Bolsa fechou em queda com temor à recessão e encerra junho em baixa de 11,45%, o pior mês do ano; dólar sobe

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São Paulo- A Bolsa fechou em queda e abaixo dos 100 mil pontos com o temor dos investidores de como será a magnitude da recessão global em meio a juros altos e a inflação elevada, apesar de hoje o índice de preços nos Estados Unidos (PCE, sigla em inglês) ter vindo praticamente em linha com as estimativas do mercado.

O Ibovespa encerrou junho em baixa de 11,45%, o pior mês do ano e com desvalorização de 17,8%, no trimestre.

As commodities também tiveram forte queda, com destaque para a CSN (CSNA3), que caiu 6,42%. E na ponta positiva ficaram as ações do Fleury (FLRY3), que subiam 16,09% com aquisição do Hermes Pardini.

O principal índice da B3 caiu 1,08%, aos 98.541,95 pontos. O Ibovespa futuro com vencimento em agosto perdeu 1,34%, aos 99.705 pontos. O giro financeiro foi de R$ 27,4 bilhões. Em Nova York, as bolsas fecharam em queda.

Armstrong Hashimoto, sócio e operador de mesa de renda variável da Venice Investimentos, comentou que o dia é de aversão ao risco e o Ibovespa está fechando um trimestre muito ruim por conta de “um cenário pessimista global com a recessão ganhando mais força e, com os bancos centrais sinalizando, na véspera, preocupação com a inflação e como combatê-la. Isso acabou trazendo mais incerteza para os investidores”. A desvalorização das commodities também não ajudam o índice.

Apesar da taxa de desemprego ter vindo abaixo da previsão dos analistas-subiu 9,8%, “não serviu de alívio para o Ibovespa”. Existe uma preocupação dos investidores com a PEC dos combustíveis por temor ao gasto público, completou.

Heitor Martins, especialista em renda variável da Nexgen Capital, disse que o mercado reflete o dado de inflação nos Estados Unidos, que apesar de um pouco menor que o esperado segue em patamar elevado, “isso deixa o Fed (banco central norte-americano) ainda com projeção maior para elevar os juros, levando a uma desaceleração da economia e até recessão, com isso diminui aqui o apetite ao risco”.

O núcleo de índice de preços PCE (sigla em inglês), divulgado pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos, subiu 4,7% em maio em base anualizada, praticamente em linha com a estimativa do mercado (+4,8%).

O especialista de renda variável da Nexgen Capital também citou o Relatório de Inflação (RTI), divulgado mais cedo pelo Banco Central (BC), ajuda para a queda da Bolsa hoje em que a autoridade monetária “abre mão da meta de inflação para este ano e projeta uma alta de 4% para 2023 e 2,7% para 2024”.

Nicolas Farto, especialista em renda variável da Renova Invest, comentou que o dia é mais negativo para a Bolsa em que o PCE alivia um pouco a pressão inflacionária, mas o número de pedidos de seguro-desemprego-soma 231 mil na semana encerrada em 25 de junho-, mostra que o mercado de trabalho está bem aquecido.

“Temos duas informações que se contrastam e agora o mercado vai tentar pesar as duas coisas para precificar”.

Farto disse que do lado doméstico, a taxa de desemprego- caiu para 9,8% em maio-mostra que o mercado de trabalho aqui também está mais forte, o que pode gerar uma pressão inflacionária e “exigir que a gente tenha taxa de juros mais altas por mais tempo. Ainda pesa a leitura da PEC dos combustíveis, com aberturas que poderiam deixar o governo gastar além da conta”.

O dólar comercial fechou em R$ 5,2320, com alta de 0,80%. A moeda foi afetada pelo fechamento da Ptax – taxa de referência para operações em moeda estrangeira que são praticadas no Brasil e pelo temor por uma recessão nos Estados Unidos. No mês, a moeda teve alta de 10,05% e de 9,89% no trimestre. Já no semestre, a queda foi de 6,17%.

Segundo o head de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, “assim que terminou a formação da Ptax, o dólar despencou. O movimento global de enfraquecimento foi potencializado pela Ptax”.

De acordo com o estrategista chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, “existe preocupação com uma recessão. O PCE (índice de preços para os gastos pessoais) aponta uma piora na confiança do consumidor, diminuindo a intenção de consumo das famílias”.

Rostagno acredita que tais resultados apontam para a continuidade uma política mais agressiva do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), o que pode gerar uma desaceleração forçada da economia: “Isso afeta os países latino-americanos, já que os Estados Unidos são o principal – ou um dos principais – parceiro econômico deles”, explica.

Devido ao fechamento da Ptax – taxa de referência para operações em moeda estrangeira que são praticadas no Brasil – na manhã de hoje, Rostagno entende que o impacto da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do estado de emergência no câmbio pode ser mais bem compreendido no período da tarde, e enfatiza a tendência que o real aumente seu ritmo de queda.

O PCE subiu 0,6% em maio na comparação mensal, depois de registrar alta de 0,2% em abril. Na comparação anual, o índice subiu 6,3% em maio, após uma alta de 6,3% em abril. O PCE é o indicador usado pelo Fed como referência para medir a inflação.

O núcleo do PCE, que exclui do cálculo os preços de alimentos e energia, subiu 0,3% em termos mensais e cresceu 4,7% em termos anuais em maio, após a alta de 0,3% registrada em abril em base mensal e de 4,9% em base anual.

O presidente do Fed, Jerome Powell, já declarou que a medida preferida do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) é o núcleo do índice de preços PCE já que ele exclui de seu cálculo os preços variáveis de commodity que, no momento, são afetados mais por medidas externas do que internas, segundo ele.

Para o analista da Ouro Preto Investimentos, Bruno Komura, “mesmo com o PCE tendo vindo um pouco abaixo da expectativa, não achamos ele bom. Isso indica que a economia está forte e vai ser difícil controlar a inflação”.

Já no espectro doméstico, Komura entende que a PEC tem impacto negativo: “Ela está fazendo bastante mercado. Quando existe a possibilidade do estado de calamidade pública, assina-se um cheque em branco, e isso preocupa”, analisa.

As taxas dos contratos futuros de Depósitos Interfinanceiros (DI) fecharam em queda nesta quinta-feira (30) acompanhando as commodities no exterior, que operam em queda, e os dados de inflação nos EUA.

O DI para janeiro de 2023 tinha taxa de 13,750% de 13,800% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2024 projetava taxa de 13,435% de 13,610%, o DI para janeiro de 2025 ia a 12,735%, de 12,905% antes, e o DI para janeiro de 2027 com taxa de 12,640% de 12,835%, na mesma comparação. Os principais índices do mercado de ações dos Estados Unidos fecharam a sessão em queda, num mês que encerra o 2º trimestre e o 1º semestre de 2022 em que se acentuaram as preocupações com o aumento da inflação e os riscos de recessão, fazendo com que os investidores fugissem de ativos de risco, como as ações.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos índices de ações dos Estados Unidos após o fechamento:

Dow Jones: -0,82%, 30.775,43 pontos
Nasdaq Composto: -1,33%, 11.028,7 pontos
S&P 500: -0,87%, 3.785,38 pontos

 

Com Paulo Holland, Pedro do Val de Carvalho Gil e Darlan de Azevedo / Agência CMA