Há risco de apertarmos demais política monetária, mas é melhor reduzir inflação, diz Powell

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O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell / Foto: Fed

São Paulo — O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, afirmou que se preocupa mais com o risco de não acabar com a inflação alta do que com a possibilidade de aumentar muito as taxas de juros e levar a economia a uma recessão.

“Existe o risco de irmos longe demais? Certamente há”, disse Powell em painel durante o fórum econômico do Banco Central Europeu (BCE). “Mas, o maior erro seria não restaurar a estabilidade de preços.

Powell disse que o banco central precisa aumentar as taxas rapidamente, mesmo que isso aumente o risco de recessão, para evitar um perigo maior para a economia. “Não estou preocupado com a curva de juros do Tesouro norte-americano ou com o mercado, mas sim com as pressões inflacionárias”.

Ele disse que o Fed não pode se dar ao luxo de seguir seus procedimentos normais de elevar as taxas gradualmente devido à preocupação de que as expectativas inflacionárias se desancorem. “Infelizmente, não é possível acompanhar as expectativas em tempo real. Mas acredito que ainda há confiança em nosso trabalho e em nossas perspectivas”, explicou ele.

“O risco é que, devido à multiplicidade de choques econômicos, comecemos a fazer uma transição para um regime de inflação mais alta. Nosso trabalho é impedir que isso aconteça”, afirmou ele. Segundo Powell, o objetivo é aumentar as taxas o suficiente para reduzir a demanda, trazê-la mais próxima da oferta atual.

Os bancos centrais de todo o mundo estão com pressa para aumentar as taxas de juros em meio às crescentes pressões sobre os preços. O aumento dos custos de combustível e as interrupções na cadeia de suprimentos da guerra da Rússia contra a Ucrânia elevaram os preços nos últimos meses. Nos Estados Unidos, esses aumentos estão pressionando a inflação que já era alta, pois a demanda aumentou no ano passado devido à reabertura da economia e ao estímulo agressivo do governo.

Desde março, o Fed elevou sua taxa básica de juros três vezes de quase zero para um intervalo entre 1,5% e 1,75%, incluindo um aumento de 0,75 ponto percentual (pp) neste mês, o maior em 28 anos. Powell e muitos de seus colegas sinalizaram que outro aumento dessa magnitude provavelmente será garantido na próxima reunião do Fed, de 26 a 27 de julho.

A maioria dos membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) disse que deseja aumentar a taxa dos rapidamente para entre 3% e 3,5% no final deste ano, antes de avaliar o quanto deve aumentar no próximo ano.

O Fed espera desacelerar o crescimento econômico dos EUA o suficiente para reduzir a inflação, mas sem causar uma recessão o chamado “soft landing”. Powell alertou nas últimas semanas que a guerra na Ucrânia, que está elevando os preços dos alimentos e da energia, tornou esse resultado mais difícil.

“Ficou mais difícil. Os caminhos ficaram mais estreitos”, disse Powell. “Não há garantia de que o Fed será capaz de reduzir a inflação enquanto evita uma recessão”, disse ele.

Powell disse que é uma questão em aberto se as forças desencadeadas pela pandemia de coronavírus de 2020 podem alimentar mais inflação ou volatilidade nas pressões de preços.