Ideal é ajustar política monetária via Selic, diz diretor do BC

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Edifício-sede do Banco Central em Brasília. (Foto: Divulgação/BC)

São Paulo – O Brasil ainda tem espaço para reduzir a taxa básica de juros (Selic) e por isso seria melhor ajustar a política monetária usando esta ferramenta do que comprando títulos de dívida, afirmou o diretor de política monetária do Banco Central (BC), Fabio Kanczuk, durante entrevista à XP Investimentos.

“No caso do Brasil, a gente não está no ‘zero lower bound’, então a gente devia continuar fazendo política monetária da forma tradicional, através do juros curto, porque é mais eficaz, mais eficiente, e não tem riscos de distorcer a curva longa”, disse ele.

Ele argumentou que em economias como a dos Estados Unidos e a da zona do euro os bancos centrais já zeraram as taxas de juros e por isso precisam usar ferramentas menos ortodoxas para executar a política monetária.

Segundo Kanczuk, nas economias avançadas, os bancos centrais usam estas ferramentas – anúncios sobre a trajetória futura da política monetária e compras de ativos, por exemplo – para remover o prêmio dos juros de longo prazo e, com isso, reduzir as taxas.

No Brasil, disse o diretor, há mais elementos que compõe a curva de juros além da taxa de curto prazo e o prêmio associado à duração da operação.

“A gente tem risco também ali. Se eu atuar na parte longa da curva, eu corro risco de tirar esse risco dali, não deixar mercado precificar, e esse risco vai se expressar em outro lugar, como câmbio. Transfiro de um lugar para o outro”, disse Kanczuk. “Se a gente chegasse no ‘zero lower bound’ aqui, tenho que atuar com cuidado ali na parte longa para não espremer o prêmio de risco.”

É por isso, segundo ele, que qualquer intervenção do BC no mercado de dívida será feita de forma análoga à que se vê no mercado de câmbio apenas quando houver distorção clara nos preços.

“A intervenção que para mim faz sentido na parte longa da curva – e a PEC do Congresso suporta e foi pensada nestes termos – é para evitar disfuncionalidade. É completamente análoga à intervenção do câmbio”, disse Kanczuk.

Ele disse que o mercado no Brasil é “estreito” e às vezes sofre com problemas de liquidez, e que no caso do câmbio o BC analisa se isso gerou algum tipo de distorção nos preços antes de intervir. “Na curva de juros seria análogo”, acrescentou.

O diretor do BC também negou que o BC estaria intervindo na curva de juros com o objetivo de executar política monetária ao vender títulos de curto prazo para comprar títulos de longo prazo – algo que ficou conhecido como Operação Twist quando foi executado pelo Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos.

“Ser twist é tirar duration da curva. Quando o BC eventualmente for lá resolver problema de disfuncionalidade de mercado e recomprar título, vai tirar duration da curva, vai fazer twist. Não tem como evitar, mas o objetivo é completamente diferente. Não tem a ver com política monetária, está pensando em disfuncionalidade.”