Inflação fraca pode levar BCE a adotar novos estímulos ainda em 2020

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Sede do Banco Central Europeu (BCE), em Frankfurt. Foto: Divulgação/ BCE

São Paulo – O Banco Central Europeu (BCE) deve manter sua política monetária inalterada na reunião de amanhã, mas a queda na taxa de inflação na eurozona deve levar a instituição a fazer novos ajustes ainda este ano, enquanto a valorização do euro passa a ser considerada, segundo especialistas consultados pela Agência CMA.

Assim, a taxa básica de juros na zona do euro deve permanecer em zero; a taxa de depósito em -0,5% ao ano e a taxa para concessão de liquidez para bancos em 0,25%. O programa de compra de emergência pandêmica (PEPP, na sigla em inglês) deve seguir em US$ 1,35 trilhão de euros, com duração até junho de 2021.

Os analistas, porém, defendem alterações no programa ainda este ano, depois de um aumento de 600 bilhões de euros em junho, da extensão no prazo e do compromisso de reinvestimentos até o final de 2022, para que a inflação atinja de forma sustentável à meta do BCE, de aproximadamente 2% ao ano.

O índice de preços ao consumidor dos países que compõem a zona do euro caiu 0,2% em agosto na comparação com o mesmo período de 2019, após alta de 0,4% de julho, segundo dados preliminares divulgados pela agência de estatísticas Eurostat. Já o núcleo da inflação foi de 0,4% em agosto, depois de 1,2% em julho.

Além disso, o número diário de casos do novo coronavírus voltou a subir na Espanha e em outros países da Europa, levando governos a colocarem novamente em vigor medidas de restrições a grandes reuniões e viagens, entre outras – o que pode culminar na redução tanto dos gastos quanto da confiança dos consumidores.

“O BCE deve permanecer em espera, mas uma perspectiva de inflação enfraquecida significará que ele precisa considerar fazer mais e por mais tempo. Para esse fim, uma decisão de estender o PEPP até o final de 2021 poderia ser tomada este ano, com um adicional de 500 bilhões de euros alocados”, segundo o analista do Société Générale, Klaus Baader.

Da mesma forma, os analistas do Nordea, Anders Svendsen, Jan von Gerich e Tuuli Koivu, afirmaram em relatório que a presidente do BCE, Christine Lagarde, deve prometer novas medidas de estímulos na coletiva de imprensa após a reunião.

Segundo eles, um afrouxamento adicional poderia incluir uma expansão e extensão do PEPP, além de termos operações direcionadas de refinanciamento de longo prazo (TLTROs, na sigla em inglês) mais fáceis, mais operações de refinanciamento e alterações nas orientações futuras do BCE.

“O BCE também poderia se comprometer explicitamente com um ritmo de compra mais alto do que o visto recentemente, sem aumentar o tamanho geral do PEPP”, afirmaram, destacando que o BCE ainda tem várias ferramentas à sua disposição.

EURO

A valorização do euro ante o dólar atraiu atenção antes da reunião do BCE desta semana, após o economista-chefe da instituição, Phillip Lane, afirmar a questão está incorporada no cenário de política monetária do banco.

“A taxa euro-dólar é importante”, disse Lane na terça-feira passada. “Se há forças movendo a taxa euro-dólar, isso se incorpora em nossas previsões globais e europeias e que, por sua vez, se incorpora em nosso cenário de política monetária”, afirmou ele.

“O BCE está sob pressão para evitar um fortalecimento adicional do euro, com o núcleo da inflação já em mínimos históricos”, segundo analistas do Nordea. “O euro mais forte leva a condições financeiras mais restritivas e pressionará as projeções de núcleo de inflação para baixo”.

Para os analistas, a mera menção de Lane à moeda quando o euro ficou acima de US$ 1,20 foi o suficiente para empurrá-lo para baixo. “Mas Lagarde terá que prosseguir com comentários mais ‘dovish’ [propenso ao afrouxamento monetário] para evitar que o par de moedas suba ainda mais”.

O euro se valorizou quase 10% em relação ao dólar desde meados de maio e perto de 5% em termos ponderados para o comércio no mesmo período, disse o economista da Capital Economics, Andrew Kenningham.

“No entanto, duvidamos que esse movimento cambial tenha sido grande o suficiente para realmente preocupar o BCE. O euro não está nem perto de uma alta histórica em termos reais ponderados pelo comércio, que é o que importa para os exportadores. Nem está perto de seu recorde de alta de US$ 1,59 em relação ao dólar norte-americano, estabelecido em 2008”.

PROJEÇÕES

Na reunião desta semana, o BCE divulga suas projeções econômicas, e a expectativa é por redução ainda maior nas previsões para a taxa de inflação, enquanto a expectativa para o Produto Interno Bruto (PIB) pode melhorar um pouco.

Segundo Kenningham, o BCE pode aumentar ligeiramente sua previsão para o crescimento da economia em 2020, depois da projeção de queda de 8,7% publicada em junho, uma vez que a recuperação inicial foi um pouco mais forte do que o previsto.

“No entanto, como as perspectivas para o final do ano e para 2021 não melhoraram, esperamos que a avaliação geral do banco permaneça cautelosa”.

Em junho, a projeção era de que a taxa inflação da eurozona aumentaria para 1,3% até 2022. “Sentimos que isso era muito otimista na época e agora esperamos que o banco reduza sua previsão para 1,1% ou 1,2%”, disse.

Para o economista do ING, Carsten Brzeski, qualquer revisão para baixo na estimativa de inflação aumentará a probabilidade de estímulos monetários adicionais. “O recente fortalecimento do euro pode ser um fator para essas revisões em baixa. O euro mais forte poderia facilmente levar a uma revisão em baixa das previsões de inflação em 0,2 pontos percentuais”.

Por fim, alguns analistas destacaram que a recente decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) de passar para uma meta de inflação média pode levar o BCE a redefinir a sua própria estratégia de revisão.

No entanto, “não esperamos quaisquer esclarecimentos sobre a estratégia do BCE na próxima semana. É difícil acreditar que Lagarde queira se antecipar à discussão que acaba de começar”, disse Brzeski. “No final, no entanto, continuamos a ver o BCE a mover-se para um objetivo mais simétrico, alterando a definição de estabilidade de preços para ‘cerca de 2%'”.