Bolsa cai e dólar sobe diante de cautela global e correção

São Paulo – O Ibovespa fechou em queda de 1,99%, aos 102.912,24 pontos, descolando de Bolsas norte-americanas, com investidores aproveitando para embolsar lucros e corrigir preços no último pregão do mês. O cenário segue de cautela em meio à divulgação de balanços corporativos, avanço da pandemia em diversos países e um impasse sobre o novo pacote de ajuda econômica previsto nos Estados Unidos.

Apesar da queda de hoje, o índice encerrou julho com valorização de 8,27%, no quarto mês seguido de ganhos. A semana também foi de ganhos, embora tímidos, com alta de 0,52%.

“O mercado parece que teve uma ressaca depois da festa, investidores colocaram no bolso os lucros de julho, o que costuma ocorrer nos encerramentos de mês, e pesa também a questão de o pacote de estímulos nos Estados Unidos ainda não ter sido aprovado”, disse o analista de investimentos do banco Daycoval, Enrico Cozzolino.

No exterior, as Bolsas norte-americanas conseguiram fechar em alta após caírem em boa parte do dia, apesar da falta de consenso entre republicanos e democratas sobre as negociações sobre o auxílio federal aos desempregados nos Estados Unidos. Segundo o chefe de gabinete da Casa Branca, Mark Meadows, as conversas devem continuar amanhã.

Além disso, os casos de coronavírus seguem aumentando em estado norte-americanos, principalmente em estados do sul do país, como a Flórida. Há registros de aumentos em países europeus novamente também. A semana ainda foi de constatação da fraqueza da economia global em função dos impactos da pandemia, com tombos históricos dos Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos e da zona do euro.

Apesar das incertezas, o estrategista-chefe da Levante Investimentos, Rafael Bevilacqua, destaca que já houve uma melhora em indicadores quando comparado ao período de pior impacto da crise causada pelo coronavírus, e lembrando da baixa de mais de 40% que índice chegou a registrar no ano, no fim de março. Agora, o Ibovespa registra queda de 11% no acumulado do ano, até julho. “O mês chega ao fim com o mercado apresentando um cenário positivo. A retomada de julho não foi linear, mas foi consistente”, disse.

No Brasil, também pesaram balanços corporativos. É o caso da Petrobras (PETR3 -2,65%; PETR4 -2,71%), cujas ações subiam perto da abertura, mas passaram a cair com mais força seguindo o exterior e em meio a teleconferência dos resultados da companhia, apesar de o balanço ter sido, em geral, bem recebido pelo mercado. A direção da estatal disse que está focada em sair da crise, mas está mostrando cautela em relação aos preços do petróleo.

Já os papéis de bancos estenderam as quedas de ontem com realizações de lucros e na esteira do balanço mais fraco do Bradesco (BBDC4 -4,14%), que ficaram entre as maiores quedas do Ibovespa. O mesmo aconteceu com a Ambev (ABEV3 -4,46%), que segue em queda desde ontem, embora tenha tido um balanço considerado positivo pelo mercado.

A semana que vem promete ser mais uma semana cheia de eventos e indicadores relevantes. Entre os destaques está a decisão de política monetária do Comitê de Política Monetária (Copom), na quarta-feira, com expectativa majoritária de que o colegiado corte a taxa Selic em mais 0,25 ponto percentual. Ainda no Brasil, serão divulgados dados de produção industrial de junho na terça-feira e o Indice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de julho na sexta-feira.

Já o ministro da Economia, Paulo Guedes, deve participar de audiência da comissão do Congresso que analisa a reforma tributária na quarta-feira. No exterior, além de continuarem monitorando os casos de covid-19, investidores devem esperar principalmente os dados do mercado de trabalho norte-americano na sexta-feira.

O dólar comercial fechou em alta de 1,10% no mercado à vista, cotado a R$ 5,2160 para venda, acompanhando o exterior avesso ao risco e negativo para as moedas de países emergentes com a moeda norte-americana voltando a se valorizar ante aos seus pares. No último pregão do mês, teve a formação de preço da taxa Ptax – média das cotações apuradas pelo Banco Central (BC) – no qual contribuíram para a pressão altista da divisa estrangeira.

