Investidores ficam otimistas com fala de Guedes sobre reforma administrativa

São Paulo – Após encerrar agosto em forte queda ontem, o Ibovespa fechou o primeiro pregão de setembro em alta de 2,81%, aos 102.167,65 pontos, com otimismo após a notícia de que a proposta do governo sobre a reforma administrativa será enviada ao Congresso nesta quinta-feira e que a reforma tributária também deve ser enviada em breve. Investidores ainda viram com bons olhos a extensão do auxílio emergencial no valor de R$ 300,00, abaixo dos R$ 600,00 atuais.

As sinalizações dadas pelo governo ajudaram a ofuscar o tombo histórico do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no segundo trimestre divulgado hoje e, agora, investidores vão querer ver como ficará o andamento das reformas na prática. O volume total negociado foi de R$ 26,7 bilhões.

“O governo aproveitou a proposta da reforma administrativa como um trunfo depois de tudo o que aconteceu e do desalinhamento visto. Foi uma surpresa positiva no mesmo dia de um PIB negativo, mas essa estratégia tem riscos”, disse o sócio e head da área de produtos da Monte Bravo Investimentos, Rodrigo Franchini.

Após reunião do presidente Jair Bolsonaro com líderes da base do governo, foi anunciado que a reforma administrativa será enviada ao Congresso nesta quinta-feira, o que foi confirmado pelo ministro da economia, Paulo Guedes, que participou de comissão mista sobre a covid-19 no Congresso. Também foi confirmado que auxílio emergencial será estendido em quatro parcelas de R$ 300,00.

As indicações veem no dia em que o PIB do Brasil teve queda recorde de 9,7% no segundo trimestre frente ao trimestre anterior, confirmando uma recessão técnica, e depois que o projeto do orçamento para 2021 apresentado pelo governo ontem frustrou um pouco as expectativas sobre o mercado. A proposta foi considerada “apertada” e não trouxe muitas informações sobre o programa Renda Brasil, que deve substituir o Bolsa Família. Segundo Guedes, o programa continua sendo desenvolvido e deve usar recursos de vários programas sociais, além de usar dinheiro também de outras fontes.

Para Franchini, embora as sinalizações hoje tenham sido boas, há risco de se elevar o otimismo demais e as reformas continuarem demorando a sair do papel. “Me parece que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, está alinhado com as reformas, mas há dúvidas sobre a base do governo ainda, sem falar as mudanças que ainda podem acontecer nos projetos, ainda há muita incerteza”, alertou.

O economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira, também acredita que será preciso aguardar o “timing” do Congresso e que o governo precisará fazer mais para que a economia volte a andar e atrair investimentos. “Tem que fazer mais, ainda tem privatizações, mudanças legais para serem feitas, depois que o PIB mostrou a formação bruta de capital fixo caiu mais de 15%”, disse.

No exterior, as Bolsas norte-americanas fecharam alta após indicadores divulgados e em meio a negociações sobre o pacote de estímulos no país. Hoje, o secretário do Tesouro norte-americano, Steven Mnuchin, disse que um acordo bipartidário sobre uma nova rodada de estímulos ainda é possível.

Entre as ações, as maiores alta do Ibovespa foram das ações da Hering (HGTX3 8,91%), da Ultrapar (UGPA3 6,17%) e da Hapvida (HAPV3 6,41%). Na contramão, as maiores quedas são da Marfrig (MRFG3 -3,31%), do IRB Brasil (IRBR3 -2,24%) e da Cosan (CSAN3 -1,80%).

Amanhã, na agenda de indicadores, investidores devem acompanhar principalmente os dados de criação de empregos no setor privado nos Estados Unidos em agosto, além de encomendas às fábricas e o Livro Bege. Já na Europa, a Alemanha divulga vendas no varejo, enquanto no Brasil serão divulgados dados de inflação como o índice de preços ao produtor.

