Bolsa cai e dólar sobe com liberdade de Lula; incerteza sobre China e EUA colabora

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa fechou em queda de 1,78%, aos 107.628,98 pontos, aprofundando perdas perto do fim do pregão, reagindo à soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a um cenário de maior cautela no exterior, com incertezas sobre as negociações comerciais entre China e Estados Unidos. O volume total negociado foi de R$ 21,1 bilhões. Na semana, com a queda de hoje, o índice caiu 0,51%.

Lula deixou, há pouco, após 580 dias preso, a Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) mudou seu entendimento ontem sobre a prisão após julgamento em segunda instância. Analistas citam temores de que seja mostrada maior insegurança jurídica no Brasil e dúvidas sobre o impacto da liberdade do ex-presidente na cena política atual, embora, não vejam maiores efeitos na Bolsa no curto prazo.

O analista político da Levante Investimentos, Felipe Berenguer, acredita que a soltura de Lula pode levar a uma nova conjuntura política para o ano que vem. “Com Lula solto, a postura do PT vai mudar. Espera-se mais oposição organizada ao governo, já que ela praticamente não existiu esse ano – a pauta era Lula Livre e ponto. Eleições municipais de 2020 serão um bom termômetro”, afirmou.

Já a analista de investimentos da Necton Corretora, Sabrina Casciano, vê um aprofundamento de uma realização de lucros que já vinha ocorrendo com o cenário externo e após a euforia de ontem, quando o Ibovespa renovou recordes, mas não acredita que a soltura do ex-presidente terá maior impacto nos preços nos próximos dias.

O economista-chefe do banco digital Modalmais, Álvaro Bandeira, também acredita que a queda de hoje do índice reflete uma realização puxada por vários fatores, como a soltura de Lula e o cenário externo. “Juntou um pouco de vários fatores, como a decisão do STF, a queda de commodities e a frustração com leilão de petróleo esta semana, que estão levando a uma realização de lucros hoje.

Já no exterior, o presidente norte-americano, Donald Trump, negou que haja consenso sobre a suspensão de tarifas às importações chinesas no âmbito das negociações da chamada fase um do acordo comercial, o que fez com que as bolsas norte-americanas fechassem perto da estabilidade.

Entre as ações, alguns papéis refletiram balanços trimestrais, caso da CVC (CVCB3 -14,15%) e da BRF (BRFS3 -4,70%), que ficaram as maiores quedas do Ibovespa. Ainda entre as maiores perdas ficaram ações que são prejudicadas pela alta do dólar, como da Gol (GOLL4 -4,50%). Na contramão, as maiores altas são da BR Distribuidora (BRDT3 1,73%), da TIM (TIMP3 2,56%) e da Braskem (BRKM5 1,73%).

O dólar comercial fechou em alta de 1,80% no mercado à vista, cotado a R$ 4,1680 para venda, próximo à máxima do dia de R$ 4,1700 (+1,85%), reagindo à decisão do juiz do Tribunal Regional da 4 Região (TRF-4), Danilo Pereira Júnior, que autorizou na reta final dos negócios que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja solto após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) ontem. O real teve o pior desempenho entre as principais moedas globais.

“A moeda passou a registrar máximas consecutivas em movimento de recomposição de posições defensivas, potencializado perto do fim da sessão, após a confirmação de que a justiça determinou a soltura do ex-presidente Lula”, comenta o analista da Correparti, Ricardo Gomes Filho.

“O dólar operava em alta com alguma medida por conta também do cenário externo, mas nitidamente o mercado piorou quando foi confirmada a soltura de Lula”, acrescenta o economista-chefe da Necton, André Perfeito.

Na semana, o dólar se valorizou em 4,25% frente ao real refletindo não só as incertezas no exterior em meio aos ruídos da guerra comercial entre Estados Unidos e China, mas também a grande frustração do mercado doméstico com o megaleilão do pré-sal que não despertou o interesse de investidores estrangeiros, além de arrecadar menos do que o esperado pelo governo federal. O mercado aguardava uma entrada de fluxo que virá, dizem analistas.

A forte valorização foi corroborada pela decisão do STF que definiu que o início do cumprimento da pena de prisão só pode acontecer quando houver trânsito em julgado, ou seja, quando não houver mais recursos cabíveis ao réu, e consequentemente, com a decisão de justiça de soltar o ex-presidente Lula.

“A saída do Lula da prisão dá força para a oposição”, comenta o economista-chefe do Ourinvest, Fernanda Consorte. Com Lula livre, Perfeito avalia que, provavelmente, o clima político irá de novo se radicalizar, especialmente, porque todos os indícios dão conta de que o ex-presidente irá para o embate político em caravanas pelo país. “Isso pode atrapalhar em parte a agenda se reformas, uma vez que o presidente Jair Bolsonaro se encontra politicamente frágil e praticamente sem partido”, reforça.

Na próxima semana, o mercado deverá repercutir a liberdade de Lula, em meio à liquidez reduzida com feriados nos Estados Unidos e aqui, no fim da semana. “As atividades serão reduzidas em Brasília. A trajetória é de alta com fluxo menor e inicialmente, uma agenda de indicadores sem força para precificar a moeda”, analisa Consorte.

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