Judicialização e governabilidade de Biden são focos para o dólar

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O democrata Joe Biden em discurso / Foto: Campanha de Joe Biden

São Paulo – Com a vitória do democrata Joe Biden na corrida presidencial nos Estados Unidos embutida no preço do dólar, que recuou 6,11% na semana passada, investidores devem acompanhar o desfecho jurídico da eleição norte-americana após o presidente Donald Trump não reconhecer a vitória do adversário, que obtém a maioria dos votos, e promete prolongar o processo eleitoral.

Para o cientista político da Tendências Consultoria, Rafael Cortez, a transição do governo norte-americano já está praticamente no preço dos ativos, porém, as incertezas do mercado devem se voltar ao risco de judicialização e ao grau de governabilidade de Biden.

“No curto prazo, a gente pode ter um desdobramento mais sensível para a política norte-americana e que pode indicar os desafios de governabilidade do Biden”, avalia. Ele destaca que é preciso confirmar a composição da eleição do Senado – com a apuração dos votos em andamento – já que a leitura é de um governo dividido, com a casa no controle dos republicanos.

Neste cenário, Cortez explica que há uma ideia de que Biden tenha limites para impor a agenda de governo, sobretudo, em relação ao aumento de carga tributária e o grau de estímulo fiscal. “Com a ideia de um menor estímulo fiscal e que um aumento relevante de tributação das corporações não se materializaria, além da taxa de juros se manter baixa por mais tempo, isso teria mais efeito na taxa de câmbio”, diz.

A equipe econômica da Asa Investiments reforça que um cenário de Senado composto por mais republicanos é avaliado como positivo para os ativos. “Se de um lado, poderá haver a aprovação de estímulos fiscais menos robustos em 2021, o governo Biden poderá não ter apoio em sua agenda de elevação de impostos e aumento da regulação econômica, de outro”, destaca.

Apesar de possíveis entraves jurídicos e com a composição do Senado indefinida, o CEO da Franklin Templeton Investimentos, Marcus Vinicius Gonçalves, aposta que o cenário do dólar não deve “mudar muito” com a eleição de Biden. “Antes da eleição, o mercado precificou que, com a onda azul [“blue wave”], poderia ter uma depreciação da moeda com um gasto maior do que o devido. Mas essa visão mudou um pouco, agora, é mais de estabilidade do dólar a médio a longo prazo”, diz.

A economista-chefe do banco Ourinvest, Fernanda Consorte, observa que a judicialização deve provocar volatilidade, mas sem mudar a tendência de preços mais baixos nos próximos dias. A expectativa é de arrefecimento da guerra comercial com a China. “Vejo um cenário positivo a médio prazo porque Biden terá um diálogo melhor com a China e a guerra comercial, não que vá acabar, mas pode dar passos melhores e mais rápidos. O que pode trazer alívio na taxa de câmbio, beneficiando os emergentes”, comenta. Já Cortez, da Tendências, acredita em um diálogo mais organizado entre os países.

Os analistas da Asa Investiments ponderam que o cenário que se desenha para os emergentes, em especial para o Brasil, é positivo, já que caminha para ser um Congresso norte-americano dividido. “Teremos um impulso fiscal significativo, com maior crescimento nos Estados Unidos, junto com um retorno a uma agenda multilateral”, acrescentam.

RELAÇÃO BIDEN X BRASIL

Diferentemente de boa parte dos principais chefes de estado, o presidente Jair Bolsonaro ainda não se pronunciou sobre a vantagem de Biden na apuração dos votos, o que elege o democrata. A profissional do Ourinvest avalia que não houve “benesses” [para o Brasil] na amizade entre Bolsonaro e Trump. “Eu tenho dificuldade de listar algo nesses dois anos de amizade”, diz.

Ela destaca que o diálogo de Biden com o Brasil sobre o meio ambiente é necessário e é importante acontecer. O cientista político da Tendências reforça que a pauta “atinge” o Brasil diretamente e que o país tem “um déficit” no que se refere à governança ambiental.

Para Cortez, o futuro presidente dos Estados Unidos deverá incorporar princípios como democracia e governança ambiental nas relações internacionais. “Nesse sentido, o Brasil vai precisar mudar os pilares da política externa que prevaleceu nesses dois anos da administração Bolsonaro”, finaliza.