Copom eleva juros a 2,75%, taxa superior à esperada pelo mercado

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, durante cerimônia de transmissão de cargo.

São Paulo – O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) começou a reduzir o grau de estímulo à economia elevando a Selic em 0,75 ponto porcentual, para 2,75% ao ano, e indicou que na próxima reunião, em maio, aumentará a taxa na mesma magnitude. A decisão surpreendeu o mercado, que esperava alta de 0,50 pp na Selic.

“O Copom decidiu iniciar um processo de normalização parcial, reduzindo o grau extraordinário do estímulo monetário”, disse o grupo no comunicado com a decisão. “Na avaliação do Comitê, uma estratégia de ajuste mais célere do grau de estímulo tem como benefício reduzir a probabilidade de não cumprimento da meta para a inflação deste ano, assim como manter a ancoragem das expectativas para horizontes mais longos”, acrescentou.

“Além disso, o amplo conjunto de informações disponíveis para o Copom sugere que essa estratégia é compatível com o cumprimento da meta em 2022, mesmo em um cenário de aumento temporário do isolamento social”, afirmou o grupo.

O Copom acrescentou que a reunião de maio deve resultar num aumento de 0,75 pp na Selic, colocando a taxa em 3,50% ao ano, “a menos que uma mudança significativa nas projeções de inflação ou no balanço de riscos”. “O Copom ressalta que essa visão para a próxima reunião continuará dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos, e das projeções e expectativas de inflação”, acrescentou.

No comunicado, o Copom reconheceu que estímulos fiscais no exterior – como o pacote de resgate de quase US$ 2 trilhões aprovado recentemente pelo Congresso dos Estados Unidos – somados ao avanço dos programas de vacinação contra a covid-19 “devem promover uma recuperação mais robusta da atividade ao longo do ano”, e comentou sobre as consequências deste cenário.

“A presença de ociosidade, assim como a comunicação dos principais bancos centrais, sugere que os estímulos monetários terão longa duração. Contudo, questionamentos dos mercados a respeito de riscos inflacionários nessas economias têm produzido uma reprecificação nos ativos financeiros, o que pode tornar o ambiente desafiador para economias emergentes.”

No caso do Brasil, o Copom avaliou que os dados recentes apontam para uma “recuperação consistente” da economia mesmo após o fim do auxílio emergencial no final do ano passado, mas ressaltou que os dados disponíveis até agora ainda não refletem os impactos do aumento no número de casos de covid-19 e as medidas tomadas pelo governo para conter a disseminação da doença.

“Prospectivamente, a incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia permanece acima da usual, sobretudo para o primeiro e segundo trimestres deste ano”, avaliou.

INFLAÇÃO E CHOQUES TEMPORÁRIOS

O colegiado reconheceu que o aumento no preço das commodities em reais – decorrente tanto da alta nos preços internacionais destes produtos como da valorização do dólar em relação à moeda brasileira – “tem afetado a inflação corrente e causou elevação adicional das projeções para os próximos meses, especialmente através de seus efeitos sobre os preços dos combustíveis”.

“Apesar da pressão inflacionária de curto prazo se revelar mais forte e persistente que o esperado, o Comitê mantém o diagnóstico de que os choques atuais são temporários, mas segue atento à sua evolução”, acrescentou.

O Copom elevou a previsão de inflação de 2021 de 3,6% para 5,0% – perto do teto da meta, que neste ano é de 5,25% -, e a de 2022 de 3,4% para 3,5%. “Esse cenário supõe trajetória de juros que se eleva para 4,50% aa neste ano e para 5,50% aa em 2022. Nesse cenário, as projeções para a inflação de preços administrados são de 9,5% para 2021 e 4,4% para 2022”, e a estimava para a taxa de câmbio é de R$ 5,70 por dólar.

BALANÇO DE RISCOS

A inflação continua sujeita a ficar acima ou abaixo do estimado pelo Copom. No comunicado atual, o grupo passou a considerar o agravamento da pandemia de covid-19 como um fator que pode enfraquecer a atividade e a inflação. No comunicado anterior, o risco estava mais centrado na ociosidade econômica.

“O agravamento da pandemia pode atrasar o processo de recuperação econômica, produzindo trajetória de inflação abaixo do esperado”, disse o Copom, repetindo em seguida, nos mesmos termos do comunicado anterior, os fatores que podem deixar a inflação mais forte que a prevista.

“Um prolongamento das políticas fiscais de resposta à pandemia que piore a trajetória fiscal do país, ou frustrações em relação à continuidade das reformas, podem elevar os prêmios de risco. O risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária.”

“O Copom avalia que perseverar no processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para permitir a recuperação sustentável da economia. O Comitê ressalta, ainda, que questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia”, acrescentou.