Laboratórios têm que vender vacina, eu não tenho que ir atrás, diz Bolsonaro

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Presidente Jair Bolsonaro cumprimenta populares na entrada do Palácio da Alvorada na manhã desse sábado. (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

São Paulo – O presidente Jair Bolsonaro disse que a venda das vacinas contra a covid-19 ao Brasil é de interesse dos laboratórios e indicou que pretende esperar as empresas tomarem a iniciativa de fornecer o material ao país, em vez de buscar ativamente a obtenção dos medicamentos.

“O Brasil tem 210 milhões de habitantes, é um mercado consumidor de qualquer coisa, enorme. Os laboratórios não tinham que estar interessados em vender para a gente? Por que é que eles então não apresentam a documentação para a Anvisa”, disse ele mais cedo no Palácio da Alvorada. “Pessoal diz que eu tenho que ir atrás. Não, não.”

Ontem o presidente já havia dito em suas redes sociais que o governo tem “pressa” em obter a vacina, mas que cabia aos laboratórios buscarem a aprovação dos medicamentos junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

“Existem quatro laboratórios que desenvolvem estudos clínicos de vacinas no Brasil. Contudo, nenhum deles até agora apresentou junto à Anvisa pedido de uso emergencial ou de registro”, disse ele ontem em sua conta no Twitter.

“Tão logo um laboratório apresente seu pedido de uso emergencial ou registro junto à Anvisa, e esta proceda a sua análise completa e o acolha, a vacina será ofertada a todos e de forma gratuita e não obrigatória”, acrescentou.

“Temos pressa em obter uma vacina, segura, eficaz e com qualidade, fabricada por laboratórios devidamente certificados. Mas a questão da responsabilidade por reações adversas de suas vacinas é um tema de grande impacto e que precisa ser muito bem esclarecido”, afirmou.

Os quatro laboratórios a que Bolsonaro se referiu são a AstraZeneca, que desenvolve sua vacina em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Sinovac, que tem parceria com o Instituto Butantan, a Janssen e a Pfizer.

Embora no Brasil ainda não haja autorização regulatória para a aplicação das vacinas, a da Pfizer está sendo usada em campanhas de vacinação no Reino Unido, na União Europeia e nos Estados Unidos. Além disso, Colômbia e México também já asseguraram doses da vacina.

A vacina da Sinovac foi encomendada pela Indonésia, pela Turquia e pelo governo paulista. Os resultados dos testes da vacina da Sinovac no Brasil não foram detalhados, mas nos outros países a vacina obteve eficácia suficiente para receber aprovação das autoridades. Ela também chegou a ser aplicada em algumas pessoas na China.

A vacina da AstraZeneca – a aposta do governo federal – ainda não está em uso e precisou prorrogar o período de ensaios clínicos após o descumprimento dos protocolos inicialmente previstos para os testes. A vacina da Janssen também ainda não foi usada em nenhuma campanha de imunização contra a covid-19.

O outro ponto mencionado por Bolsonaro para evitar a compra antecipada das vacinas é de que elas podem causar reações adversas e que as empresas não se responsabilizariam por isso.

Nas últimas semanas, houve pelo menos nove relatos de reações adversas graves relacionados à vacina da Pfizer – um número muito pequeno quando comparado ao total de vacinados. No Reino Unido, somente na primeira semana, mais de 130 mil pessoas foram imunizadas com a vacina do laboratório americano.

Dados divulgados em setembro pela Sinovac apontaram que cerca de 5% das pessoas que receberam a vacina tiveram algum tipo de fadiga ou desconforto.

ACORDO COM A PFIZER

No início de dezembro, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, disse em entrevista à CNN Brasil que o Brasil poderia começar a usar a vacina da Pfizer entre dezembro e janeiro caso ela recebesse autorização para uso emergencial pela Anvisa e se a empresa antecipasse a entrega de alguns lotes para o país – o que não aconteceu, apesar de o governo e a Pfizer terem assinado um memorando de entendimento em relação à transação.

O presidente da Pfizer Brasil, Carlos Murillo, disse na época que o contrato final só será assinado após a Anvisa conceder o registro da vacina à companhia. Os termos negociados previam a compra de 70 milhões de doses da vacina da Pfizer, e, segundo ele, a entrega das vacinas aconteceria “quase imediatamente depois de recebida a aprovação de uso emergencial pela Anvisa”.

ANDAMENTO NA ANVISA

Dados publicados pela Anvisa e atualizados até a última quarta-feira (23) mostram que só AstraZeneca e Pfizer apresentaram os resultados dos estudos feitos com a vacina no Brasil, e que dentre as duas apenas as fábricas da AstraZeneca receberam certificação de boas práticas – uma das etapas necessárias para a obtenção do registro da vacina.

No caso da Pfizer, a análise das fábricas foi solicitada, porém não foi concluída. A Anvisa também não concluiu a análise dos planos de gerenciamento de risco da Pfizer – algo que já foi feito com os demais laboratórios.

A Sinovac e o Butantan receberam a certificação das fábricas, mas ainda não divulgaram os resultados dos ensaios clínicos com a vacina no Brasil. A Janssen não apresentou os resultados nem recebeu a certificação das fábricas, embora já tenha solicitado isso à Anvisa.