Bolsa cai e dólar sobe com volta do coronavírus nos EUA

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Foto: Svilen Milev / freeimages.com

São Paulo – O Ibovespa fechou em queda de 1,66%, aos 94.377,36 pontos, em meio ao pessimismo visto no exterior com temores sobre o aumento de casos de coronavírus, além de refletir as fortes perdas dos preços do petróleo.

No entanto, o índice reduziu levemente as perdas na etapa final do pregão, com investidores vendo com bons olhos a votação do novo marco regulatório do saneamento, que deve ser concluída ainda hoje no Senado e tem sido vista como um sinal positivo do andamento da agenda no Congresso. O volume negociado total foi de R$ 25,7 bilhões.

“A queda de hoje é um misto do aumento de casos de covid-19, e da queda do petróleo. Sempre fica a dúvida se as economias vão ter que fechar de novo, embora a expectativa seja de que as medidas de isolamento passem a ser mais pontuais”, disse o sócio da RJI Gestão e Investimentos, Rafael Weber.

No estado do Texas, por exemplo, houve um aumento de 7% nas hospitalizações por covid-19, enquanto na Califórnia ocorreu um crescimento de 6 mil casos nas últimas 24 horas. Na Flórida, por sua vez, os casos confirmados saltaram 5.508, um recorde. Ainda há notícias de crescimento de infectados em outros países, como na Alemanha, que voltou a adotar mais medidas de isolamento social.

Ante do aumento da preocupação com possíveis novas medidas de isolamento, os mercados acionários já mostravam um tom negativo em função de previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) para economia global, que agora deve recuar 4,9% este ano ante previsão anterior de queda de 3%. Já a previsão para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil caiu de retração de 5,3% para de 9,1% em 2020.

Entre as ações, os papéis da Petrobras (PETR3 -2,66%; PETR4 -3,00%), que têm grande peso no índice, aceleraram perdas no meio do pregão com a desvalorização de mais de 5% dos preços do petróleo, após estoques da commodity subirem bem acima do esperado nos Estados Unidos e com as preocupações em relação aos impactos da pandemia.

Outros papéis de peso também recuaram, caso de bancos, como o Santander (SANB11 -4,67%), que ficaram entre as maiores perdas do Ibovespa. Ainda entre as maiores perdas ficaram as ações da Cielo (CIEL3 -12,96%), que refletem a decisão do Banco Central (BC) e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) de suspenderem a parceria para pagamentos via WhatsApp, e as ações da Azul (AZUL4 -6,13%) e da Gol (GOLL4 -8,34%), que sentiriam a volta de medidas mais duras de bloqueio contra o coronavírus.

Na contramão, as maiores altas do índice foram da Klabin (KLBN11 2,55%), da Marfrig (MRFG3 3,28%) e da B2W (BTOW3 2,87%). A Klabin teve sua recomendação elevada para compra pelo UBS, além de refletir a alta do dólar.

Apesar do pessimismo com a pandemia, o índice caiu menos do que seus pares no exterior e investidores citam fatores como a votação do novo marco legal do setor de saneamento. O estrategista-chefe da Levante Investimentos, Rafael Bevilacqua, afirma que são elevadas as probabilidades de o Senado aprove o projeto sem alterações e se mostra bastante otimista. “Em todo o mundo, o saneamento atrai investidores”, disse, afirmando ainda que o projeto pode gerar diversos empregos, ajudando a recuperação econômica.

Amanhã, a agenda de indicadores será mais cheia e pode trazer volatilidade para os mercados acionários, além de investidores deverem continuar a monitorar o aumento de casos de covid-19.

Nos Estados Unidos, os destaques são os pedidos de seguro-desemprego da última semana, a terceira leitura do PIB do primeiro trimestre e os pedidos de bens duráveis de maio. Já no Brasil, será divulgado o IPCA-15 de junho e o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, falará sobre política monetária às 11h, após a publicação do Relatório Trimestral de Inflação (RTI).

O dólar comercial fechou em forte alta de 3,26% no mercado à vista, cotado a R$ 5,3200 para venda, na maior alta percentual diária desde 18 de março (+3,98%) e interrompendo uma sequência de três quedas seguidas, acompanhando o mau humor generalizado no exterior em meio à piora na percepção de recuperação econômica após dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e receio de uma segunda onda de contaminação pelo novo coronavírus.

O diretor da Correparti, Ricardo Gomes, destaca que a forte alta da moeda refletiu o “pessimismo” dos investidores com as novas projeções do FMI para o Produto Interno Bruto (PIB) mundial de queda de 4,9% neste ano, ante projeção de 3,0% anteriormente.

O FMI também revisou para baixo a projeção do PIB brasileiro, passando de -5,3% para -9,1%, enquanto a estimativa de queda para o PIB dos Estados Unidos passou de 5,9% para 8,0%. Já a projeção para a zona do euro recuou para -10,2% (de -7,5% anteriormente) e para o Reino Unido piorou de -6,5% para -10,2%.

“As revisões do FMI foram muito fortes. Mas acho que parte do mercado já esperava esses números piores”, diz a economista-chefe do banco Ourinvest, Fernanda Consorte. A economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack acrescenta que os números corroboraram para a piora dos mercados, porém, o pano de fundo foi o temor de uma segunda onda de contágio pelo novo coronavírus.

“O que implica em alguma lentidão de recuperação econômica, isso aumentou a aversão ao risco”, avalia. Já Consorte ressalta que o temor foi ampliado pelos novos casos registrados na Alemanha, o que levou o país a adotar novas medidas de isolamento social em uma região. “Isso piora a percepção de recuperação econômica”, reforça.

Amanhã, com a agenda de indicadores mais esvaziada no exterior e com feriado na China, Abdelmalack chama a atenção para o fluxo de notícias no exterior e no mercado doméstico com peso para precificar os ativos.

“Aqui, temos a votação do marco regulatório do saneamento básico. Temos que acompanhar o resultado da votação e os desdobramentos, além do noticiário político”, diz.