Bolsa cai puxada por bancos e indicadores fracos no exterior

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São Paulo – O Ibovespa encerrou a última sessão do mês em queda de 3,20% aos 80.505,89 pontos, puxado pelas ações dos bancos, que recuaram forte diante dos resultados do primeiro trimestre do ano apresentados pelo Bradesco na manhã de hoje. Colaborou para o recuo os indicadores fracos divulgados no mercado externo.

“No acumulado do mês até a quarta-feira [29], o Ibovespa avançava 13,9%. Apesar de a Bolsa estar indicando uma queda no início dos negócios, o desempenho até agora foi o melhor para um mês de abril desde os 15,55% registrados em 2009”, diz Rafael Bevilacqua, estrategista-chefe da Levante.

“A alta das ações ao longo dos últimos dias foi resultado de um enorme suspiro de alívio global após alguns meses tenebrosos devido à pandemia do coronavírus, e ao impacto das medidas de isolamento social necessárias para combate-la. Tendo passado por medidas que alteraram profundamente a forma de fazer negócios, as economias estão, cautelosamente, voltando à normalidade enquanto as pesquisas para encontrar uma cura avançam”, afirmou Bevilacqua.

Mais cedo, José Costa, economista-chefe da Codepe Corretora, explicou que o resultado do Bradesco veio dentro do esperado e que não será diferente com os demais bancos. “Bradesco está antecipando algo que já era óbvio. O balanço do banco mostra o que nós já esperávamos. O Bradesco sempre foi um banco conservador e prefere pegar pelo conservadorismo. Na segunda-feira temos o balando do Itaú e devemos ver algo bem parecido com o Bradesco”, disse.

“Os impactos que eram esperados mais fortes para o segundo trimestre do ano já começaram a aparecer no primeiro trimestre e isso é bem prejudicial. Se um banco tem uma queda de 40% no lucro sendo que a pandemia começou no finzinho de março, é sinal que muito resultado ruim deve vir no segundo trimestre”, explicou um gerente de mesa de operações.

A maior queda entre as ações que fazem parte do Ibovespa foi do papel ordinário da Smiles (SMLS3), com recuo de 8,87%. Por outro lado, a maior alta do índice ficou com as ações ordinárias da Marfrig (MRFG3), com valorização de 2,63%.

Entre as ações dos principais bancos, a maior queda ficou com o papel preferencial do Bradesco (BBDC4), com retração de 7,21%, seguido pela ação ordinária da instituição financeira (BBDC3), com queda de 6,44%. As units do Santander (SANB11), recuaram 4,49%, enquanto o papel preferencial do Itaú Unibanco (ITUB4) caiu 3,76% e as ações ON do Banco do Brasil (BBAS3) cederam 3,58%.

O dólar comercial fechou em alta de 1,49% no mercado à vista, cotado a R$ 5,4370 para venda, refletindo o viés de cautela que prevaleceu nos ativos globais antes do feriado prolongado, além de indicadores econômicos ruins na Europa. Diante disso, a moeda interrompeu uma sequência de duas semanas de alta e recuou 3,95%.

“A cautela dos investidores diante da piora externa e a busca por proteção loca fez o dólar quebrar a sequência de queda e fechar”, comenta o analista de câmbio da Correparti, Ricardo Gomes Filho.

Ele acrescenta o ambiente negativo no exterior em meio à uma “enxurrada” de resultados ruins de indicadores econômicos da Europa e dos Estados Unidos. “Com destaque para a queda acima do esperado dos pedidos de auxílio-desemprego nos Estados Unidos, além da frustração com a ausência de novas medidas de estímulo pelo Banco Central Europeu [BCE]”, ressalta.

Em abril, a moeda se valorizou em 4,57%, engatando o quarto mês seguido de alta. Com isso, a moeda norte-americana acumula alta de 34,45% no ano. Para o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, ainda que repleto de “percalços e elevada volatilidade”, abril termina para os mercados como se espera o que ocorra na economia real, com uma “forte recuperação”, mesmo que permeada por uma série de dificuldades.

“Os ativos no fim do mês foram especialmente afetados pela perspectiva de recuperação econômica em diversas localidades, dada a sinalização de perda de ímpeto da doença no hemisfério norte e possível reabertura parcial em alguns países e estados brasileiros”, reforça.

Na próxima semana, a agenda de indicadores pesada deverá ter forte influência na precificação dos ativos, já que os dados de abril da atividade industrial e de serviços dos Estados Unidos, da Ásia e da Europa deverão trazer o “tombo” provocado pela crise em decorrência do novo coronavírus.

No fim da semana, tem os dados do mercado de trabalho norte-americano. “O mercado já espera um ‘estrago’ nos números do payroll”, comenta o diretor da corretora Mirae Asset, Pablo Spyer.

Aqui, o destaque para a decisão de política monetária do Banco Central (BC) no qual a expectativa de boa parte do mercado é um corte de 0,50 ponto percentual (pp) na taxa básica de juros (Selic).

“Acho que se o BC cortar a Selic será uma espécie de voto de confiança de que a agenda de reformas estruturais deverá seguir no país mesmo em meio à crise provocada pelo coronavírus. E acredito que o corte já esteja precificado, então, não deve refletir em mais pressão no dólar”, avalia Spyer.