Discutir Amazônia no G-7 sem Brasil é mentalidade colonialista

Por Gustavo Nicoletta

São Paulo – A manifestação do presidente da França, Emmanuel Macron, defendendo que os incêndios na Amazônia sejam discutidos no G-7 (grupo composto por Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá), sem a presença dos países da região da floresta, “evoca mentalidade colonialista descabida no século XXI”, disse o presidente Jair Bolsonaro em sua conta no Twitter.

“Lamento que o presidente Macron busque instrumentalizar uma questão interna do Brasil e de outros países amazônicos para ganhos políticos pessoais. O tom sensacionalista com que se refere à Amazônia (apelando até para fotos falsas) não contribui em nada para a solução do problema”, disse Bolsonaro.

Ontem, também no Twitter, o presidente francês disse que “nossa casa está pegando fogo. Literalmente. A floresta amazônica – os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta – está queimando. É uma crise internacional. Membros da cúpula do G-7, vamos discutir esta emergência como primeira ordem em dois dias.” A reunião de cúpula do G-7 começa amanhã e termina na segunda-feira.

Os incêndios na floresta Amazônica ganharam destaque internacional nesta semana, principalmente depois de a agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa, publicar uma imagem obtida via satélite mostrando “fumaça e incêndios em vários estados do Brasil, incluindo Amazonas, Mato Grosso e Rondônia”.

“Não é incomum haver incêndios no Brasil nesta época do ano por causa das altas temperaturas e da baixa umidade. O tempo dirá se este ano foi um recorde ou dentro dos limites normais”, disse à agência em seu website.

Antes disso, o governo já vinha sendo alvo de críticas domésticas pela condução da política ambiental porque, no início de julho dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicaram que o desmatamento na Amazônia teria crescido quase 88% em junho na comparação com o mesmo período do ano passado.

Bolsonaro disse que os dados eram mentirosos, questionou a credibilidade do então presidente do Inpe, Ricardo Galvão, e posteriormente o exonerou.

BRIGA ANTIGA

A relação de Bolsonaro com os líderes europeus está estremecida pelo menos desde a reunião de cúpula do G-20 (grupo que reúne economias mais industrializadas e países emergentes), no final de junho, quando o presidente brasileiro foi questionado sobre sua política para o meio ambiente.

Recentemente, ele disse que “não existiu prazer maior” durante a reunião do que conversar com Macron e com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, “não da forma como queriam”, mas “para dizer para eles que o Brasil está sob nova direção”.

“Convidei essa dupla da Europa a voar de Boa vista a Manaus e se fosse detectado um quilômetro quadrado que fosse de desmatamento, eu diria que eles têm razão”, afirmou.

FUNDO AMAZÔNIA

Outra polêmica do governo federal envolvendo a floresta diz respeito ao Fundo Amazônia – órgão gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que investe em ações contra o desmatamento e a favor da conservação da região.

De 2008 até o ano passado, o Fundo Amazônia recebeu R$ 3,4 bilhões em recursos, a maior parte deles vindos da Noruega (93,8%) e da Alemanha (5,7%), enquanto a Petrobras respondeu por 0,5% desse total. As doações são voluntárias e não são reembolsáveis – ou seja, o dinheiro não é devolvido aos doadores.

O gerenciamento do fundo era feito por dois colegiados – o Comitê Orientador do Fundo Amazônia (Cofa), integrado por representantes do governo federal, de Estados e da sociedade civil (incluindo ONGs), e pelo Comitê Técnico do Fundo Amazônia (Cifa), composto por especialistas independentes.

Ambos os órgãos, porém, foram extintos por decreto do presidente Jair Bolsonaro. Isso e declarações do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugerindo mudanças no funcionamento do fundo foram questionados pela Noruega e a Alemanha, os principais doadores, e abriram espaço para a possibilidade de o fundo ser extinto.

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