O dólar comercial fechou em forte queda de 1,66% no mercado à vista, cotado a R$ 5,3870 para venda, em sessão de otimismo local após o ministro da Economia, Paulo Guedes, declarar que a equipe econômica entregará a reforma administrativa ao Congresso na quinta-feira. No âmbito fiscal, as preocupações seguem no radar, mas investidores receberam de forma positiva a confirmação de que o auxílio emergencial será de R$ 300 pagos em quatro parcelas adicionais.

“O dólar reagiu com contentamento dos investidores diante de importantes avanços de âmbito fiscal, no qual importantes decisões sobre o auxílio emergencial foram tomadas, a promessa de entrega da proposta de reforma administrativa da União, além do compromisso com a responsabilidade fiscal”, comenta o analista de câmbio da Correparti, Ricardo Gomes Filho.

Ele acrescenta que os ânimos dos investidores se acalmaram no mercado local, mesmo diante do tombo histórico do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, de 9,7% no segundo trimestre ante o trimestre anterior.

“Como disse o ministro Paulo Guedes sobre o [resultado do] PIB do segundo trimestre, foi ‘o barulho de um raio que caiu em abril’. Só que o telhado começou a cair em dezembro e, em março, já tinha ruído. O dano causado pelo ruidoso raio se deu sobre paredes frágeis e encanamentos entupidos”, avalia a equipe econômica do banco Fator.

A estrategista de câmbio do banco Ourinvest, Cristiane Quartaroli, destaca o resultado negativo dos investimentos estrangeiros no país. “Para recuperar essas perdas é demorado, leva um tempo”, diz.

Segundo Quartaroli, apesar do ambiente positivo no primeiro pregão de setembro, também impulsionado pelo exterior otimista com os dados da atividade industrial nos Estados Unidos e na China dando sinais de recuperação das duas maiores economias do mundo, o mês deverá ser ancorado pela questão fiscal no país.

“Investidores estão atentos ao teto dos gastos e em busca de respostas sobre o programa Renda Brasil e até mesmo à espera de detalhes do Projeto de Lei Orçamentária [PLOA] apresentado ontem. Além dos desdobramentos da reforma administrativa”, ressalta.

A profissional do Ourinvest acrescenta que o andamento das eleições norte-americanas deverá precificar o mercado com mais intensidade em meio ao espaço que o candidato Joe Biden vem ganhando nas pesquisas contra a tentativa de reeleição de Donald Trump.

Amanhã, com a agenda de indicadores menos pesada, tendo como destaque os números da criação de emprego no setor privado (ADP) dos Estados Unidos em agosto – com previsão de criar 1,170 milhão de vagas – Quartaroli acredita que a questão política e fiscal deverá pautar o mercado local em mais uma sessão.

As taxas dos contratos de juros futuros (DIs) encerraram a sessão em forte queda, mantendo a trajetória observada desde a abertura do pregão, acompanhando as perdas aceleradas do dólar. O noticiário vindo de Brasília, em torno do ajuste fiscal e das reformas estruturais, e o cenário externo favorável ao risco ditaram o movimento, com os investidores também digerindo os números do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre deste ano.

Ao final da sessão regular, o DI para janeiro de 2022 ficou com taxa de 2,79%, de 2,84% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 terminou projetando taxa de 3,96%, de 4,04% após o ajuste ontem; o DI para janeiro de 2025 encerrou em 5,77%, de 5,88%; e o DI para janeiro de 2027 ficou com taxa de 6,74%, de 6,85%, na mesma comparação.

Os principais índices do mercado de ações norte-americano fecharam em alta, com o S&P 500 e o Nasdaq renovando máximas, embalados por dados da indústria que mostraram que a economia segue a caminho da recuperação dos efeitos da crise provocada pelo novo coronavírus.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos principais índices de ações dos Estados Unidos no fechamento:

Dow Jones: +0,76%, 28.645,66 pontos

Nasdaq Composto: +1,39%, 11.393,66 pontos

S&P 500: +0,75%, 3.526,65 pontos