Bolsa e dólar fecham em queda com PIB dos EUA e Selic no Brasil

Foto: Myles Davidson / freeimages.com

São Paulo – A Bolsa passou praticamente toda a sessão em queda e fechou com perda de 0,48%, aos 125.675,33 pontos, pressionada pelas ações da Vale devido ao balanço do segundo trimestre desagradar o mercado. O resultado da Ambev e do Pão de Açúcar também provocaram mau humor dos investidores impulsionando a forte queda dos papéis. O Ibovespa andou na contramão das bolsas em Nova York.

O analista Enrico Cozzolino, da Levante Ideias Investimentos, comentou que “essa era uma semana de volatilidade com indefinição de preço e entre os 125 mil pontos, ora acima, ora abaixo”. E acrescentou que a Bolsa se descola do exterior e se volta com as preocupações com a Selic [taxa básica de juros]. “O mercado está entendendo que vai ter de subir juros para trazer a inflação à meta”.

Para Cozzolino, o resultado do balanço da Vale foi bom e “está aproveitando para realizar lucros”.

Uma outra fonte que não quis se identificar afirmou que a Vale ainda pressiona a Bolsa, junto com o Pão de Açúcar. “A Vale recomprou 45% do lote de 272 milhões de ações informado há três meses”.

Na visão de Caio Kanaan Eboli, sócio e diretor operacional da mesa proprietária Axia Investing, a perda do Ibovespa reflete os investidores repercutindo os balanços do segundo trimestre. “O mercado ficou descontente com o resultado da Ambev, mesmo depois da companhia ter registrado um salto no lucro e o balanço da Vale veio ligeiramente abaixo do esperado”, enfatizou.

Segundo os analistas da Terra Investimentos, o recuo é atribuído à reação dos investidores aos balanços corporativos do segundo trimestre. “O ebitda da Vale abaixo do esperado motivou a queda, embora tenha sido o maior da história”. Eles afirmaram que a Ambev e Pão de Açúcar também “reverberam resultados com recuo nas ações”.

Os papéis da Vale (VALE3) perderam 1,47%; Ambev (ABEV3) baixaram 1,15% e Pão de Açúcar (PCAR3) recuaram 7,39%. Enquanto que as ações das siderúrgicas tiveram alta expressiva.

A receita líquida da Vale cresceu 121,8% para US$ 16,68 bilhões no segundo trimestre de 2021. O lucro líquido subiu 662,4% no 2T21 para US$ 7,59 bilhões e o ebita ajustado registrou recorde de US$ 11,24 bilhões. O resultado da Vale foi divulgado na véspera após o fechamento do mercado.

Os analistas da Terra Investimentos disseram que a Ambev faz uma correção aos ganhos da véspera. O lucro líquido da empresa foi de R$ 2,93 bilhões no 2T e o ebita ajustado “superou as projeções”, segundo os analistas da Terra Investimentos. Já o Grupo Pão de Açúcar registrou lucro líquido de R$ 4 milhões, queda de 95%  na comparação anual.

Refletindo o clima de tensão no mercado, o dólar comercial fechou esta quinta-feira cotado a R$ 5,0790, com queda de 0,60%. Os fatores mais relevantes para isso foram o discurso do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, e os resultados da economia norte-americana, divulgados pela manhã. No Brasil, analistas estudam um aumento na Selic (taxa básica de juros) e o cenário político.

Ontem, Jerome Powell descartou um aumento dos juros mesmo com a aceleração da inflação prevista para continuar nos próximos meses e sinalizou que a redução da compra de ativos pode estar mais próxima, mas disse que a instituição está longe de alcançar seu duplo mandato de estabilidade de preços e pleno emprego.

Hoje, o governo dos Estados Unidos afirmou que o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre cresceu 6,5% no segundo trimestre em base anualizada, mas especialistas previam alta de 8,4%. Os pedidos de seguro-desemprego no país, por sua vez, caíram de 24 mil na semana passada, para 400 mil, mas a previsão era queda para 380 mil.

“Vimos um Fed ainda muito complacente, embora admitindo que os resultados da inflação também o surpreenderam. Antes de subir os juros, porém, o Fed precisa cortar outros pacotes monetários”, analisa o head da mesa de operações da Head Investimentos, Álvaro Villa.

Álvaro também contextualiza a situação política brasileira: “É uma questão que ainda é incerta, mesmo com a confirmação do Ciro Nogueira na Casa Civil”. Segundo o economista, “o provável aumento de 1,25% na Selic, acaba deixando o mercado brasileiro mais interessante, valorizando a nossa moeda. O capital que está entrando, contudo, não quer correr riscos”.

“O movimento do mercado foi exacerbado pelo PIB abaixo do esperado e pedidos de seguro-desemprego acima da expectativa”, analisa o economista-chefe do Banco Alfa, Luís Otávio Leal. Para Luís, o dólar fica enfraquecido pois “tem-se a ideia de que a política monetária norte-americana deve ficar enfraquecida por mais tempo”.

Além disso, a próxima reunião do Copom – que ocorre na primeira semana de agosto – deve elevar a taxa Selic. “A expectativa do mercado é que este aumento seja entre 1 e 1,25%, fortalecendo o real”, defende Luís.

Jefferson Rugik, da Correparti, ressaltou em relatório que o dólar irá continuar no modo “loser”, ou perdedor. “No mercado internacional de câmbio, ele opera enfraquecido frente à maioria dos seus pares e outras moedas emergentes como o peso mexicano”, afirmou.

As taxas dos contratos de juros futuros (DIs) fecharam em queda com os investidores reagindo positivamente aos dados do IGP-M de julho, que vieram abaixo das estimativas dos analistas, apesar de terem registrado aceleração. Ao mesmo tempo, os participantes do mercado começaram a fazer ajustes, principalmente no trecho curto da curva a termo, com vistas à próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), na semana que vem.

Com isso, o DI para janeiro de 2022 fechou com taxa de 6,20%, de 6,24% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 projetava taxa de 7,560%, de 7,685; o DI para janeiro de 2025 ia a 8,36%, de 8,43% antes; e o DI para janeiro de 2027tinha taxa de 8,72%, de 8,76%, na mesma comparação.

Os principais índices do mercado de ações norte-americano fecharam o dia em alta, após a divulgação de indicadores abaixo do previsto, mas que sugerem que a recuperação econômica nos Estados Unidos permanece intacta, apesar das preocupações recentes sobre a variante Delta.

Confira a variação e a pontuação dos índices de ações dos Estados Unidos no fechamento:

Dow Jones: +0,44%, 35.084,53 pontos

Nasdaq Composto: +0,11%, 14.778,30 pontos

S&P 500: +0,42%, 4.419,15 pontos