Crise hídrica e possível parada de usinas pesa sobre ações do setor elétrico

Foto: Alain Schroeder/União Europeia

São Paulo – Algumas ações do setor elétrico estão entre as maiores quedas do Ibovespa em meio a uma percepção de piora da crise hídrica no Brasil, o que afeta a geração de energia e rendeu declarações do presidente Jair Bolsonaro ontem. Segundo o analista Pedro Galdi, da Mirae Asset, há preocupação, inclusive, com uma possível parada de usinas devido o baixo nível de reservatórios.

“Estamos atravessando a pior crise hídrica dos últimos 90 anos. Os principais reservatórios da região Sudeste já estão com 25% de suas reservas e as termelétricas continuarão sendo acionadas para não faltar energia/apagões”, disse o analista em entrevista à Agência CMA.

Às 13h11 (horário de Brasília) as ações da CPFL Energia (CPFE3) caíam 0,45%, após cair mais de 1% pela manhã, enquanto os papéis da Equatorial Energia (EQTL3) caíam 0,59%, em um dia de poucos papéis em queda no Ibovespa, que se recupera das perdas de ontem.

Na avaliação de Galdi, hoje o Brasil vive uma situação muito diferente de quando ocorreram apagões, mas alerta para um risco de parada das usinas. Ele explica que hoje o sistema é totalmente interligado e a participação de energia eólica, solar e outras fontes cresceram muito.

“Mas estamos em risco, pois em 10% de reservas as usinas param. Então, cada vez mais irão entrar termoelétricas na brincadeira e cada vez mais vai subir o valor da energia e a inflação”, explicou.

Ontem, o presidente Jair Bolsonaro afirmou em sua live semanal que o nível das represas de hidrelétricas está muito baixo – “no limite do limite” – e que a população precisa economizar energia.

“Diria a vocês que o problema é sério. “Queria fazer apelo a você que está em casa. Tenho certeza que você pode apagar um ponto de luz na sua casa agora. Apague um ponto de luz agora. Ajuda. Assim ajuda a economizar energia e a economizar água das hidrelétricas. Em grande parte destas represas estamos na casa de 10%, 15% de armazenamento. Estamos no limite do limite. Algumas vão deixar de funcionar se essa crise hidrológica continuar existindo”, afirmou.

Hoje a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciará a bandeira tarifária de setembro. Em agosto, a bandeia foi mantida em vermelha patamar 2, com custo de R$ 9,49 para cada 100 quilowatt-hora (kwh) consumidos. A expectativa é de que o valor desta aumente.

ENTENDA A CRISE HIDRICA

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) vem registrando níveis criticamente baixos na quantidade de chuvas sobre os principais reservatórios desde setembro de 2020. Alguns meses neste intervalo registraram as piores afluências de que se tinha conhecimento até então, cuja referência inicia-se em 1931. Segundo o órgão, os meses de julho e agosto também tiveram menos chuva do que o esperado.

A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) também declarou situação crítica de escassez quantitativa de recursos hídricos na bacia hidrográfica do rio Paraná, uma das principais do país.

Simulações conduzidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a partir das condições de contorno estabelecidas pelo ONS no âmbito dos Programas Mensais da Operação (PMO) de junho e de julho de 2021, confirmaram conjuntura de excepcional severidade hidrológica para o segundo semestre de 2021.

Diante desse cenário, simulações da agência demonstraram que os valores anteriormente estimados para as bandeiras seriam insuficientes para cobrir os custos de compra de energia das distribuidoras.

A agência estimou em meados deste ano que o atual déficit do sistema da conta bandeira, que é de R$ 1,5 bilhão, poderia subir para entre R$ 2 bilhões e R$ 5 bilhões caso o valor da bandeira vermelha 2 fosse mantido até o fim do ano, onerando distribuidoras.

Segundo os cálculos, o déficit apenas seria zerado caso o valor máximo da bandeira vermelha – a taxa extra aplicada à conta de luz quando as condições de geração de eletricidade são desfavoráveis – fosse elevado para R$ 11,50, hipótese que chegou a ser debatida, mas foi descartada levando em consideração os riscos de mudança de metodologia e o impacto para a população.