Bolsa cai e dólar sobe com retomada da guerra comercial entre Estados Unidos e China

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa encerrou em queda de 2,34%, aos 97.667,49 pontos, – no menor patamar de fechamento desde o dia 17 de junho (97.623,25 pontos) – refletindo o receio de novas retaliações entre China e Estados Unidos. O presidente norte-americano, Donald Trump, elevou o tom e prometeu respostas ao anúncio da China, que decidiu impor tarifas sobre US$ 75 bilhões de produtos importados do país. Na semana, o índice caiu 2,14%. O volume negociado hoje foi de R$ 20,5 bilhões.

“O dia já era de cautela e aí veio o Trump falando que vai retaliar a China, trazendo novas incertezas. É difícil se basear no que Trump fala, pode ser que ele mude de ideia e não faça nada, mas vamos ver volatilidade no curto prazo”, disse o analista de investimentos do banco Daycoval, Enrico Cozzolino. 

O presidente dos Estados Unidos não deu detalhes de como será essa resposta, mas reiterou, por meio de sua conta no Twitter, que o país não precisa da China. “Ficaremos bem melhor sem ela”, afirmou. Trump também disse estar “ordenando” que todas as empresas norte-americanas com unidades de produção na China a pararem com as operações no país. Nesta manhã, a China anunciou que adotará tarifas de 5% e 10% em importações equivalentes a US$ 75 bilhões em produtos norte-americanos para retaliar a decisão do governo dos Estados Unidos de sobretaxar cerca de US$ 300 bilhões em produtos chineses.

A escalada da tensão comercial entre os dois países acabou ofuscando o discurso do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, no simpósio de Jackson Hole pela manhã, no qual reconheceu o aumento da incerteza comercial e piora do cenário internacional, afirmando que o Fed agirá de forma apropriada para sustentar a economia.

O tom da resposta de Trump também derrubou ações de commodities, com as ações da Vale (VALE3 -1,45%) e de siderúrgicas, como Usiminas (USIM5-2,92%), passando a cair depois de subirem mais cedo refletindo a alta dos preços do minério de ferro. As ações da Petrobras (PETR4 -3,68%), que tentavam uma recuperação, também passaram a cair com mais força pressionadas pela queda dos preços do petróleo. Os papéis de bancos foram outros que ampliaram perdas, com destaque para Banco do Brasil (BBAS3 -3,62%).

Já entre as maiores quedas do Ibovespa, ficaram as ações da CVC (CVCB3 – 5,24%), da Ultrapar (UGPA3 -6,53%) e da Yduqs (YDUQ3 – 5,62%), que já caíam mais cedo e aprofundaram perdas.

Na cena doméstica, investidores também monitoram possíveis impactos econômicos que as queimadas na Amazônia podem trazer, após declarações do presidente da França, Emmanuel Macron, sobre a questão. A notícia de atraso no cronograma da reforma da Previdência no Senado foi outro fator negativo no dia de hoje.

Na semana que vem, o Ibovespa pode continuar repercutindo a escalada da guerra comercial e a crise internacional causada pelas queimadas, com possíveis desdobramentos dos dois temas no fim de semana. “Não vejo uma solução no curto prazo para essa guerra comercial, vamos ter que conviver com isso e talvez até com aprofundamento das tensões”, alertou o diretor de investimentos da SRM Asset, Vicente Matheus Zuffo.

O analista do banco Daycoval acredita que há possibilidade de o Ibovespa voltar a ser negociado em patamares mais baixos no curto prazo, embora acredite que níveis como os 95 mil pontos podem voltar a atrair compras e não veja mudanças estruturais para o mercado por enquanto. “O Ibovespa pode cair para 95 mil pontos e ficar negociando em média entre 97 mil, 98 mil pontos. Tenho a impressão que pode ficar lateralizado nos 97 mil se não tivemos notícias positivas, vamos ter que ver os desdobramentos da guerra comercial”, afirmou.

O dólar comercial fechou em forte alta de 1,10% no mercado à vista, cotado a R$ 4,1240 para venda, na maior cotação do ano, superando o nível de R$ 4,1050 registrado em 20 de maio. O acirramento da guerra comercial entre Estados Unidos e China ganhou novos capítulos e contaminou o mercado global com investidores avessos ao risco. Em meio ao anúncio de retaliação por parte da China, o presidente do banco central norte-americano discursou e foi rebatido pelo presidente Donald Trump.

Em pregão bastante volátil, investidores foram surpreendidos logo após a abertura dos negócios com o anúncio do governo chinês de que elevará as tarifas sobre US$ 75 bilhões de produtos norte-americanos importados ao país asiático, sendo uma parte aplicada em 1 de setembro e a outra em 15 de dezembro. A moeda avançou a R$ 4,10 após a notícia.

No fim da manhã, porém, após o aguardado discurso do presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, sobre a política monetária do país, o qual reiterou que é preciso avaliar as condições econômica dos Estados Unidos para “agir de forma apropriada”, Trump reclamou da postura de Powell e do Fed acusando a autoridade monetária de “fraca”.

“Ele [Powell] deixou nas entrelinhas que o Fed poderá sim baixar os juros em setembro [as apostas são de 0,25 ponto percentual]. Se não foi exatamente o que o mercado esperava ouvir, foi em linha”, comenta o diretor da Correparti, Ricardo Gomes. Ele acrescenta que a fala de Powell levou o dólar a renovar mínimas sucessivas – a R$ 4,0520 (-0,66%) – e “puxou bastante compra no mercado local” com o dólar abaixo de R$ 4,06.

Em semana marcada pelo início das operações conjugadas do Banco Central (BC) com a venda de dólares no mercado à vista e swap cambial reverso, o dólar se valorizou em 2,97%, acumulando seis semanas consecutivas de alta. “O BC identificou que a moeda estava subindo pela falta de moeda no mercado à vista, tanto que o mercado enxuga qualquer oferta”, diz Gomes.

Na sessão, o real teve um dos piores desempenhos entre as moedas de países emergentes na sessão. Para o economista-chefe da Necton, André Perfeito, a piora da moeda local pode ser creditada ao agravamento da “crise Amazônica”, em que chefes de estado se juntam ao presidente da França, Emmanuel Macron na “elevação do tom” contra o governo de Jair Bolsonaro.

“Já se manifestaram a favor da França, a Irlanda, a Alemanha e o primeiro-ministro britânico [Boris Johnson] demonstrando preocupação com as queimadas”, destaca. A Finlândia, que detém a presidência rotativa da União Europeia, declarou que pretende convencer o bloco a banir a importação de carne brasileira.

Segundo analistas, o assunto poderá ganhar mais destaque na semana que vem, junto aos números do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, dos Estados Unidos e da Alemanha no segundo trimestre. “Gancho da Amazônia pode trazer consequências desastrosas para o comércio bilateral brasileiro. O governo não está sabendo lidar com a questão, dando a entender que não domina como funciona o comércio entre países”, ressalta Gomes.

Amanhã, representantes de países do G-7 (grupo composto por Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá) se reúnem na França e devem discutir a questão da Amazônia, como já anunciou Macron.

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