Bolsa e dólar sobem em dia de volatilidade e influência externa nos mercados

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Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa subiu pelo quinto pregão consecutivo, com alta de 0,18%, aos 104.489,56 pontos, refletindo os ganhos das bolsas norte-americanas, que reagiram a um início positivo da temporada de balanços do país. No entanto, a falta de gatilhos mais relevantes, o volume mais fraco e a cena política local, com brigas e investigações envolvendo o partido do presidente Jair Bolsonaro, o PSL, limitaram os ganhos do índice, que desacelerou perto do fim do pregão.

Mais cedo, o Ibovespa chegou a atingir a máxima de 105.047,62 pontos, voltando a se aproximar de seus recordes históricos. O volume total negociado hoje foi de R$ 15,6 bilhões.

Para o economista da Toro Investimentos, Pedro Nieman, a agenda mais esvaziada hoje e a liquidez mais fraca no início desta semana colaboram para que investidores tenham pouco ímpeto para ir às compras, sendo que ainda há “uma região de resistência” para o índice perto dos 105 mil pontos. “O mercado está sem um foco definido, não há nada muito forte para mexer com o índice e ainda tem a questão da guerra comercial pairando”, disse.

No exterior, as bolsas norte-americanas fecharam com fortes altas em meio a balanços corporativos positivos, como os do JPMorgan, cujo lucro cresceu 8%, e do Citigroup, que viu seu lucro avançar 6%, superando expectativas de analistas. Os balanços ajudaram a ofuscar preocupações com as negociações comerciais entre China e Estados Unidos. Já as bolsas europeias também fecharam na sua maioria em alta após o negociador-chefe da União Europeia (UE) para o Brexit, Michel Barnier, afirmar que um acordo é possível esta semana.

Na cena local, analistas citam que os mandados de busca e apreensão da Polícia Federal (PF) em endereços ligados ao deputado federal e presidente do PSL, Luciano Bivar, também ficaram no radar, ajudando a trazer cautela, além dos rumores de que Bolsonaro deve sair do PSL.  “A cena política sempre tem peso nas decisões de curto e médio prazo”, pondera o CEO da WM Manhattan, Pedro Henrique Rabelo, que também vê o movimento de alta do Ibovespa hoje mais ligado a investidores locais, com ausência de estrangeiros.

Ainda no Brasil, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE) aprovou por unanimidade o projeto de partilha da cessão onerosa, que determina que 15% (R$ 10,95 bilhões) dos recursos que serão divididos sejam destinados para Estados. O projeto agora deverá ser votado no plenário do Senado, o que, apesar de já ser esperado, ajudou os papéis da Petrobras (PETR4 1,06%) a fecharem em alta.

As maiores altas do Ibovespa foram das ações da CSN (CSNA3 2,57%), da Yduqs (YDUQ3 2,15%) e da Notre Dame Intermédica (GNDI3 2,12%). Na contramão, as maiores quedas foram da Equatorial (EQTL3 -5,20%), da MRV (MRVE3 -2,73%) e da Cielo (CIEL3 -2,31%).

Amanhã, a agenda de indicadores estará um pouco mais cheia, com destaque para as vendas no varejo e o Livro Bege nos Estados Unidos, além de investidores devendo continuar a acompanhar a temporada de balanços e a questão de guerra comercial. O vencimento de opções sobre o Ibovespa ainda pode trazer alguma volatilidade ao pregão.

O dólar comercial fechou em alta de 0,94% no mercado à vista, cotado a R$ 4,1660 para venda, no maior nível desde 24 de setembro – quando encerrou a R$ 4,17 – com investidores assimilando fatores externos e internos, como as incertezas com o conflito comercial entre Estados Unidos e China e tensão com a política local. Aqui, o movimento de fluxo local também pode ter provocado uma disparada da moeda renovando máximas sucessivas na reta final dos negócios.

“Não tem tido fluxo de investidor estrangeiro para aplicar aqui por causa do diferencial de juros mais baixos, além de não acreditar muito na recuperação econômica, nas reformas. Isso tem afastado investimentos e consequentemente, pressionado o dólar no cenário local”, comenta o economista e CEO da Veedha Investimentos, Rodrigo Tonon.

O gerente de mesa de câmbio da Correparti, Guilherme Esquelbek, destaca que, no exterior, as incertezas sobre o acordo comercial entre os Estados Unidos e a China prevalecem, além da percepção de mais riscos de desaceleração global após o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisar para baixo as projeções de crescimento da economia para este ano e para 2020.

Enquanto aqui, ele reforça o viés de proteção em meio aos temores de que a ação da Polícia Federal, pela manhã, em endereços ligados ao presidente do PSL, Luciano Bivar, possa “respingar” na aprovação da reforma da Previdência em segundo turno, no qual a votação está prevista para dia 22.

Amanhã, as atenções seguem na política local, além de acompanhar indicadores de inflação do Reino Unido e da zona do euro, dados sobre vendas no varejo nos Estados Unidos e a divulgação do relatório com uma avaliação da economia dos Estados Unidos, o Livro Bege.

“A tendência deverá ser de alta com investidores ainda em cautela com o exterior e com a questão dos juros aqui. A expectativa de mais quedas da Selic [taxa básica de juros] tem impulsionado uma revisão de posições e consequentemente, pressionado o dólar”, reforça o diretor de uma corretora local.