FMI diz que risco de instabilidade financeira global ainda é elevado

Foto: Stephen Jaffe/Divulgação FMI

São Paulo – A economia global tem lutado para resistir ao estresse provocado pela pandemia do novo coronavírus e, mesmo com sinais de recuperação econômica, ainda é alto o risco de instabilidade financeira global. Por isso, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), os formuladores de políticas devem estar prontos para adaptações para atender a condições potencialmente voláteis.

“Graças ao apoio massivo de políticas, o sistema financeiro global está sendo resiliente durante a pandemia de covid-19 e as condições financeiras diminuíram significativamente. Isso ajudou a manter o fluxo de crédito para famílias e empresas, facilitou a recuperação e manteve os riscos financeiros sob controle. A melhoria das perspectivas econômicas reduziu claramente a gama de resultados adversos, mas permanecem riscos notáveis de baixa para o crescimento econômico futuro”, diz o FMI em seu relatório sobre instabilidade financeira global.

A previsão do FMI para a alta do Produto Interno Bruto (PIB) mundial foi elevada para 6,0% neste ano de 5,5% estimados em janeiro. A revisão para cima foi impulsionado, principalmente, pelo estímulo fiscal de US$ 1,9 trilhão sancionado no mês passado nos Estados Unidos.

“O estímulo desde o início da pandemia conteve o número de falências, restringiu o aumento do desemprego e reduziu as cicatrizes econômicas de maneira geral. Além disso, as compras de ativos por bancos centrais no valor de quase US$ 10 trilhões em todo o mundo têm desempenhado um papel crucial em manter as taxas de juros baixas e as condições financeiras acomodatícias”, diz FMI.

Segundo o Fundo, esse quadro está começando a mudar à medida que as taxas de juros de longo prazo estão subindo. O relatório cita os juros projetados pelos títulos do Tesouro dos Estados Unidos de dez anos, que deu um salto de pouco mais de 0,5% em agosto de 2020 para cerca de 1,0%, quase igualando seu nível pré-pandemia.

“Isso reflete melhores perspectivas para a inflação e o crescimento – os juros reais e a inflação implícita no mercado aumentaram – mas as expectativas de inflação de médio prazo permanecem ancoradas”, diz FMI, acrescentando que, neste cenário, os bancos centrais enfrentam grandes compensações.

Na visão do Fundo, esse recente salto nos juros de títulos públicos, em especial dos Estados Unidos, pode apertar as condições financeiras, pesando sobre os custos de financiamento e novas compras de ativos para desfazer esse aperto podem ter consequências indesejadas nas finanças baseadas no mercado, em um momento em que o kit de ferramentas macro e microprudenciais permanece incompleto.

“O aumento das vulnerabilidades no setor corporativo e não bancário pode colocar em risco a estabilidade financeira de médio prazo”, diz o FMI.

IMPACTO DO SALTO NOS JUROS

Os mercados emergentes já sentiram o impacto do aumento dos juros dos títulos públicos, segundo o Fundo, apontando que os custos de empréstimos para emissores corporativos e soberanos têm subido constantemente em um momento em que as necessidades de financiamento permanecem excessivamente elevadas.

“As condições financeiras ainda fáceis permanecem favoráveis, mas a volatilidade nos mercados financeiros e nos fluxos de portfólio apresenta riscos significativos. Os formuladores de políticas dos mercados emergentes podem enfrentar tempos difíceis pela frente, com espaço de política monetária mais restrito devido ao aumento da inflação, a menos que os efeitos colaterais positivos da economia global ressurgente assumam o controle”, diz o FMI.

No relatório, o Fundo chama atenção ainda para a lucratividade dos bancos, que pode ser menor em muitas partes do mundo, tornando-se um desincentivo ao uso de colchões de capital para apoiar a recuperação.

“Enquanto os mercados assistem a um boom nas finanças, os empréstimos bancários podem ficar tensos e desafiar a postura da política monetária em muitos países. É preocupante que o nexo soberano-banco tenha se intensificado acentuadamente nos mercados emergentes, com 60% da dívida soberana emitida após janeiro de 2020 terminando nos balanços dos bancos domésticos”, diz o FMI.

No setor corporativo, embora algumas empresas tenham se beneficiado da flexibilização das condições financeiras e recuperado seus balanços, algumas continuam a lutar e dependem fortemente do apoio de políticas, segundo o Fundo.

“O risco de insolvência permanece elevado em empresas de pequeno e médio porte – e mesmo em algumas grandes empresas em mercados avançados e emergentes”, diz o FMI.