Bolsa tem forte queda com investidores temendo desaceleração econômica global

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Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa caiu pelo quarto dia seguido, com perdas de 2,90%, aos 101.031,44 pontos, refletindo um aumento da aversão ao risco depois de dados mais fracos da economia norte-americana. Além do receio de uma desaceleração mais forte dos Estados Unidos, investidores não viram com bons olhos a retirada das novas regras para o abono salarial da reforma da Previdência ontem, o que trouxe nova desidratação à economia prevista e certo receio sobre a articulação do governo.

Com isso, o índice encerrou no menor nível de fechamento desde o dia 3 de setembro (99.680,83 pontos) e mostrou a maior queda percentual desde o dia 27 de março (-3,57%), auge da briga entre o Congresso e o Executivo. O volume total negociado hoje foi de R$ 17,3 bilhões, voltando a subir depois de alguns dias de baixa liquidez.

“Desde ontem o cenário está mais negativo, os números da economia americana têm vindo todos meio cadentes e reacenderam o temor da desaceleração econômica global”, disse o economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira.  Ontem, o ISM da indústria dos Estados Unidos já havia azedado o humor ao vir abaixo do esperado pelo mercado, além disso, o número de criação de vagas no setor privado, divulgado hoje, também foi considerado fraco, o que fez as bolsas norte-americanas caírem quase 2%.

No Brasil, apesar de a reforma da Previdência ter sido aprovada no primeiro turno no Senado, considerado um importante passo, investidores não gostaram da exclusão de novas regras do abono salarial, o que reduzirá a economia prevista em 10 anos em R$ 76,4 bilhões. Além da nova desidratação, o número menor de votos e um possível atraso na votação no segundo turno preocuparam, trazendo temores sobre a articulação do governo.

Entre as ações, as da Vale (VALE3 -5,47%) aceleraram perdas ao longo do pregão e registraram a maior queda do Ibovespa, ao lado da Bradespar (BRAP3 -4,91%) e Fleury (FLR73 -4,75%). Os papéis de bancos também sofreram hoje, como os do Bradesco (BBDC4 -3,88%), com analistas afirmando que as ações de maior liquidez são as que tiveram maiores quedas hoje por dar maior facilidade de saída ao investidor.

Na contramão, apenas as ações da Ultrapar (UGPA4 0,31%) e da Marfrig (MRFG3 0,09%) fecharam em alta entre as ações que compõe o Ibovespa.

Apesar do humor negativo hoje, um operador de renda variável acredita que a baixa de hoje pode oferecer oportunidade de entrada para investidores estrangeiros, que estavam fora do mercado. “O fluxo foi mais alto hoje, o que preocupou. Mas apesar da aversão ao risco, o dólar caiu, pode ser um movimento de gringo para entrar com a Bolsa barata”.

Já o economista-chefe do Modalmais destaca que o Ibovespa tem se mantido, em média, em uma faixa de 102 a 105 mil pontos no último mês, o que pode continuar, sem maiores impulsos, enquanto não houver novidades, como definições de questões como a guerra comercial, o Brexit, e a continuidade de redução de juros por bancos centrais diante de economias fracas.

Amanhã, na agenda, investidores devem continuar a observar indicadores norte-americanos em busca de sinais de desaceleração, como os dados do pedido de seguro-desemprego e encomendas de fábricas.

O dólar comercial fechou em queda de 0,67% no mercado à vista, cotado a R$ 4,1350 para venda, reagindo ao enfraquecimento da moeda no exterior e à conclusão da tramitação da reforma da Previdência em primeiro turno no Senado após ser votada ontem e ter os destaques analisados ao longo da sessão.

Enquanto o pessimismo global tomou conta da sessão, com o mercado de ações bastante negativo aqui e no exterior, o dólar “deu uma aliviada” entre as moedas de países emergentes, principalmente. “O receio dos investidores com o desaquecimento da economia global, principalmente, após a divulgação de indicadores um pouco mais fracos nos Estados Unidos levou o dólar às máximas na primeira dos negócios”, comenta o analista de câmbio da Correparti, Ricardo Gomes Filho.

Após a surpresa negativa com os números mais fracos da atividade industrial norte-americana, os dados de emprego no setor privado, divulgados pela ADP, com a criação de 135 mil vagas em setembro podem indicar um payroll mais fraco, na sexta-feira, indicam analistas, após desacelerar em relação ao mês anterior (157 mil vagas, em dado revisado).

Além da sessão mais positiva para moedas emergentes, investidores locais reagiram positivamente a mais um processo concluído da reforma da Previdência. O Senado finalizou os trâmites da reforma em primeiro turno aprovada ontem, o que acelerou as perdas da moeda estrangeira na reta final do pregão. “A aprovação da reforma trouxe uma energia renovada ao real que passou a renovar mínimas”, acrescenta o analista. A moeda chegou a R$ 4,1310 (-0,77%), menor nível intraday.

Para o analista da Toro Investimentos, Lucas Carvalho, o dólar pode voltar a subir amanhã em correção ao alívio exibido hoje. A agenda econômica, carregada de índices dos gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) nos Estados Unidos e na Europa, pode influenciar a cotação da moeda. “A depender dos números, podem indicar mais receios de recessão da economia global. São números que merecem atenção mais uma vez”, acrescenta.

Sobre a Previdência, ele acrescenta que agora o mercado segue atento aos prazos para sessões de análise da matéria em segundo turno, além da votação, que segundo o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ocorrerá até 15 de outubro.