalizar.

“E isso pode atrapalhar, em parte, a agenda de reformas, uma vez que o presidente Bolsonaro se encontra politicamente frágil e praticamente sem partido, o que fará ele radicalizar também do seu lado e, assim fazer, o gasto de energia para aprovar a reforma será menor”, conclui. Perfeito diz ainda que parte do Congresso pode reavaliar a posição pró-reformas, “ao farejar no ar uma mudança dos rumos da política nacional”.

Já o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, afirma que a decisão do STF emite um “sinal péssimo” e cria uma insegurança jurídica e institucional no país. “A decisão do STF de 2016, apoiando a prisão em segunda instância, era, na verdade, uma correção de um excrescência tipicamente brasileira”, diz. “É o paraíso da impunidade”, emenda.

O analista político da Levante Investimentos, Felipe Berenguer, também avalia que a mudança no entendimento do STF sobre prisão em segunda instância traz insegurança jurídica, mas ele observa que não se imaginava outro desfecho, senão o de reversão. Para ele, a principal consequência da decisão é a “nova conjuntura política” para o ano que vem. 

“Com Lula solto, a postura do PT vai mudar. Espera-se mais oposição organizada ao governo [Bolsonaro], já que ela praticamente não existiu esse ano”, avalia, lembrando que a pauta da oposição era “Lula Livre e ponto”. “A oposição, principalmente petista, deve capitalizar a soltura de seu líder e renovar a estratégia política”, observa o analista político da Levante. 

Com isso, Berenguer prevê uma oposição “mais organizada” ao governo Bolsonaro. “E isso pode dificultar ainda mais o avanço da agenda no Congresso, por exemplo”, diz. Para ele, as eleições municipais do ano que vem serão um “bom termômetro”.

Mercado atento

No âmbito do mercado financeiro, o economista da Necton afirma que essa cena política deve ser vista “com atenção” pelos investidores. Ainda assim, Perfeito avalia que, no curto prazo, o mercado doméstico tende a ignorar a liberdade de Lula. “Muito mais grave será se for aprovada a suspeição do ministro [da Justiça] Sérgio Moro, o que poderia ser um ataque direto à Operação Lava Jato”, finaliza.

Vieira, da Infinity, porém, avalia que o sinal ao investidor estrangeiro não poderia ser pior, o que tende a afugentar o ingresso de recursos externos. “O ímpeto de investir no Brasil fica prejudicado, principalmente daqueles dispostos a despender grandes quantidades de recursos, como no caso do saneamento básico”, avalia.

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