Bolsa cai e dólar sobe por influência externa e tensão entre China e Estados Unidos

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa fechou em queda de 0,18%, aos 104.339,16 pontos, refletindo o enfraquecimento das bolsas norte-americanas em função de dúvidas sobre um acordo comercial com a China e mostrando uma realização de lucros depois de bater a máxima de 106.001,35 pontos perto da abertura, próximo do recorde histórico de 106.650,12 pontos (10 de julho). O volume total negociado foi de R$ 17,7 bilhões.

“Apesar da melhora na perspectiva de juros, é natural o Ibovespa voltar depois de chegar próximo à máxima histórica, é difícil de romper esse nível. De certa forma, alguns pares do mercado também já esperavam uma atuação mais forte do BC [Banco Central] e ficam aguardando novos sinais positivos para romper esse recorde”, disse o analista da Guide Investimentos, Luís Sales.

Mais cedo, o Ibovespa refletia a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar a Selic em 0,50 ponto percentual e as sinalizações de que mais cortes podem ser vistos à frente, o que impulsionou ações dos setores de varejo e construção.

Além da proximidade do recorde ter levado investidores a preferirem embolsar lucros, os índices norte-americanos também mostraram uma piora, com o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) reduzindo os juros como o esperado e com rumores sobre dificuldades de um acordo comercial entre China e Estados Unidos. Mais cedo, aumentaram as dúvidas após um repórter de um jornal estatal chinês afirmar que a China estava pronta para elevar as taxas impostas aos Estados Unidos a menos que um acordo entre as duas potências saia em breve.

Para o analista da Mirae Asset Corretora, Pedro Galdi, ainda serão preciso fatos novos, seja aqui ou no exterior, para dar novo impulso ao Ibovespa no curto prazo, embora o viés siga de alta. “A Bolsa precisa de um gatilho novo, a guerra comercial vai ser negociada no mês que vem, e nós seguimos esperando a aprovação de reformas, o governo precisar mais criar coisas novas para que ocorra maior ânimo e a economia melhore”, disse.

Entre as ações, as de bancos, que subiam mais cedo, passaram a cair com mais força e pesaram para as perdas do Ibovespa, como as do Itaú Unibanco (ITUB4 -1,61%) e do Banco do Brasil (BBAS3 -2,60%). Ao lado dos papéis do Banco do Brasil, entre as maiores quedas do Ibovespa, ficaram as ações da Cielo (CIEL3 -5,13%), que devolveu parte da forte alta de ontem, da Braskem (BRKM5 -2,47%) e da Ultrapar (UGPA3 -2,77%), que também mostram realizações depois de ganhos recentes.

Já as maiores altas foram da B2W (BTOW3 5,75%) e a Via Varejo (VVAR3 5,26%) e da Multiplan (MULT3 3,53%). Além dessas, se destacaram os papéis da Marfrig (MRFG3 6,80%), que tiveram a maior valorização refletindo a elevação de recomendação para compra do Bank of America Merrill Lynch (BofA).

O dólar comercial fechou em forte alta de 1,43% no mercado à vista, cotado a R$ 4,1640 para venda, na maior alta desde 3 de setembro quando fechou acima de R$ 4,18, com investidores reagindo ao comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central que, depois de promover o segundo corte seguido da taxa básica de juros (Selic), sinalizou que deverá seguir com o ciclo de afrouxamento monetário.

“O principal catalizador foi a fuga de capital estrangeiro, principalmente de fundos especulativos, que foram em busca de uma melhor remuneração após o nosso BC cortar a taxa Selic [em 0,50 ponto porcentual indo a 5,5% ao ano]”, explica o diretor superintendente da Correparti, Jefferson Rugik.

Ele acrescenta que esses fundos foram para o mercado comprar dólares para “aportarem” em outros países emergentes que têm melhor rentabilidade e um custo de hedge [proteção] mais baixo como o México.

Investidores globais digeriram ainda a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) após também cortar a taxa de juros em 0,25 pp, indo para a faixa entre 1,75% e 2,00%. Economistas do Bradesco lembram, porém, que a decisão da autoridade monetária não foi unânime e não deve haver consenso sobre os próximos passos. 

“Nossa expectativa de mais três cortes ao longo deste e do próximo ano depende da continuidade da desaceleração interna e externa e das tensões comerciais [entre Estados Unidos e China]. O Fed pode encerrar o ciclo de cortes mais cedo do que o esperado”, avaliam.

Amanhã, com a agenda de indicadores mais fraca, investidores devem ficar atentos aos movimentos externos. “Pode ser que a digestão das decisões dos bancos centrais continue amanhã, apesar de maior parte do preço ter sido hoje. Amanhã pode ter um alívio, mas a tendência ainda é de dólar valorizado”, pondera o analista de uma corretora local.

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