Bolsa e dólar sobem com tom mais duro do Fed

São Paulo – O Ibovespa teve uma sessão de muita volatilidade entre perdas e ganhos em que os investidores ainda reagiram à postura mais hawkish [tom mais duro no jargão do mercado] do banco central norte-americano na quarta-feira. Somado a isso, hoje é dia de exercício de opção e agenda vazia de indicadores aqui e lá fora. O principal índice da B3 encerrou o pregão com alta de 0,27%, aos 128.405,35 pontos.

O analista Gustavo Bertotti, analista da Messem Investimentos, comenta que o Brasil e mercados globais desaceleraram e entraram em cenário de correção “a mudança de postura do Fed [banco central norte-americano] impactou o Ibovespa e o mercado global”.

Bertotti comenta que “a agenda vazia e o exercício de opções contribuem para essa volatilidade”.

Na visão de Vicente Matheus Zuffo, fundador e CIO da Chess Capital, essa volatilidade está atribuída “ao exercício de opções e a volatilidade expressiva no exterior”, comenta. Ele afirma que “ainda o mercado reage à decisão do banco central norte americano, na quarta-feira, mas não acredita que o aumento de juros venha logo”.

Para Zuffo, a votação da medida provisória (MP) que autoriza a privatização da Eletrobras, na véspera, pelo Senado, tem maior impacto nas empresas ligadas à energia. “Afeta mais o setor elétrico e a Eletrobras, em especial”, enfatiza.

A aprovação MP da Eletrobras pelos senadores apresenta vários “jabutis”- textos estranhos ao original- e voltará para a Câmara dos Deputados para nova votação, prevista para a próxima segunda-feira. A MP caduca na terça-feira, dia 22 de junho. “Essa aprovação foi apertada, mas acabou dando uma percepção para o mercado da força do governo e na capacidade de entregar uma votação tão difícil”, afirma Filipe Villegas, estrategista da Genial Investimentos. As ações da estatal (ELET3 e ELET4) dispararam em 9,00% e fecharam em alta de mais de 5%.

Os bancos, que têm um dos maiores pesos na Bolsa, tiveram queda expressiva na sessão de hoje. Uma fonte que não quis se identificar comentou que o recuo “pode ter relação com a ação que a AEB moveu contra 19 bancos acusados de manipulação no câmbio”. Ainda no setor corporativo, a Petrobras protocolou na Comissão de Valores Imobiliários (CVM), ontem à noite, a oferta pública de ações da BR Distribuidora. O valor total de oferta pode chegar a R$ 11,5 bilhões. “Vejo positivo tanto para a Petrobras como para a BR Distribuidora, mas já estava sendo previsto pelo mercado”. Os papéis da estatal (PETR3 e PETR 4) fecharam no positivo.

As ações da Vale (VALE3) subiram mais de 3,00% devido ao anúncio de pagamento de dividendos extraordinários aos acionistas. E as siderúrgicas foram no embalo. Até as 17h (horário de Brasília) foram negociadas 27 milhões de ações e no leilão 32 milhões, sendo as mais negociadas no pregão de hoje, por conta do vencimento de opção.

Para o estrategista da Genial Investimentos, os ativos de risco “estão passando por uma rotação setorial” desde a decisão do Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano), na quarta-feira, que sinalizou que os juros poderiam subir mais cedo que o esperado. “Aos poucos, voltamos para as teses de investimentos colocadas em prática no final do ano passado, com o mercado acreditando no bom desempenho das empresas de crescimento”.

Em relação ao recuo das commodities, o estrategista acredita que o Brasil poderia ser beneficiado “por um lado, a queda das commodities acaba trazendo algo positivo porque poderia ajudar o mercado na acomodação, em parte, das suas pressões inflacionárias e auxiliar o Brasil”. Na véspera, as ações das empresas ligadas às commodities tiveram expressiva queda.

O dólar comercial fechou em alta de 0,93% no mercado à vista, cotado a R$ 5,0710 para venda, em sessão de forte volatilidade e amplitude, acompanhando o exterior com investidores fazendo ajustes ainda na esteira das sinalizações do Fed quanto ao futuro da política monetária do país após declarações de um dos dirigentes da autoridade monetária.

O gerente da mesa de câmbio da Correparti, Guilherme Esquelbek, destaca que a moeda norte-americana seguiu o fortalecimento global da divisa após o presidente do Fed de Saint Louis, James Bullard, afirmar que o banco central poderá antecipar o ciclo de aperto monetário. “O que levou o dólar a ficar acima de R$ 5,08”, diz.

Em entrevista à CNBC, Bullard disse que espera a primeira alta de juros nos Estados Unidos no fim de 2022, citando que a inflação está acelerando mais do que o previsto anteriormente. As previsões do Fed mostraram dois aumentos nos juros em 2023, enquanto não havia nenhuma projeção de alta na estimativa divulgada em março.

O chamado “gráfico de pontos” da autoridade monetária mostrou que 13 dos 18 membros do comitê de política monetária preveem um aumento na taxa de juros em 2023, ante apenas seis anteriormente, enquanto sete esperam uma primeira elevação em 2022.

Antes, porém, o dólar oscilou forte na primeira parte dos negócios, “favorecido” pela aprovação da Medida Provisória (MP) que permite privatizar a Eletrobras e com o ingresso de fluxo de capital estrangeiro no país, destaca Esquelbek. Com isso, o dólar renovou as mínimas no movimento intraday em um ano, ao chegar a R$ 4,9830 – menor valor desde 10 de junho de 2020.

Na semana marcada pelas decisões de política monetária do Fed e do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), com comunicados vistos como “hawkish”, a moeda fechou em queda de 0,98%.

Na próxima semana, os destaques da agenda ficam para a ata da reunião do Copom, o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) e para a prévia de junho da inflação doméstica. Enquanto lá fora, tem a decisão de política monetária do Banco da Inglaterra e a divulgação dos números preliminares de junho da atividade industrial e de serviços (PMI, na sigla em inglês) nos Estados Unidos e na Europa. O presidente do Fed, Jerome Powell, falará na Câmara.

Para a equipe econômica do Bradesco, o Banco Central brasileiro poderá explicitar com mais detalhes o cenário básico e os riscos para a política monetária por meio da ata e do Relatório de Inflação. Enquanto os PMIs na zona do euro e norte-americano concentrarão as atenções dos investidores.

As taxas dos contratos de juros futuros (DIs) fecharam perto das máximas da sessão em reação aos comentários feitos pelo presidente do Fed de Saint Louis, James Bullard, que azederam o humor dos investidores logo na abertura dos negócios.

Com isso, o DI para janeiro de 2022 encerrou com taxa de 5,620%, de 5,575% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 projetava taxa de 7,23%, de 7,14% o DI para janeiro de 2025 ia a 8,35%, de 8,13% antes; e o DI para janeiro de 2027 tinha taxa de 8,82%, de 8,55%, na mesma comparação.

A possibilidade de aperto monetário nos Estados Unidos em 2022 lançou os principais índices do mercado de ações norte-americano ao território negativo. O Dow Jones caiu mais de 500 pontos para encerrar a sua pior semana desde outubro, pressionado pelo fim ainda mais antecipado da política de dinheiro fácil do Fed.

Confira a variação e a pontuação dos índices de ações dos Estados Unidos no fechamento:

Dow Jones: -1,58%, 33.290,08 pontos

Nasdaq Composto: -0,93%, 14.030,40 pontos

S&P 500: -1,31%, 4.166,45 pontos