Fed reafirma compromisso com acomodação mesmo com salto em juros do Tesouro

Prédio do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) em Washington. Foto: Divulgação/ Federal Reserve

São Paulo – O recente salto dos juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos reflete a expectativa de uma recuperação econômica mais rápida e vigorosa do que o previsto, mas não fará o Federal Reserve (Fed) alterar os rumos da política monetária mais frouxa. Para isso, é necessário que o banco central norte-americano veja progressos concretos em relação ao mandato duplo de pleno emprego e estabilidade de preços, segundo a ata da reunião de março.

“Os participantes comentaram sobre o aumento notável nos juros dos Treasuries de longo prazo que ocorreu durante o período intermediário e geralmente o consideraram como um reflexo da melhoria das perspectivas econômicas, algum endurecimento nas expectativas de inflação e expectativas de maior emissão de dívida do Tesouro”, diz a ata.

O documento alerta, no entanto, que os membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) viram com preocupação um cenário de condições desordenadas nos mercados de dívida ou um aumento persistente nos juros que possa prejudicar o progresso em direção das metas.

O acelerado processo de vacinação contra a covid-19 nos Estados Unidos somado ao pacote de alívio ao novo coronavírus de US$ 1,9 trilhão sancionado no mês passado levou os investidores a projetar uma reabertura antecipada da economia norte-americana e uma consequente aceleração da inflação para além da meta de 2% ao ano do Fed.

Diante desse cenário, é cada vez mais forte a crença no mercado de que o banco central será forçado a elevar a taxa básica, hoje perto de zero, o que levou a uma disparada dos juros projetados pelos títulos de referência de dez anos do Tesouro dos Estados Unidos, que chegou à casa de 1,74% no início do mês passado – o maior patamar em 14 meses.

PROGRESSOS SUBSTANCIAIS

Antes de promover qualquer mudança nos rumos da política monetária atual, os membros do Fomc querem garantias de que os objetivos de pleno emprego e estabilidade de preços foram alcançados – algo que, segundo a ata, ainda está longe de acontecer nos Estados Unidos.

“Apesar dos indicadores positivos e de uma melhoria da situação da saúde pública, os participantes concordaram que a economia permanece longe das metas de longo prazo do Comitê e que o caminho à frente permanece altamente incerto, com a pandemia continuando a representar riscos consideráveis para as perspectivas”, diz a ata.

Diante desse cenário, os membros do Fomc avaliaram que a atual postura de política monetária assim como a orientação seguem apropriadas para promover uma maior recuperação econômica, bem como para atingir uma inflação média de 2% ao longo do tempo e expectativas de inflação de longo prazo que bem ancoradas em 2%.

Em agosto do ano passado, o Fed alterou sua estratégia para a inflação, permitindo que a taxa supere a meta de 2% para compensar períodos em que esteve abaixo nesse patamar. Na ocasião, o banco central norte-americano também indicou que não usaria apenas a queda da taxa de desemprego como gatilho para o ajusta da taxa básica.

“Os participantes também observaram a importância de comunicar ao público que a orientação existente, juntamente com o novo quadro de política monetária, (…), significa que a trajetória da taxa básica de juros e da compra de ativos depende do progresso real no cumprimento das metas de emprego máximo e inflação do Comitê. Em particular, vários participantes observaram que as mudanças na trajetória das políticas deveriam se basear principalmente nos resultados observados, e não nas previsões”, diz a ata.

Mais uma vez, o comitê reafirmou seu compromisso em usar todas as ferramentas caso seja necessário para apoiar a economia na direção das metas. Em março do ano passado, o Fed cortou a taxa de juros para a faixa atual de zero a 0,25% ao ano e retomou as compras de ativos, hoje em US$ 120 bilhões ao mês.

OUTROS DESEQUILIBRIOS

A ata mostrou ainda que, embora as condições financeiras gerais ainda sejam vistas como acomodatícias, vários membros do Fomc observaram que as condições de financiamento continuavam desafiadoras para muitas pequenas empresas.

Além disso, alguns participantes expressaram preocupação com o fato de que condições financeiras altamente acomodatícias poderiam levar a uma tomada de risco excessiva e ao acúmulo de desequilíbrios financeiros.

“Os participantes observaram que as condições financeiras globais permaneceram altamente acomodatícias, em parte refletindo a orientação da política monetária”, diz a ata.