O diretor superintendente de câmbio da Correparti, Jefferson Rugik, destaca que a moeda operou com “dois momentos”, sendo o primeiro reagindo à disputa pela formação de preço da taxa Ptax. “Os comprados foram claramente os vencedores e levaram a Ptax para o nível de R$ 5,20”, comenta.

À tarde, porém, a moeda acompanhou o movimento externo, onde o dólar voltou a ganhar força sobre as moedas pares e de países emergentes. “Motivado pelo forte sentimento de aversão ao risco, em meio às dúvidas dos investidores sobre a recuperação econômica dos Estados Unidos”, acrescenta.

Na semana, marcada pela decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e pelas quedas históricas do resultado preliminar do PIB dos Estados Unidos, da Alemanha, do México e da zona do euro no segundo trimestre, a moeda subiu 0,19%.

O PIB desses países refletiu os impactos da pandemia do novo coronavírus nas economias, enquanto a reunião do Fed, que manteve a taxa de juros na faixa entre 0% e 0,25%, agradou investidores ao confirmar que irá utilizar todos os instrumentos para recuperar a economia do país. “Não só conservando o juro baixo, mas também sustentando as compras de ativos”, diz a equipe econômica da corretora Mirae Asset.

No mês, porém, o dólar registrou a maior queda percentual mensal desde dezembro do ano passado, com recuo de 4,05%. Rugik avalia que foi observado um enfraquecimento da moeda norte-americana no mundo, principalmente, ante o euro.

“Pelos indicadores, a zona do euro dá indícios de que caminha melhor e mais rápido do que os Estados Unidos rumo à retomada da economia. Além disso, os Estados Unidos emitiram muito dinheiro, e com taxa de juros baixa, acaba se desvalorizando ante outras moedas fortes no mundo. O que leva a nova discussão sobre até quando o dólar será visto como um ativo de segurança”, pondera.

Na próxima semana, a primeira de agosto, a agenda de indicadores estará pesada com dados de atividade da China, da Europa e dos Estados Unidos em julho, além dos números do mercado de trabalho norte-americano. Aqui, o destaque será a reunião do Copom do BC no qual as apostas são de corte de 0,25 ponto percentual (pp), com a taxa de juros indo ao menor piso histórico, a 2,00%.

“O Copom deverá reduzir a Selic em linha com o discurso mantido pelos dirigentes apontando a existência de um pequeno espaço para um ajuste residual nos juros. O movimento seria justificado por um contexto de expectativas de inflação bem inferiores às metas em 2020 e 2021 e da elevada ociosidade econômica trazida pelos efeitos da pandemia [do novo coronavírus]”, avalia a equipe econômica da Tendências Consultoria.

As taxas dos contratos futuros de juros (DIs) encerraram a última sessão do mês sem um viés definido, com investidores digerindo dados ruins sobre a economia global, ao mesmo tempo quem que calibram suas expectativas para a reunião do Copom na próxima semana, onde a Selic (taxa básica de juros) deve ser reduzida em 0,25 pp, segundo aposta do mercado.

Ao final da sessão regular, o DI para janeiro de 2021 tinha taxa de 1,905%, de 1,91% no ajuste do último pregão; o DI para janeiro de 2022 estava em 2,65%, de 2,63% do ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 projetava taxa de 3,65%, de 3,65%; o DI para janeiro de 2025 tinha taxa de 5,18%, de 5,20% na mesma comparação.

Os principais índices do mercado de ações norte-americano reverteram as perdas do início do dia para fecharem a última sessão da semana em alta, impulsionados pelo avanço das maiores empresas de tecnologia do país, que divulgaram resultados trimestrais melhores do que o esperado. Os índices ainda garantiram uma sequência de quatro ganhos mensais consecutivos.

Dow Jones: +0,44%, 26.428,32 pontos

Nasdaq Composto: +1,49%, 10.745,27 pontos

S&P 500: +0,76%, 3.271,12 pontos