Impeachment afeta pouco eleição, mas traz custos à Trump

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São Paulo – O processo de impeachment terá um custo político para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, embora não deva resultar em seu afastamento e altere pouco sua popularidade durante a campanha para ser reeleito ao cargo em novembro de 2020, segundo analistas consultados pela Agência CMA.

“O impeachment é um ataque direto ao que Trump mais aprecia: sua marca”, disse o analista da Cowen, Chris Krueger. “As habilidades políticas de Trump são comprovadas e impressionantes, então tudo isso pode eventualmente ajudar sua candidatura à reeleição, mas deixará cicatrizes profundas e históricas”, acrescentou.

Segundo ele, desde o primeiro dia de sua administração, Trump tem sido extremamente sensível às críticas sobre sua eleição de 2016, por exemplo, relativas ao fato de ter perdido no voto popular, ao tamanho da sua posse, à instalação de uma Comissão de Fraude de Voto, e à intromissão russa.

“Sabemos, sem dúvida, que este é um presidente obcecado pela cobertura da mídia e seu lugar na história. Apesar de ‘vencer’ um julgamento no Senado, seu impeachment estará na primeira ou na segunda sentença de seu eventual obituário político”, disse Krueger. “O impeachment é o maior desafio à legitimidade de um presidente”, concluiu.

Esta é a terceira vez na história dos Estados Unidos que a Câmara dos Deputados vota pelo afastamento de um presidente, depois de Andrew Johnson, em 1868, e Bill Clinton, em 1998. Ambos foram absolvidos pelo Senado.

Em 1974, o Comitê Judiciário aprovou artigos de impeachment contra Richard Nixon, mas ele renunciou antes da votação no plenário da Câmara.

VOTAÇÃO NO SENADO

O plenário da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos deu luz verde a dois artigos de impeachment contra Trump, acusando-o de abuso de poder e obstrução do Congresso. O pedido, aprovado por maioria simples, segue agora para o Senado, controlado pelos republicanos. Para que Trump seja afastado, são necessários dois terços dos votos dos senadores.

Pelo número de votos para o impeachment no Senado, o presidente norte-americano deve ser absolvido. “É improvável que o Senado o condene devido ao limiar de dois terços; muitos rejeitarão isso como façanhas e espetáculos políticos”, afirmou Krueger, da Cowen.

Da mesma forma, o analista da Oanda, Alfonso Esparza, disse que o impeachment não deve acontecer, uma vez que os legisladores devem se manter fiéis à orientação do partido. Na Câmara, todos os republicanos votaram contra, e três democratas mudaram de lado e não apoiaram o impeachment.

“Há pouca probabilidade de que o processo de impeachment termine com Donald Trump deixando a Casa Branca, uma vez que os republicanos teriam que ficar do lado dos democratas para remover o presidente do cargo e isso não é provável que aconteça”, disse Esparza, da Oanda.

Além disso, os eleitores do Partido Republicano seguem apoiando Trump. “Para os eleitores republicanos, esse impeachment é puramente político: os democratas ainda estão tendo problemas para aceitar o resultado das eleições de 2016”, de acordo com o estrategista do Rabobank, Philip Marey.

“Isso pode ser um tiro pela culatra para os democratas, uma vez que pode energizar os eleitores de Trump para ir às urnas. Além disso, o tema do impeachment pode ofuscar qualquer mensagem política que os democratas possam querer vender para o eleitorado”, acrescentou.

De acordo com Esparza, da Oanda, “os cidadãos dos Estados Unidos irão às urnas no próximo ano e parece que precisarão de algo mais substancial do que a ameaça de impeachment para fazê-los mudar de ideia sobre Trump.”

Ele destacou que Trump continua em primeiro lugar nas pesquisas de intenções de voto em sua tentativa de reeleição. “Os democratas tentaram usar o processo de impeachment, que provavelmente fracassará devido à falta de apoio republicano, para reduzir sua liderança”.

PESQUISAS DE OPINIÃO

De fato, a popularidade de Trump variou pouco nos últimos meses, com sua taxa de aprovação em torno de 40%, mesmo após a abertura do inquérito pela Câmara, no final de setembro. Já o apoio ao seu afastamento tem caído, mostram pesquisas recentes de opinião pública.

Um levantamento da empresa de pesquisas Ipsos a pedido da “Reuters”, realizada online entre os dias 16 e 17 de dezembro com 1.117 adultos, mostrou a taxa de aprovação de Trump em 41%, e desaprovação em 53%. No levantamento anterior, entre 25 e 26 de novembro, a aprovação também havia sido de 41%, e a desaprovação de 54%.

Além disso, 46% dos entrevistados relataram que endossam o impeachment e 42% indicaram que não apoiam, após a pesquisa de novembro mostrar apoio de 47% e rejeição de 40%. “Essa proporção permaneceu praticamente estável desde que a Câmara dos Deputados anunciou planos para conduzir uma investigação de impeachment”, diz o relatório do mês passado.

Já a sondagem feita por telefone pela empresa de pesquisa SSRS para a “CNN” mostrou que o presidente norte-americano tem 43% de taxa de aprovação e 53% de desaprovação. O estudo foi realizado de 12 a 15 de dezembro com 1.005 pessoas. Na pesquisa anterior, realizada entre 21 e 24 de novembro, 42% aprovaram o trabalho de Trump, e 54% desaprovavam.

Com relação ao impeachment, 45% dos entrevistados acreditam que Trump deve ser removido do cargo, e 47% defendem que ele deve permanecer como presidente dos Estados Unidos. Na pesquisa anterior, 50% defendiam o impeachment, e 43% eram contra.

ACUSAÇÕES FORMAIS

As acusações à Tump vieram após a divulgação de um telefonema, realizado julho deste ano, no qual Trump pediu que o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, investigasse Hunter Biden, o filho do pré-candidato presidencial democrata às eleições de 2020, Joe Biden, e que já trabalhou como conselheiro de uma empresa de gás ucraniana.

O presidente norte-americano condicionou a liberação de uma ajuda militar à Ucrânia de cerca de US$ 400 milhões, bem como uma reunião com Zelensky na Casa Branca, ao início da investigação.

Os democratas da Câmara dos Deputados abriram, então, no dia 24 de setembro, uma investigação para o afastamento de Trump, afirmando que ele violou a Constituição ao tentar interferir nas eleições por meio de um governo estrangeiro, além de colocar em risco a segurança nacional.

Três comitês na Câmara lideraram o processo, e começaram a ouvir em outubro, a portas fechadas, testemunhas do caso, entre diplomatas e ex-autoridades do governo. Os depoimentos passaram para a fase pública em novembro. A Casa Branca se recusou a colaborar, impedindo o depoimento de seus funcionários e o compartilhamento de documentos do governo federal para o Congresso.

No dia 13 de dezembro, o Comitê Judiciário da Câmara definiu duas acusações formais para iniciar o processo de afastamento: abuso de poder e obstrução do Congresso. O plenário da casa aprovou os dois artigos no dia 18 de dezembro.

A Constituição prevê o impeachment de um presidente em caso de traição, suborno ou crimes de responsabilidade – na qual se enquadram os crimes de abuso de poder e obstrução do Congresso.

Trump nega as acusações e diz estar sendo vítima de uma “caça às bruxas”, acusando os democratas de tentarem dar um golpe para retirá-lo do cargo. Na noite em que seu afastamento foi aprovado na Câmara, Trump estava em um comício e, diante de uma multidão de apoiadores, declarou: “nem parece que estamos sofrendo um impeachment”. Ele pode ter razão.