Bolsa sobe puxado por exterior e dólar avança de olho no corte de juros

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São paulo – O Ibovespa fechou em alta de 1,59%, aos 107.224,22 pontos, refletindo os fortes ganhos das Bolsas norte-americanas, que foram puxadas pela vitória do candidato democrata Joe Biden nas primárias ocorridas ontem nos Estados Unidos e por indicadores positivos. O índice também refletiu a expectativa de queda da Selic, após sinalização do Banco Central (BC), e as ações de empresas exportadoras, que acompanharam a alta do dólar.

No entanto, o índice teve mais um pregão de forte volatilidade, chegando a operar em queda com ações de bancos. O volume total negociado foi de R$ 29 bilhões.

“No exterior, temos um fator de risco a menos, com o Sanders praticamente de fora da disputa presidencial nos Estados Unidos, e aqui começa a se precificar a queda da Selic, que ainda pode motivar a alta da Bolsa, apesar do coronavírus”, disse o analista da Toro Investimentos, João Freitas.

Para o analista, apesar de a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) de cortar juros ontem ter assustado investidores por evidenciar a gravidade dos impactos do coronavírus, as medidas que estão sendo tomadas por bancos centrais mundiais podem ajudar a estimular economias. No Brasil, também aumentaram apostas em um novo corte da Selic, após o BC ter divulgado comunicado dizendo que os riscos aumentaram em função do surto.

Além disso, Freitas destaca que a vitória do candidato democrata Joe Biden nas primárias ocorridas ontem nos Estados Unidos, também animou investidores no exterior, já que Sanders seria menos pró-mercados. Ainda foram divulgados indicadores norte-americanos positivos hoje, como os dados de criação de empregos no setor privado. Com isso, as Bolsas do país subiram mais de 4%.

Entre as ações, as maiores altas hoje foram principalmente de ações de empresas exportadoras, que se beneficiam com o dólar mais forte, caso da Klabin (KLBN11 6,49%) e da Suzano (SUZB3 9,01%). Ainda entre as maiores altas ficaram as ações da Usiminas (USIM5 6,99%).

Na contramão, as ações de bancos chegaram a pesar sobre o índice hoje, caso do Santander (SANB11 -0,77%), mas as maiores perdas foram do IRB Brasil (IRBR3 -31,96%), que chegaram a cair mais de 40% e também foram as mais negociadas do dia, com R$ 2,9 bilhões, cerca de 10% do volume total. Os papéis refletiram a notícia de que o fundo Berkshire Hathaway, do megainvestidor Warren Buffet, negou que tenha qualquer participação acionária na empresa, trazendo uma série de ruídos e desconfianças sobre a governança da companhia.

Entre os indicadores previstos para amanhã, estão os pedidos de seguro-desemprego e encomendas às fábricas nos Estados Unidos. Analistas, no entanto, afirmam que devem seguir no foco o noticiário em torno do coronavírus e ações de bancos centrais, o que ainda deve manter a volatilidade nos mercados.

“A única certeza é a volatilidade, mas as ações dos bancos centrais podem impedir quedas maiores dos mercados por enquanto. Só não seguraria se o surto de coronavírus virar uma pandemia e vermos, por exemplo, um salto de casos nos Estados Unidos ou termos outros países em situação semelhante à Itália, mas mais medidas já estão sendo tomadas”, disse o analista do banco Daycoval, Enrico Cozzolino.

O dólar comercial fechou em forte alta de 1,50% no mercado à vista, cotado a R$ 4,5810 para venda, e renovou a máxima histórica de fechamento pelo décimo pregão seguido, além de engatar a décima primeira alta consecutiva. A moeda estrangeira renovou máximas históricas intraday por quase 40 vezes, indo a R$ 4,5840, mesmo após a intervenção do Banco Central (BC) em dia de forte estresse no mercado doméstico com a leitura de que o ciclo de afrouxamento monetário deverá continuar por aqui.

“O principal indutor foi a nota do nosso BC sobre divulgada ontem no qual reforçou a forte possibilidade de um corte mais agressivo dos juros na reunião do Copom [Comitê de Política Monetária] deste mês”, comenta o diretor de uma corretora nacional.

O diretor da corretora Mirae Asset, Pablo Spyer, acrescenta que existe uma “expectativa generalizada” para os demais “cinco Bancos Centrais” agirem a qualquer momento, com “corte de juros ou algum ajuste no lado fiscal e até mesmo uma terceira via” para estimular a economia.

Isso porque dois dos países do G-7 (grupo composto por Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá), cortaram a taxa de juros entre ontem e hoje, no caso, Estados Unidos e Canadá. Após a ação inesperada do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) ontem no qual cortou a taxa em 0,50 ponto percentual – indo para a faixa entre 1,00% e 1,25% – hoje, o Banco do Canadá também reduziu a taxa básica em 0,50 pp, a 1,25%.

O profissional de uma corretora nacional citado acima acrescenta que a fraqueza da economia brasileira “referendada” pelo resultado do Produto Interno Bruto (PIB) com crescimento de 1,1% em 2019 – abaixo do apurado em 2017 e 2018 – ajudou no mau humor do câmbio.

“A moeda também ganhou força no exterior, com a tradicional corrida para o porto seguro em tempos de crise. Tudo isso formou uma tempestade perfeita para as máximas históricas mesmo com o anúncio de leilão do BC”, comenta.

No início da tarde, após a moeda romper o nível de R$ 4,56, a autoridade monetária anunciou que realizará amanhã, logo após a abertura, a operação de swap cambial tradicional – oferta de dólares no mercado futuro – no valor de até US$ 1,0 bilhão.

Em meio ao forte mau humor da moeda estrangeira, a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, observa que o comportamento da moeda prossegue “totalmente dependente” do noticiário sobre coronavírus e seu “efeito manada”, o que tem “tumultuado ainda mais” a situação, diz. “Está difícil apostar na direção da moeda, se é hora de corrigir, em meio ao momento de estresse e atuações tímidas do Banco Central”, avalia.