Ibovespa e dólar caem no aguardo de novidades no campo político

Por Danielle Fonseca e Flávya Pereira

São Paulo – O Ibovespa fechou em ligeira baixa nesta quarta-feira, com queda de 0,13%, aos 94.360,66 pontos, após já ter subido 5% nos últimos dois pregões e com investidores preferindo aguardar novidades para tomar novas posições, o que manteve o índice sem direção definida em boa parte do dia. Algumas ações, como as da Natura, também impediram que o índice caísse e mostrasse uma maior realização de lucros. Os papéis da empresa subiram mais de 9% depois da notícia de que pode comprar a Avon. O volume total negociado foi de R$ 15,5 bilhões.

Para o analista de investimentos do Banco Daycoval, Enrico Cozzolino, os dois últimos pregões já corrigiram a queda que considerou um pouco exagerada na semana passada e o patamar atual, perto dos 95 mil pontos, é visto como confortável. Dessa forma, investidores embolsaram lucros com alguns papéis que subiram recentemente.

Entre os papéis que mostraram realização estão os de bancos como o Bradesco (BBDC4 -1,78%) e Santander (SANB11 -1,63%). Já as maiores queda do Ibovespa foram das ações da B2W (BTOW3 -3,76%) e da Marfrig (MFRG3 -2,98%).

Por outro lado, a maior valorização do índice foi dos papéis da Natura (NATU3 9,41%), que também ficaram entre os mais negociados e refletiram a notícia de que está em negociações avançadas para comprar a sua concorrente Avon. “Do ponto de vista estratégico, a aquisição tem sentido para a Natura, que busca ampliar sua fatia de mercado em seus negócios no mercado doméstico. No entanto, será necessário entender o valor ofertado pela aquisição, que pode ser bem recebido ou não pelos investidores”, afirmou o analista da Mirae Asset Corretora, Pedro Galdi, em relatório.

Também tiveram fortes altas as ações da Gol (GOLL3 5,61%), após aprovação de medida provisória (MP) que permite que estrangeiros tenham até 100% do capital de companhia aéreas nacionais. Entre os papéis de peso para o índice, a Vale (VALE3 0,11%) encerrou em alta refletindo preços mais altos do minério de ferro.

Na cena política, o mercado parece já ter absorvido uma melhora do ambiente, com deputados entrando em acordo para dar andamento à agenda da Câmara, com votações de MPs como a da aviação ontem e a previsão de que possa ser votada ainda hoje a MP 870, que propõe uma reforma administrativa, com eliminação de ministérios.

No entanto, o analista do Daycoval destaca que ainda há ruídos na relação entre o governo e o Congresso, que dão sinais de que podem permanecer. “As votações são muito importantes, trazem um viés positivo, mas acho que pode ser uma característica desse governo esses desencontros com o Congresso”, disse.

Já no exterior, as bolsas norte-americanas fecharam em baixa com a persistência de preocupações com a guerra comercial entre Estados Unidos e China e com a ata do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) sem trazer grandes novidades hoje.

Nos próximos dias, o mercado deve continuar atento à cena política, na expectativa de que o cronograma da reforma da Previdência seja mantido, além de continuar de olho na tensão comercial. Na agenda de amanhã, os destaques serão dados do seguro desemprego norte-americanos, o Produto Interno Bruto (PIB) alemão e a ata da última reunião do Banco Central Europeu (BCE).

O dólar comercial, por sua vez, fechou em queda de 0,17% no mercado à vista, cotado a R$ 4,0420 para venda, em sessão mais calma no noticiário político local e no exterior, com a moeda estrangeira testando o nível de R$ 4,00, em meio ao otimismo de investidores locais com o andamento de votações de medidas provisórias (MPs) no Congresso.

O analista de câmbio de uma corretora nacional destaca o otimismo dos investidores em relação ao encaminhamento das votações da MP 870, que trata da reforma administrativa e reorganiza os ministérios, a MP 863, que libera 100% do setor aéreo ao capital estrangeiro, além das reformas tributária e previdenciária, como o principal driver para a moeda norte-americana ter forte queda na primeira parte dos negócios, encontrando “suporte técnico próximo dos R$ 4,00”, o que deixou a moeda “barata”, mas que voltou a se “valorizar”, diz.

Mesmo com todo o otimismo do mercado, observado desde ontem levando o dólar a sair do nível acima de R$ 4,10, as incertezas em relação à agenda de reformas podem continuar mantendo o câmbio pressionado no curto prazo, comenta a equipe econômica do Bradesco.

Porém, os analistas reforçam que o espaço para uma piora significativa do câmbio é limitado dada a elevada solidez das contas externas. O Brasil apresenta saldo em conta corrente próximo do equilíbrio, pouco comum para países emergentes, e baixa necessidade de divisas externas de curto prazo. “Além disso, o BC tem espaço e ferramentas para intervir se julgar necessário, como fizeram nesta semana com a rolagem dos leilões de linha cujo vencimento estava programado para o início de junho”, avaliam.

Hoje, foi realizado o terceiro e último leilão de linha – venda de dólar com compromisso de recompra – do Banco Central (BC) no qual aceitou quatro propostas somando US$ 1,250 bilhões. Outros dois leilões foram realizados pelo BC na segunda e na terça-feira colocando no mercado US$ 2,5 bilhões.

Amanhã, com a agenda de indicadores esvaziada, o foco deverá continuar no cenário político doméstico reagindo à aprovação das MPs. Para o diretor da corretora Mirae Asset, Pablo Spyer, com o fim dos leilões do BC, uma nova pressão de compra pode voltar a aparecer e levar a moeda novamente acima de R$ 4,05. Já a economista de uma corretora estrangeira diz que a depender da votação da MP 870, o mercado pode reagir positivamente e buscar novamente o nível de R$ 4,00.

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