Bolsa e dólar caem com vacina russa e impasse no pacote dos EUA

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São Paulo – Após mostrar leve alta na maior parte do pregão, o Ibovespa fechou em queda de 1,22%, aos 102.174,40 pontos, acentuando perdas perto do fechamento diante da virada das Bolsas norte-americanas, já que republicanos e democratas seguem em um impasse nas negociações sobre o pacote de estímulos nos Estados Unidos.

Mais cedo, o índice já mostrava dificuldades de engatar uma alta mais forte diante de preocupações com a questão fiscal doméstica e influenciado pelo vencimento de opções sobre o Ibovespa, que ocorre amanhã. Ações de peso, como as da Vale, fecharam em queda. O volume total negociado foi de R$ 28,6 bilhões.

O líder da maioria no Senado dos Estados Unidos, o republicano Mitch McConnell, indicou que as negociações sobre uma rodada de estímulos no país continuam estagnadas. Havia a expectativa no mercado de que as conversas voltassem a avançar. Com isso, Wall Street passou a cair na etapa final da sessão. Mais cedo, a maioria dos índices subia com sinalizações do presidente Donald Trump de que pode reduzir impostos sobre ganhos de capital e com o otimismo global após a Rússia registrar a primeira vacina contra o coronavírus.

No entanto, também há algum ceticismo em torno da vacina russa, diante da rapidez com que foi registrada e já que não estava listada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma das seis candidatas que alcançaram a fase três, com testes mais difundidos em humanos.

No Brasil, por sua vez, há rumores de que o governo estuda a prorrogação do estado de calamidade para 2021, o que faz com que não precise cumprir a meta de déficit primário e o teto de gastos públicos, que impede o crescimento dos gastos além da inflação. A questão fiscal tem ganhado atenção, embora o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tenha afirmado que a prorrogação do estado de calamidade não deve prosperar e da notícia de que a equipe do ministro Paulo Guedes teria criado uma força tarefa para convencer parlamentares a não flexibilizar o limite de gastos.

“Nos últimos dias estamos vendo uma certa acomodação do Ibovespa e uma das justificativas é que o fluxo de notícias segue bastante focado no quadro fiscal, levando a equipe econômica a entrar em cena para defender o teto de gastos”, destacou o estrategista da Genial Investimentos, Filipe Villegas.

Segundo o economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira, investidores estão “largando um pouco de ações que subiram muito e trocando para ações mais atrasadas” em relação ao Ibovespa. Para ele, o vencimento de opções sobre o Ibovespa amanhã também atrapalha um pouco o desempenho do índice, dificultando a retomada rumo aos 105 mil pontos.

Na agenda de amanhã, além do vencimento do índice, investidores ficarão atentos principalmente aos dados de vendas no varejo no Brasil, à produção industrial da zona do euro e ao índice de preços ao consumidor norte-americano, dados que podem dar mais sinais sobre a recuperação econômica.

O dólar comercial não se rendeu a notícia de que o pacote de estímulo nos Estados Unidos não será aprovado tão logo, o que fez com que as Bolsas norte-americanas e brasileira caíssem. Com isso, o dólar recuou 0,95%, cotado a R$ 5,4160 para venda, refletindo a descoberta de uma vacina contra a covid-19.

“O investidor seguiu mais otimista com a notícia da vacina do que com o impasse na aprovação do pacote dos Estados Unidos. Acho que isso talvez pegue mais forte na sessão de amanhã. Além da notícia vinda da Rússia sobre a vacina, tivemos a notícia da redução de impostos nos Estados Unidos. As notícias boas sobressaíram as notícias ruins”, explicou um operador de câmbio de uma grande corretora.

A notícia que derrubou Wall Street veio do Congresso norte-americano, depois que o líder da maioria no Senado, o republicano Mitch McConnell, afirmou em entrevista para a Fox News que as negociações em torno da ajuda ao novo coronavírus estão estagnadas.

Havia um otimismo com relação à retomada das negociações nesta semana, depois que o secretário do Tesouro norte-americano, Steven Mnuchin, sinalizou ontem que o governo estava aberto a voltar à mesa de discussões e poderia oferecer mais recursos para a rodada de ajuda.

Sobre a notícia mais positiva do dia, a Rússia anunciou a aprovação de uma vacina contra o novo coronavírus menos de dois meses depois de iniciar testes em humanos. O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que sua filha já recebeu uma dose.

“Uma vacina contra a nova infecção por coronavírus foi registrada pela primeira vez no mundo esta manhã”, anunciou Putin em reunião por videoconferência com os ministros do governo. “Sei que funciona com bastante eficácia, constitui uma imunidade estável e foi aprovado em todos os exames necessários”, disse ele.

As taxas dos contratos de juros futuros (DIs) encerraram a sessão sem uma direção única, em reação à ata da reunião da semana passada do Comitê de Política Monetária (Copom). Enquanto o trecho mais curto absorveu a sinalização de chance menor de corte da Selic em setembro, apesar da fresta para quedas adicionais, os vértices mais longos foram pressionados pelo risco fiscal.

Ao final da sessão regular, o DI para janeiro de 2022 ficou com taxa de 2,68%, de 2,69% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 terminou projetando taxa de 3,81%, repetindo o ajuste de ontem; o DI para janeiro de 2025 encerrou em 5,56%, de 5,48%; e o DI para janeiro de 2027 tinha taxa de 6,54%, de 6,44%, na mesma comparação.

Os principais índices do mercado de ações norte-americano despencaram nos momentos finais da sessão para terminar o dia em queda, diante dos sinais de que outra rodada de ajuda ao novo coronavírus pode não ser aprovada no curto prazo.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos principais índices de ações dos Estados Unidos no fechamento:

Dow Jones: -0,38%, 27.686,91 pontos

Nasdaq Composto: -1,69%, 10.782,82 pontos

S&P 500: -0,79%, 3.333,69 pontos