Juros de títulos dos EUA devem continuar subindo e Fed deve aguardar

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São Paulo – O processo de vacinação contra a covid-19 está ganhando tração nos Estados Unidos, oferecendo uma luz no fim do túnel para a crise provocada pela pandemia e melhorando as perspectivas de recuperação econômica. Esse cenário tem provocado alvoroço em Wall Street, que vem amargando sucessivas perdas em meio a um salto nos juros dos títulos de dez anos do Tesouro norte-americano.

“As ações ligadas à reabertura da economia estão ganhando terreno significativo, enquanto nomes ligados a ordem de permanência em casa estão enfrentando ventos contrários bastante rígidos. Esse movimento ajuda a alimentar a ideia de que os juros dos títulos do Tesouro estão subindo devido ao crescente otimismo sobre a recuperação, e não às expectativas de um aperto prematuro da política monetária”, afirmou o analista sênior de mercado da Caxton, Michael Brown.

Os investidores, que no ano passado apostaram em gigantes de tecnologia que se beneficiaram da demanda gerada pelas medidas restritivas, começaram a correr de ações de alto valor, enviando os papéis de empresas como Apple, Alphabet e Netflix para o negativo. Já outros setores, que se beneficiariam da recuperação econômica, dispararam. Energia ganhou 6,8% só nesta semana, enquanto o industrial e o financeiro são os únicos dois outros segmentos que estão em campo positivo até o momento na semana.

Esse movimento vem acompanhado de um aumento acentuado e rápido nos juros dos Treasuries, que ontem superaram 1,50% – um limite considerado fundamental para o mercado de títulos e, que segundo analistas, pode prenunciar problemas para as ações.

Os investidores tendem a vender títulos do Tesouro quando esperam um crescimento e inflação mais rápidos, o que reduz o valor dos pagamentos fixos desses papéis e pode levar o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) a aumentar a taxa básica – atualmente próxima de zero.

Taxas mais altas tendem a atingir o setor de tecnologia de maneira especialmente forte, já que o grupo depende de empréstimos fáceis para um crescimento superior.

“Parte do avanço dos juros é impulsionado pelo maior otimismo sobre as perspectivas econômicas. Nesses casos, os investidores esperam uma demanda mais forte para impulsionar o crescimento e a inflação. Embora possam antecipar uma resposta do Fed, a compensação pela inflação normalmente aumenta”, disse o economista da Capital Economics, Oliver Jones.

Segundo ele, outra parte do aumento dos juros pode ter mais a ver com uma reavaliação do pensamento do banco central. “Os investidores acreditam que sua função de reação mudou:  manterá a política mais rígida para qualquer conjunto de condições, portanto, a compensação da inflação pode cair”, acrescentou.

FIM DO DINHEIRO FÁCIL

Embora vários membros do Federal Reserve tenham dito que a alta dos juros dos Treasuries em direção aos níveis pré-pandêmicos marca um retorno à normalidade e não é problemático, alguns investidores estão preocupados que uma aceleração da inflação possa forçar o banco central norte-americano a aumentar a taxa básica mais rápido do que o esperado.

Para o chefe da divisão Global Economics & Markets do Rabobank, Jan Lambregts, o apetite dos formuladores de política monetária para aceitar juros mais elevados é limitado. “Instrumentos como o controle da curva de juros não serão evitados para manter as guias do governo acessíveis, se necessário”, afirma.

Nesta semana, o presidente do Fed, Jerome Powell, disse aos legisladores que, embora a economia dos Estados Unidos tenha se recuperado desde o início da desaceleração, o banco central pretende manter suas políticas de dinheiro fácil até que “progressos substanciais tenham sido feitos” em direção às suas metas de emprego e inflação.

O banco central cortou as taxas de juros para quase zero e se comprometeu a comprar bilhões de dólares em títulos do Tesouro e hipotecas para manter os custos dos empréstimos dos Estados Unidos baixos e ajudar na recuperação.

Durante grande parte do ano passado, os investidores expressaram confiança de que o Fed – a fim de apoiar a economia – evitaria que os juros dos Treasuries subissem muito mais do que 1,00%, aumentando a quantidade de títulos do Tesouro de longo prazo que eles compram a cada mês. Mas essa confiança evaporou desde então, removendo uma restrição importante ao aumento dos juros desses papéis.

Para o analista chefe da Nordea, Jan von Gerich, a perspectiva é de que os juros desses títulos aumentem ainda mais. “Não é difícil encontrar argumentos para explicar por que os juros longos devem subir consideravelmente mais: a economia em recuperação, enormes medidas de estímulo, grandes necessidades de emissão de títulos, expectativas de inflação mais altas e a relutância dos bancos centrais em reduzir ainda mais a taxa básica”, afirmou.

FED VERSUS BCE

A visão dos bancos centrais sobre o comportamento dos juros no mercado de dívida diverge: enquanto o Fed encara o movimento com mais naturalidade, o Banco Central Europeu (BCE) já sinalizou preocupação com o recente salto.

A presidente do BCE, Christine Lagarde comentou no início desta semana que a autoridade monetária estava monitorando de perto a evolução dos juros dos títulos de longo prazo. Os títulos subiram imediatamente após esses comentários, embora o desenvolvimento do mercado nos dias seguintes sugira que o BCE pode precisar aumentar o ritmo de suas compras de ativos para impedir que os juros subam ainda mais.

“O BCE enfrenta algumas restrições legais quanto ao tamanho da parcela de títulos do governo que pode possuir, mas tais restrições foram deixadas de lado no Programa de Compra de Emergência Pandêmica [PEPP, na sigla em inglês] por enquanto”, afirma Von Gerich, da Nordea.

Enquanto os juros mais longos do Tesouro dos Estados Unidos estão em tendência de alta há mais de seis meses, os juros dos títulos alemães parecem ter se juntado à festa apenas no mês passado. No quadro geral, segundo os analistas, os movimentos vistos nos juros mais longos do euro em janeiro ainda parecem muito modestos.

“Após um longo período de níveis muito moderados e dada a vontade do BCE de manter as condições de financiamento fáceis, eles se destacam”, acrescenta Von Gerich.

O Fed parece mais relaxado e considera os juros mais longos e mais altos e uma curva mais íngreme como um sinal positivo. “Ainda assim, uma mudança na política do Fed está longe de acontecer já que vários membros do banco central, incluindo Powell, ressaltaram que a economia está distante das metas de pleno emprego e estabilidade de preços”, completou Jones, da Capital Economics.