Ibovespa sobe e dólar cai com melhora no cenário externo

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa fechou em alta pelo quarto dia consecutivo, com ganhos de 0,60%, aos 101.134,61 pontos, em meio a uma redução da tensão comercial entre China e Estados Unidos e com investidores fazendo ajustes no último pregão do mês. Na semana, marcada por forte volatilidade, já que o índice chegou a encostar nos 95 mil na segunda-feira e voltou a superar os 100 mil pontos ontem, a valorização foi de 3,55%. Porém, em agosto, o índice fechou com queda de 0,67%, voltando a cair depois de quatro meses de alta.

“O último pregão do mês sempre tem algumas forças atuando, principalmente, de fundos que querem melhorar a performance”, disse o sócio-presidente da DNAInvest, Alfredo Sequeira. “Além disso, o cenário voltou a ficar mais positivo e o PIB do Brasil veio o dobro do esperado ontem e ainda refletiu positivamente”, completou.

No cenário externo, a maioria dos índices norte-americanos subiu, embora tenham perdido ímpeto perto do fim do pregão com maior cautela antes do fim de semana. Apesar da cautela e de a guerra comercial ainda pode trazer preocupações, o sentimento que prevalece, porém, é que China e Estados Unidos podem voltar a negociar um acordo comercial, já que os chineses se mostraram abertos à uma retomada ontem.

Entre as ações, algumas de peso para o Ibovespa tiveram um desempenho mais fraco e impediram uma aceleração do índice hoje, caso dos papéis da Petrobras (PETR4 0%), que refletiu a queda do petróleo, e do Itaú Unibanco (ITUB4 -0,26%). Por outro lado, as ações da Vale (VALE3 1,24%) fecharam em alta acompanhando os preços do minério de ferro.

Já entre as maiores altas do Ibovespa ficaram os papéis das Lojas Americanas (LAME4 4,00%), que assinou um memorando com a BR Distribuidora para estudar uma parceria no segmento de lojas de conveniência, do IRB Brasil (IRBR3 4,33%), do Bradesco (BBDC3 4,05%) e da Via Varejo (VVAR3 5,75%).

Na contramão, as maiores quedas ficaram com as ações da Azul (AZUL4 -2,99%), da Yduqs (YDUQ3 -2,75%) e do Magazine Luiza (MGLU3 -2,60%).

EXPECTATIVAS

A próxima segunda-feira é feriado nos Estados Unidos, o que pode reduzir a liquidez do pregão. Ao longo da semana, porém, haverá eventos e indicadores relevantes, com destaque para a sexta-feira, quando está previsto discurso do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, e a divulgação de criação de vagas nos Estados Unidos (payroll). Já na cena doméstica, a reforma da Previdência pode seguir para o plenário do Senado.

Além disso, investidores seguirão com todas as atenções voltadas para a guerra comercial e possível reunião entre China e Estados Unidos. “Ainda podemos ter volatilidade com todas as questões de guerra comercial, mas o cenário é mais otimista. Acredito que se o Ibovespa se sustentar acima de 98.500, 99 mil pontos pode ficar negociando em um range mais elevado. Um sinal amarelo só se acenderia se perder esse patamar”, afirmou o analista da Necton Corretora, Márcio Gomes.

O diretor de investimentos da SRM Asset, Vicente Matheus Zuffo, também acredita que a volatilidade pode continuar e destaca ainda que setembro contará com nova reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) e do Fed, com discussões sobre os tamanhos dos possíveis cortes de juros voltando à tona. “Há possibilidade de um ciclo menor de queda da Selic ou um corte menor por conta de valorização do dólar”, disse.

O dólar comercial fechou em queda de 0,69% no mercado à vista, cotado a R$ 4,1430 para venda, acompanhando o exterior mais positivo para as moedas de países emergentes e alívio local, após atuações firmes do Banco Central (BC) nos últimos dias e corrigindo as sucessivas altas da moeda, que completa seis pregões acima do patamar de R$ 4,10. Na semana, a moeda subiu 0,46% e acumula sete semanas seguidas de alta.

“O preço de hoje refletiu um movimento de pressão técnica por parte dos investidores ‘vendidos’ em dólar que forçaram uma taxa Ptax para baixo”, comenta o diretor de uma corretora local.

No mês, marcado pela escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e China com anúncio de sobretaxas e retaliação dos dois lados, o dólar se valorizou em 8,51%, na maior variação mensal desde novembro de 2016, quando a moeda subiu 8,78%. Motivo que levou o Banco Central a ter atuação contundente no cenário local ao realizar operações conjugadas de venda de dólares no mercado à vista e de swap cambial reverso, além da venda “seca” da moeda no “spot”, ações que não eram feitas há 10 anos.

“A piora nas relações entre os dois países leva o mundo a elevar a luz amarela para uma recessão global se aproximando”, avalia o analista da Mirae Asset, Pedro Galdi. Nesta semana, a curva de juros dos títulos de dívida do governo norte-americano, as Treasuries, se inverteram mais uma vez com o vencimento de dois anos acima do título de 10 anos. “É a antiga tese de que indica uma recessão [norte-americana] em curso”, reforça o diretor da corretora.

No exterior ao longo do mês, a Argentina também foi um fator adicional de preocupação após o resultado da primeira prévia das eleições em primeiro turno da Argentina indicando derrota do atual presidente, Maurício Macri, para o pré-candidato Alberto Fernández, que tem a ex-presidente Cristina Kirchner como vice na chapa.

Nesta semana, o país pediu renegociação da dívida trazendo “mais um vetor de incerteza”, comenta a equipe econômica do Bradesco. A medida é uma tentativa de reduzir a pressão cambial em um contexto de forte desvalorização do peso argentino. “Por ser importante parceiro comercial de produtos manufaturados, o agravamento da crise argentina poderá impactar negativamente a atividade brasileira nos próximos meses”, destaca.

A próxima semana, apesar de começar com um feriado nos Estados Unidos – o Labor Day – será carregada de indicadores da economia local, norte-americanos, além da Europa e da Ásia com dados da indústria, do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do Euro e do mercado de trabalho. Aqui, a atenção de volta aos dados de inflação e à discussão da reforma da Previdência.

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