COPOM: Alta de 75 pontos-base surpreende mercado, mas deve acalmar investidores

Edifício-Sede do Banco Central do Brasil em Brasília. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil (BC) causou surpresa entre os agentes do mercado ao decidir pela elevação de 75 pontos-base de sua taxa básica de juro, a Selic, retirando-a do piso histórico de 2,00% ao ano e levando-a a 2,75% ao ano. Apesar disso, “o tom do comunicado foi acertado e deve acalmar parte dos investidores”, avalia o economista-chefe da Necton Corretora, André Perfeito.

“A maioria dos agentes esperava uma alta de 50 [para 2,50% ao ano], se bem que havia bons motivos para se imaginar uma alta mais forte”, observou Perfeito. Com isso, a Necton mantém sua projeção para a Selic a 5,00% ao ano ao fim de 2021. “Mas agora acreditamos que será através de altas de 75 pontos base, e não mais de 50. Serão mais três altas de 75 em nosso cenário base”, afirmou o economista.

Adauto Lima, economista-chefe da Western Asset, observou que os agentes do mercado financeiro até anteviam a possibilidade de uma alta de 75 pontos-base, mas havia um medo de a comunicação ser complicada. “Mas esse temor não se confirmou”, disse ele em entrevista à Agência CMA. “O momento chamava realmente para retomar a alta, para sinalizar que o BC será mais efetivo para evitar a desancoragem das expectativas de inflação num prazo mais longo.”

Neste sentido, André Perfeito salientou que a aceleração do IGP-M na segunda prévia de março é mais um indício de que o Copom acertou ao elevar a Selic a 2,75% no encontro encerrado ontem.

A Tendências Consultoria também considera que a decisão do Copom é condizente com a rápida deterioração do quadro inflacionário observada nas últimas semanas, avalia a equipe da Tendências Consultoria. “O ajuste mais intenso que o esperado visa conter o processo de deterioração em curso das expectativas de mercado e das próprias projeções de inflação do BC”, explica a Tendências. Além disso, o movimento deve contribuir para fornecer suporte ao câmbio, que é um importante canal de transmissão da política monetária.

Para as próximas decisões, a consultoria enxerga pistas relevantes deixadas no comunicado. “Enquanto o texto já indicou uma nova alta de 75 pontos-base para a próxima decisão, em maio, a afirmação de que estamos diante de um processo de ‘normalização parcial’ deve conter visões excessivamente agressivas com relação à magnitude da alta total dos juros esperada para este ano”, avalia a Tendências.

Diante dessa interpretação, a Tendências Consultoria mantém a projeção para a Selic de 4,50% ao ano ao fim de 2021.

Na avaliação da equipe da Renascença Corretora, o Copom optou por provocar um minichoque na reunião encerrada ontem e fará o mesmo no próximo encontro, marcado para maio. “Para as reuniões seguintes, o cenário a se desenhar é de inflação corrente acima do teto da meta, enquanto indicadores de atividade econômica revelarão impactos muito negativos da atual fase crítica da pandemia, que tende a perdurar por alguns meses”, acredita a equipe da Renascença.

Além disso, o cenário externo desafiador para os emergentes, o aumento adicional das preocupações fiscais e as incertezas políticas são fatores que ainda estarão presentes durante grande parte do ano, prossegue a corretora.

Diante disto, a Renascença alterou suas projeções. “Julgamos que o cenário mais provável, por ora, é de que a Selic terminará o ano em 5,00%, com mais uma elevação de 75 pontos-base na reunião de maio e mais três de 50 pontos-base nas reuniões seguintes”, detalhou a Renascença. “Para 2022, nosso cenário contempla Selic em 5,50%”, prossegue a corretora. Antes da reunião desta semana, a Renascença projetava a Selic a 4,00% no fim de 2021 e 5,00% ao término de 2022.

O Banco Mizuho, por sua vez, elevou em 100 pontos-base sua projeção para a taxa Selic ao fim de 2021, para 5,50% ao ano, de 4,50% antes da reunião encerrada ontem. O economista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, observou que o BC deixou claro no comunicado que só haverá uma alteração de curso nos casos de mudanças significativas nas projeções de inflação ou no balanço de riscos, motivo pelo qual a instituição financeira agora projeta a Selic a 5,50% no fim do ano.

Rostagno também avalia que o novo ciclo de aperto monetário somado ao avanço da agenda de reformas será benéfico ao real frente ao dólar. “Entretanto, a rápida deterioração da crise de covid-19 no país deve manter a taxa de câmbio volátil”, conclui ele.