Bolsa fecha em leve queda e dólar sobe com preocupação externa e risco fiscal doméstico

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São Paulo- A Bolsa fechou em leve queda refletindo as falas de dirigentes do Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) sobre o aumento na taxa de juros de forma mais agressiva e o índice de confiança ao consumidor pior que a estimativa do mercado.

Mas o Ibovespa passou boa parte da manhã em alta expressiva com as notícias sobre a ampliação do relaxamento das medidas de restrições na China. As ações da Vale (VALE3), com forte peso no índice, se mantiveram todo o pregão valorizadas. Outro papel relevante no Ibovespa, a Petrobras (PETR3 e PETR4) também subiu.

No cenário doméstico, os riscos fiscais seguiram preocupando os investidores com as medidas populistas do governo Jair Bolsonaro.

O principal índice da B3 caiu 0,17%, aos 100.591,41 pontos. O Ibovespa futuro com vencimento em agosto perdeu 0,72%, aos 102.160 pontos. O giro financeiro foi de R$ 20,8 bilhões. Em Nova York, os índices fecharam em queda.

Leonardo de Santana, analista da Top Gain, disse que a queda da Bolsa acompanha o mercado norte-americano com as falas de integrantes mais agressivas e índice do consumidor nos EUA pior que o esperado.

“Dois dirigentes disseram que o Fed terá de ser mais duro em relação ao aumento da taxa de juros mesmo que tenha uma certa recessão precisamos controlar a inflação e, depois, fazemos a retomada econômica. A partir daí o mercado passou a virar”.

O analista da Top Gain comentou que as ações da Vale (VALE3) e Petrobras (PETR3 e PETR4) não sobem tanto como na véspera, mas seguem no positivo ainda refletindo a notícias da China sobre reabertura e alta do petróleo.

Maurício Machado, head de renda variável da Speed Invest, disse que índice de Confiança do consumidor caiu nos Estados Unidos- para 98,7 pontos em junho e os analistas esperavam 101,1 pontos- e puxou as bolsas para baixo e “a princípio seria o único motivo para a perda de força no Ibovespa”.

O head de renda variável da Speed Invest disse que existe uma expectativa para a divulgação da PEC dos Combustível em meio a um cenário externo complicado e por aqui a proximidade do período de eleições, que vai trazer bastante ruído.

“A gente está vendo uma movimentação no governo do Bolsonaro com algumas medidas para tentar melhorar a popularidade do governo e a grande questão é o preço da gasolina. Elevar Auxílio Brasil e subir o voucher dos caminhoneiros, aumentam popularidade do governo, mas tudo isso tende a deteriorar o cenário fiscal e trazer volatilidade pra Bolsa”.

Somado a isso, o Bolsonaro estaria tentando comprar diesel da Rússia para tentar baratear o custo “é uma medida estranha porque o Brasil é aliado dos Estados Unidos e pode sofrer retaliações. São as formas que o governo encontra para baixar o preço dos combustíveis”.

Segundo Nicolas Farto, head de renda variável da Renova Invest, disse que a notícia da China “é um alento em meio a tantas notícias ruins, mas a gente tem os nossos próprios problemas com a discussão em torno da PEC dos combustíveis, o que pode trazer algum risco fiscal.”

O dólar comercial fechou em alta de 0,61%, cotado a R$ 5,2670. A moeda refletiu não apenas as incertezas fiscais domésticas, mas também o índice de confiança do consumidor, nos Estados Unidos, que registrou 98,7 em junho ante previsão de 100,1, aumentando o temor por uma recessão.

Segundo o analista da Ouro Preto Investimentos, Bruno Komura, “o dólar ganha lá fora com a piora do índice de confiança. O receio com a recessão é cada vez maior”.

Komura também entende que os problemas fiscais internos preocupam: “Isso só confirma que o congresso tem apetite para gastar mais. O aumento do Auxílio Brasil e o vale-gás contribuem com a inflação, e a população vai sentir isso mais para a frente”, avalia.

De acordo com o economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Nicolas Borsoi, “é um dia de melhora dentro de uma tendência de piora. A dúvida é saber qual o tamanho da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Combustíveis. O dólar ainda deve subir, o movimento que o risco país está fazendo está colado ao câmbio”.

Para a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, “é inegável a importância da China para o Brasil, já que ela é nosso principal parceiro comercial. Isso dá um respaldo para as commodities, ao menos em curto prazo”.

Abdelmalack, porém, chama a atenção para a questão fiscal deflagrada novamente pela PEC dos Combustíveis: “Isso acaba sendo visto pelo mercado como uma política assistencialista visando as eleições. Tudo que é fora do teto de gastos gera uma preocupação para o investidor pois indica se somos responsáveis ou não”, contextualiza.

As taxas curtas dos contratos futuros de Depósitos Interfinanceiros (DI) fecharam em alta, após o Brasil anunciar a criação de 277 mil empregos formais em maio, bem acima das expectativas do mercado (+192 mil).

O DI para janeiro de 2023 tinha taxa de 13,790% de 13,665% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2024 projetava taxa de 13,580% de 13,310%, o DI para janeiro de 2025 ia a 12,875%, de 12,555% antes, e o DI para janeiro de 2027 com taxa de 12,820% de 12,510%, na mesma comparação.

Os principais índices do mercado de ações dos Estados Unidos fecharam a sessão em queda, com a Nasdaq caindo quase 3%, à medida que as ações de tecnologia sofreram com as vendas em meio ao desempenho ruim da economia norte-americana, que tem gerado temores de uma possível recessão.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos índices de ações dos Estados Unidos após o fechamento:

Dow Jones: -1,56%, 30.946,99 pontos
Nasdaq Composto: -2,98%, 11.181,5 pontos
S&P 500: -2,01%, 3.821,55 pontos

 

Com Paulo Holland, Pedro do Val de Carvalho Gil e Darlan de Azevedo / Agência CMA