Cenário político local pesa e faz Bolsa cair e dólar subir

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São Paulo – O Ibovespa encerrou em queda de 1,84%, aos 77.556,62 pontos, refletindo o pedido de demissão de Nelson Teich do Ministério da Saúde, o que fez investidores voltarem a se preocupar com a instabilidade do governo de Jair Bolsonaro e o índice se descolar das Bolsas norte-americanas. Na semana, o Ibovespa acumulou queda de 3,37%.

“Estávamos indo bem, o Ibovespa estava caminhando em direção aos 81 mil pontos essa semana, mas devolveu tudo, com o risco político cada vez contaminando mais” disse o CEO da WM Manhattan, Pedro Henrique Rabelo.

Para o sócio da Criteria Investimentos, Vitor Miziara, a saída de mais um ministro –  já que Teich ficou menos de um mês no cargo, sucedendo Luiz Henrique Mandetta, e Sérgio Moro também pediu demissão no último mês –  adiciona turbulência ao governo. “A saída de um terceiro ministro em pouco tempo traz instabilidade e é mais uma pessoa que sai porque não faz tudo o que o Bolsonaro quer, mostra seu autoritarismo”, afirmou.

Até hoje de manhã, analistas estavam vendo um arrefecimento da preocupação com o cenário político local, depois que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, se reaproximou do Bolsonaro ontem. No entanto, a saída de Teich voltou a trazer cautela.

Essa preocupação local prevaleceu durante à tarde, depois de o índice ter chegado a subir pela manhã e apesar de as Bolsas norte-americanas terem melhorado ao longo do pregão, fechando em alta.

Wall Street refletiu as falas do presidente norte-americano Donald Trump, que anunciou uma operação batizada de Warp Speed, para desenvolvimento e liberação de um tratamento para a covid-19, afirmando que a realização massiva de testes e a descoberta de uma vacina contra o novo coronavírus são a chave para a reabertura da economia dos Estados Unidos.

Entre as ações, a temporada de balanços mexeu com papéis de peso. As ações da Petrobras (PETR3 0,05%; PETR4 -1,43%), que chegaram a ter forte alta pela refletindo um balanço acima do esperado pelo mercado, puxando o Ibovespa, apagaram ganhos no fim do pregão.

As maiores quedas do índice ficaram com a Cyrela (CYRE3 -7,41%), Gerdau (GGBR4 -6,72%) e com a Sabesp (SBSP3 -6,06%). Já as maiores altas foram da B3 (B3SA3 4,41%), que reagiram a um balanço considerado positivo, além dos papéis da Hering (HGTX3 8,01%), da Braskem (BRKM5 5,54%) e Smiles (SMLS3 8,79%).

A agenda de indicadores de segunda-feira será fraca, mas investidores devem seguir de olho nos desdobramentos da saída de Teich e da pandemia em todo o mundo. O dia ainda será de vencimento de opções sobre ações, o que pode trazer alguma volatilidade.

O dólar comercial fechou em alta de 0,30% no mercado à vista, cotado a R$ 5,8410 para venda, em mais uma sessão de forte volatilidade no mercado local e no exterior. Aqui, a instabilidade política ganhou mais um capítulo após o ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, pedir demissão antes de completar um mês no cargo.

“Sem trégua, os ativos locais precificaram o mau humor do mercado com o surgimento de fatos novos, que colocaram o governo Bolsonaro no centro das atenções novamente”, comenta o diretor da Correparti, Ricardo Gomes. Ele ressalta que diante das incertezas, investidores fogem do risco e migram para a segurança “comprando” dólares.

Em semana de novas máximas históricas – que chegou a R$ 5,9730 no movimento intraday ontem – a moeda subiu 1,68%. Os analistas do Bradesco reforçam que fatores externos e domésticos explicam a depreciação do real nas últimas semanas. “As incertezas sobre as economias local e internacional e a redução do diferencial de juros são alguns dos elementos que ajudam a explicar a desvalorização da moeda, mais forte que a dos pares”, avaliam.

Já a equipe econômica da Capital Economics destaca que o mercado doméstico sofreu desvalorizações acentuadas nesta semana devido à preocupação com a crise política. “E é difícil ver o risco político desaparecendo em breve”, diz.

“Adicionalmente, dúvidas sobre a magnitude da recessão e a possibilidade de novas ondas de contágio pelo novo coronavírus preocuparam mercados e autoridades internacionais nesta semana, como o presidente do Fed [Federal Reserve, o banco central norte-americano), Jerome Powell, que afirmou que a recuperação da atividade pode ser mais gradual, com efeitos mais duradouros sobre o mercado de trabalho”, acrescenta a equipe do Bradesco.

Na semana que vem, a agenda de indicadores traz dados de atividade da Europa e discursos de dirigentes do Fed. Aqui, o cenário político deverá ser destaque. Para o analista da corretora Mirae Asset, Pedro Galdi, o mercado seguirá acompanhando os ruídos em Brasília, que podem “atrapalhar” os ativos domésticos. “Continuamos vivendo em um período de grandes incertezas, o que tende a gerar volatilidade no câmbio”, diz.