Fed deve manter juros e mudar foco para pressões de financiamento

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Prédio do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) em Washington. Foto: Divulgação/ Federal Reserve

Por Cristiana Euclydes

São Paulo – O Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) deve manter a taxa básica de juros do país inalterada na faixa entre 1,50% e 1,75% na próxima reunião de política monetária, e o mercado estará atento a sinais de como será a resposta da instituição à recentes pressões de financiamentos, de acordo com analistas consultados pela Agência CMA.

“Se tudo correr de acordo com o plano do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), sua reunião de janeiro será considerada uma soneca”, disseram analistas do Wells Fargo, em relatório. Segundo eles, tanto os dados quanto as orientações futuras do Fed apoiam a manutenção dos juros no primeiro encontro do ano.

Na decisão mais recente, de dezembro, o Fomc declarou que “a posição atual da política monetária é apropriada para apoiar a expansão sustentada da atividade econômica, as fortes condições do mercado de trabalho e a inflação, próxima da meta simétrica de 2%”.

Para os analistas do Wells Fargo, esse sentimento desde então “ecoou em discursos e entrevistas”, e “até o membro mais dovish [propenso ao afrouxamento monetário] do Fomc, Neel Kashkari, que este ano tem direito a voto, disse que está confortável com a atual postura da política monetária”.

Além disso, os dados sugerem que atividade econômica nos Estados Unidos está se estabilizando. O estrategista sênior do Rabobank, Philip Marey, afirmou que o Fed deve manter os juros inalterados esta semana, e que não há motivos para preocupações com uma recessão.

“O crescimento do emprego é forte, a taxa de desemprego é baixa, os gastos do consumidor permanecem sólidos e existe um acordo comercial de primeira fase entre os Estados Unidos e a China”, disse ele.

O vice-presidente da Scotiabank Economics, Derek Holt, afirmou que “não são esperadas mudanças significativas nas declarações e esperamos orientações semelhantes sobre como a economia dos Estados Unidos está em um bom lugar e apenas um choque material com as expectativas do Fomc geraria o risco de orientações políticas adicionais”.

Para ele, a coletiva de imprensa do presidente do Fed, Jerome Powell, deve enfatizar a menor incerteza de curto prazo decorrente dos acontecimentos comerciais entre os Estados Unidos e a China, “enquanto qualquer questionamento sobre o impacto do coronavírus provavelmente será tratado como um risco que está sendo monitorado”.

Por fim, embora o Fed tenha falado de ajuste de meio do ciclo no ano passado, quando cortou os juros, “os indicadores econômicos sugerem que estamos atrasados no ciclo. Portanto, esperamos que o Fed seja forçado a reduzir as taxas de volta para zero antes do final do ano”, disse Marey.

IOER

O Fed pode considerar uma alta na taxa de juros sobre o excesso de reservas (IOER, na sigla em inglês) na reunião desta semana, de acordo com os analistas ouvidos pela Agência CMA. O Fomc cortou a IOER de 1,8% para 1,55% em outubro. Na ata da reunião de dezembro, o Fomc fez alusão à necessidade de ajustes.

“Como as reservas permanecem amplas, pode ser apropriado, em algum momento, implementar um ajuste técnico à taxa IOER e à taxa oferecida nos contratos de recompra reversa overnight (ON RRP)”, diz a ata. “Caso as condições justifiquem esse ajuste, a IOER poderá se aproximar do meio da faixa da taxa básica de juros, e a taxa ON RRP poderá ser realinhada com a parte inferior do intervalo”, de acordo com o documento.

Assim, na reunião desta semana, “estaremos atentos a qualquer orientação sobre como a resposta do Fed à recente pressão de financiamento pode mudar”, disseram analistas do Wells Fargo. Eles apontaram que em períodos anteriores em que a taxa efetiva estava bem fora do ponto médio, o Fomc ajustou o IOER para direcionar a taxa ao centro do intervalo da meta.

“Embora o aumento da IOER possa parecer incompatível com os esforços do Fed para aumentar a liquidez no sistema financeiro, a mudança pode ser vista como um sinal do Fed começando a voltar ao ‘normal'”, acrescentou.

Marey, do Rabobank, disse que desde a redução na IOER em outubro, a taxa efetiva de juros caiu abaixo do ponto médio do intervalo alvo e ficou próxima da taxa IOER. Assim, ele prevê uma alta técnica de entre 0,05 pp e 0,10 pp na IOER para que a taxa efetiva de juros retorne ao ponto médio da meta, de 1,625%.

“Se o Fed permanecer em espera nos próximos meses no que diz respeito à faixa alvo da taxa de juros, um ajuste na IOER e na ON RRP pode ser a única ação que podemos esperar”, disse ele.

Por outro lado, para Holt, da Scotiabank Economics, uma alta na IOER esta semana seria prematura, mas é possível. Ele destacou que o Fed ainda está injetando muita liquidez nos mercados por meio de operações compromissadas e compras de títulos. “Portanto, pode ser um pouco inconsistente adotar essas medidas e, ao mesmo tempo, elevar a taxa IOER”, explicou ele.

OPERAÇÕES DE RECOMPRA

Além de ajustes na IOER, o Fed pode adotar outras medidas para aliviar as pressões de financiamento nos mercados de recompra, mesmo que o fim de ano tenha sido tranquilo para os mercados monetários, destacaram os analistas.

O Fed passou a oferecer liquidez adicional aos mercados por meio das compras mensais de títulos do Tesouro, que começaram em outubro e devem continuar até abril. Além disso, o Fed tem realizado operações de recompra com prazo definido e no overnight.

“O Fed indicou que ainda não está pronto para se afastar dos mercados e continuará suas operações de recompra com prazo definido e no overnight nos níveis atuais até o final do mês”, disseram analistas do Wells Fargo. Em fevereiro, afirmaram, o Fed planeja reduzir o tamanho de suas operações compromissadas a prazo, de US$ 35 bilhões para US$ 30 bilhões.

“Continuamos esperando que o Fed anuncie uma instalação permanente de recompra em algum momento, mas esta reunião ainda pode ser um pouco cedo para ter elaborado os detalhes técnicos”, afirmaram.

Além disso, as compras de ativos devem continuar no ritmo atual de US$ 60 bilhões por mês, “embora possa haver alguma discussão sobre mudar a composição das compras para títulos do Tesouro de curto prazo”, disseram.

“O Fed precisa aumentar as reservas bancárias hoje, mas não precisa estimular ainda mais a economia, daí o foco nas compras de títulos do Tesouro de curto prazo”, concluíram.