Lagarde vê luz no fim do túnel, mas reafirma que apoio do BCE à economia continua

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde / Foto: BCE

São Paulo – A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, reafirmou o compromisso da autoridade no apoio da economia da eurozona até que a crise provocada pela pandemia do novo coronavírus tenha sido superada. Isso significa que a política deve seguir acomodatícia, com juros baixos e compras de ativos, por algum tempo.

Participando do Fórum de Segurança de Aspen, Lagarde disse que vê uma recuperação mais sólida da eurozona a partir do segundo semestre. Embora tenha uma perspectiva otimista para a economia da região, ela ressaltou que as ondas de casos de covid-19 na Europa ainda são fatores de incerteza para a atividade.

“O segundo trimestre deve ser melhor do que o primeiro, mas vejo uma recuperação mais sólida da economia da eurozona a partir do segundo semestre. Ainda assim, o trabalho do BCE não está concluído, ainda devemos fornecer apoio à economia porque há muita incerteza relacionada à pandemia. Não podemos dizer que o pior ficou para trás porque estamos enfrentando uma terceira onda de casos, mas há luz no final do túnel com a vacinação”, afirmou.

No mês passado, o BCE apresentou suas novas projeções para a economia. Na ocasião, a autoridade monetária revisou para cima sua projeção de alta de Produto Interno Bruto (PIB) da eurozona para este ano, para 4,0%, ante projeção de avanço de 3,9% divulgada em dezembro.

Para alcançar esse nível de expansão após uma recessão tão severa, o BCE mantém uma série de medidas acomodatícias para ajudar a economia da eurozona a atravessar a crise atual, entre elas, o programa de compra de emergência pandêmica (PEPP, na sigla em inglês) de US$ 1,850 trilhão de euros e compras mensais de ativos de 20 bilhões de euros, além de juros baixos.

“O BCE adotou medidas efetivas e necessárias para mitigar os efeitos adversos da crise. Essas medidas apoiaram a economia e também evitaram a fragmentação do crédito. Nosso objetivo é cumprir nosso mandato [de inflação próxima, porém abaixo de 2% ao ano], mas também garantir condições favoráveis de crédito para que famílias e empresas consigam sobreviver a esse período”, disse.

Ela vê como o maior desafio do BCE a garantia de que seu mandato de inflação seja entregue em meio às turbulências provocadas por uma pandemia que ainda não está controlada.

“Precisamos entender como as pessoas retomarão sua vida quando a pandemia estiver sob controle. Entender se vão consumir como antes, se vão trabalhar da mesma forma ou se vão ou não retornar ao mercado de trabalho. Tudo isso interfere em nosso mandato e se reflete na condução da política monetária”, afirmou.

COORDENAÇÃO ENTRE BANCOS CENTRAIS

Durante sua participação do evento virtual, Lagarde destacou a ação coordenada dos bancos centrais no ano passado, quando o pior da crise atingiu as maiores economias do mundo. No entanto, ela reforçou a independência do BCE.

“O BCE trabalhou em coordenação com outros bancos centrais, o que foi fundamental para mitigar os efeitos da crise”, disse ela, referindo-se ao corte coordenado das taxas de juros e também aos programas de estímulos dos bancos centrais que foram implementados na ocasião.

“Converso com o presidente [do Federal Reserve, Jerome] Powell regularmente, mas a crise atual fez com que esse contato aumentasse, nos falamos dia sim, dia não”, acrescentou.

Ela reforçou que apesar desse contato intenso, o BCE segue independente. “Agimos de maneira independente, temos um mandato único e exclusivo [inflação], diferente do Fed, que tem um mandato duplo [inflação e emprego] e agimos para alcança-lo”, completou.