Cautela com incertezas internas e externas faz Bolsa cair e dólar subir

São Paulo – O Ibovespa acelerou levemente as perdas no fim do dia e fechou em queda de 0,75%, aos 98.309,12 pontos, puxado pelas ações de bancos e da Petrobras em meio a um cenário de cautela com a situação fiscal doméstica. As incertezas locais impediram que o índice acompanhasse o tom mais otimista das principais Bolsas no exterior e que refletisse as expectativas positivas para os balanços de alguns setores.

Com isso, o índice também não conseguiu voltar aos 100 mil pontos, depois de se aproximar desse patamar nos últimos pregões. No entanto, o Ibovespa ainda encerrou a semana com ganhos de 0,85%, na segunda semana seguida de valorização. O volume total negociado foi de R$ 22,5 bilhões.

“A situação está complicada por aqui, com todas as indefinições, o Tesouro penando para fazer a rolagem de títulos e o governo parado, o Congresso sem votar nada, com as eleições chegando”, disse o economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira.

O estrategista da Genial Investimentos, Filipe Villegas, concorda, e destaca que a situação fiscal segue no foco. “Segue no radar a questão fiscal, as críticas de analistas e economistas têm ganhado corpo e temos vencimentos muito grandes de títulos no início do próximo ano. Essa questão fiscal continua sendo tema central e enquanto não tiver endereçamento vai fazer preço nos ativos”, disse em live.

Com a ausência de novidades positivas na cena local, os risco fiscal se sobrepõe e atrapalha também o desempenho de alguns papéis ligados à economia doméstica, como os de bancos, que têm grande peso no índice, caso do Itaú Unibanco (ITUB4 -1,51%) e do Santander (SANB11 -3,12%), que ficou entre as maiores perdas do Ibovespa. Ao lado do Santander, entre as maiores quedas, ficaram as ações da Yduqs (YDUQ3 -3,29%), da e da Cogna (COGN3 -3,29%).

Os papéis da Petrobras (PETR3 -2,41%; PETR4 -2,12%) também recuaram em dia de leves perdas dos preços do petróleo e depois que a companhia anunciou que postergou em um ano o início de projeto do Parque das Baleias, devido ao cenário econômico.

Na contramão, as maiores altas foram de papéis ligados a commodities, como as da Suzano (SUZB3 4,61%), JBS (JBSS3 3,57%) e da Usiminas (USIM5 4,33%). As expectativas são que setores como os de carnes e siderurgia apresentem bons resultados trimestrais, caso da CSN (CSNA3 0,41%), que divulgou um balanço forte ontem à noite. Ainda entre as maiores altas estão as ações da Braskem (BRKM5 5,57%).

Já no exterior, dados norte-americanos vieram positivos hoje, caso das vendas no varejo, o que ajudou a ofuscar dúvidas sobre o pacote de estímulos econômicos negociado entre democratas e republicanos e a cautela com o avanço do coronavírus, mantendo Wall Street em alta, embora tenha reduzido ganhos no fim do pregão.

Na semana que vem, o estrategista da Genial afirma que além da questão fiscal no Brasil, três temas principais devem continuar no foco dos mercados: as eleições presidenciais norte-americanas, o pacote fiscal nos Estados Unidos e a covid-10. “Isso deve nortear investidores nas próximas semanas e, claro, a temporada de balanços faz preço de forma pontual em alguns papéis”, disse.

Na agenda de indicadores, a semana começa com dados da economia chinesa, com dados do PIB do terceiro trimestre no domingo e indicadores de indústria em diversos países ao longo da semana.

O dólar comercial fechou em alta de 0,33% no mercado à vista, cotado a R$ 5,6450 para venda, em sessão de forte volatilidade, descolado do exterior, com investidores locais em busca de proteção em meio às incertezas que vêm do exterior, com o avanço da covid-19 na Europa e com a falta de sinais de que um novo pacote de estímulo fiscal seja aprovado nos Estados Unidos. Aqui, o cenário fiscal elevou a preocupação e a cautela do mercado. Com isso, a moeda estrangeira fechou a semana com 2,13% de valorização.

O analista de câmbio da Correparti, Ricardo Gomes Filho, ressalta o movimento volátil após abrir em queda seguindo o exterior, mas que firmou alta ao longo da tarde, na contramão do comportamento externo.

“Lá fora, o apetite por risco do investidor estrangeiro se consolidou após dados melhores do que o esperado das vendas no varejo dos Estados Unidos no mês passado. Aqui, os temores fiscais voltaram a assombrar os ativos domésticos e especulações sobre a possibilidade do teto de gastos brasileiro não ser respeitado, colocaram o investidor novamente em estado de cautela”, reforça o analista.

Na semana que vem, o destaque na agenda de indicadores fica para os dados de atividade da Europa e para a prévia da inflação no Brasil. Para a equipe econômica do Bradesco, os resultados devem mostrar o quanto o aumento dos casos de novo coronavírus e a consequente elevação das restrições à mobilidade afetou a atividade econômica nas últimas semanas na região.

Na segunda-feira, o mercado deverá reagir aos números da produção industrial e das vendas no varejo da China, em setembro, além do resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do país asiático no terceiro trimestre. “Se os números vierem acima do esperado, certamente, farão preço nas moedas de países emergentes”, comenta a analista da Toro Investimentos, Paloma Brum.

A fala do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, em um fórum anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) na segunda, também ficará no radar dos investidores.

Depois de passar praticamente toda a sessão oscilando entre margens estreitas, as taxas dos contratos de juros futuros (DIs) definiram uma trajetória positiva na reta final do pregão e acabaram fechando em alta firme. Os riscos fiscais e as incertezas em torno do Renda Cidadã e o “teto dos gastos” pesaram na curva a termo, que também monitora o ambiente internacional.

Ao final da sessão regular, o DI para janeiro de 2022 ficou com taxa de 3,38%, de 3,31% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 terminou projetando taxa de 4,82%, de 4,69% após o ajuste ontem; o DI para janeiro de 2025 encerrou em 6,64%, de 6,59%; e o DI para janeiro de 2027 tinha taxa de 7,57%, de 7,53%, na mesma comparação.

Os principais índices do mercado de ações norte-americano terminaram o dia sem uma direção comum, embora o Dow Jones tenha conseguido fechar em alta pela primeira vez em quatro sessões, graças a dados econômicos mais fortes. Na semana, que foi marcada por muita volatilidade, os índices consolidaram ganhos modestos, com destaque para o Nasdaq.

Confira a variação e a pontuação dos índices de ações dos Estados Unidos no fechamento:

Dow Jones: +0,39%, 28.606,31 pontos

Nasdaq Composto: -0,36%, 11.671,55 pontos

S&P 500: +0,01%, 3.483,81 pontos