Bolsa cai e dólar sobe com receio do impacto do novo coronavírus

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São Paulo – O pessimismo com o aumento de casos do coronavírus em diversos países – com destaque para os dos Estados Unidos, Itália e os primeiros casos de transmissão local no Brasil – fizeram o Ibovespa fechar em queda de 4,65%, aos 102.233,24 pontos. Trata-se da maior queda desde o dia 26 de fevereiro, quando o índice caiu 7% na volta do Carnaval.

Investidores também têm mostrado desconforto com a disparada do dólar, que renovou seu recorde histórico pelo décimo primeiro pregão seguido, e a postura da equipe econômica diante do movimento. Na mínima do dia, o Ibovespa chegou a cair mais de 6%, aos 100.536,15 pontos, já a máxima foi de R$ 107.216,56 pontos. O volume total negociado foi de R$ 30,1 bilhões.

Para o consultor de investimentos Renan Sujii, a intensificação da queda do Ibovespa no fim do pregão está ligada ao aumento de casos e à transmissão local no Brasil, além de as Bolsas no exterior também terem mostrado fortes quedas em função da alta de infectados em vários países. O Ministério da Saúde confirmou que o número de casos saltou de três para oito, sendo que dois desses pegaram o vírus do primeiro caso confirmado no País. Já os casos suspeitos subiram de 530 para 636.

“O mercado voltou a corrigir forte acompanhando as bolsas internacionais com mais notícias sobre o espalhamento do vírus em diversos países. O grande temor é o coronavírus continuar ganhando força e levar a mais suspensões compulsórias de atividades que geram produção e consumo”, disse.

Além do forte temor de mais impactos do vírus na economia global, o analista da Necton Corretora, Gabriel Machado, acredita que o mercado está ficando mais desconfiado com o próprio governo. “A reformas ainda não estão andando, o posicionamento do presidente não passa confiança e já há muita gente cortando previsões de PIB, o cenário não está animador”, disse.

Além disso, lembra que o dólar forte, que já sobe por 12 pregões seguidos e renovou seu recorde histórico, ao fechar em R$ 4,6530, preocupa, coma atuação do Banco Central (BC) sendo ineficiente para conter a disparada. Hoje, o BC fez três leilões de swap cambial. A moeda sobe com a aversão ao risco em função do coronavírus e diante da sinalização de que o BC irá cortar juros, o que também traz dúvidas dentro do mercado.

Neste cenário, o ministro da Economia, Paulo Guedes, reiterou que a taxa de câmbio vai operar em níveis mais altos do que antes por causa da atual política econômica de freio fiscal e política monetária frouxa, além de falar que a moeda pode atingir R$ 5 se “muita besteira” for feita.

As ações da Gol (GOLL4 -16,76%) e da Azul (AZUL4 -14,52%) lideraram as perdas do Ibovespa, na esteira de fortes perdas de seus pares no exterior. Os papéis reagem à notícia de que companhia aérea britânica Flybe pode quebrar e ao alerta da Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA) que o setor deve ter grandes perdas em função do novo coronavírus.

Ainda entre as maiores perdas, ficaram as ações IRB (IRBR3 -16,16%), que chegaram a abrir em alta refletindo a tentativa de retomar a confiança na empresa com a renúncia do presidente e do vice-presidente, porém, os papéis voltaram a aprofundar perdas ao longo do dia.

Também chamaram a atenção as perdas das ações da Petrobras (PETR4 -5,95%), que refletiram a queda dos preços do petróleo e a notícia de que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) alterou a vigência de sua proposta de corte adicional de 1,5 milhão de barris por dia (bpd), passando-a de 30 de junho para todo o ano de 2020 como uma forma de conter a desaceleração da demanda provocada pelo surto do novo coronavírus.

Amanhã, o destaque na agenda serão os dados do mercado de trabalho norte-americano, conhecidos como payroll, e o segundo dia de reunião da Opep, que deve analisar a proposta de corte feita hoje.

O dólar comercial fechou em forte alta de 1,57% no mercado à vista, cotado a R$ 4,6530 para venda, renovando a máxima histórica de fechamento pelo décimo primeiro pregão seguido, além de acumular 12 pregões de alta. As apostas de que o Banco Central (BC) deverá cortar a taxa básica de juros (Selic) seguem altas, enquanto a autoridade monetária tentou conter os avanços da moeda com a realização de três operações de venda de dólar no mercado futuro.

O BC realizou três leilões de swap cambial tradicional – equivalente à venda de dólares no mercado futuro – pela manhã e um no meio da tarde no qual colocou US$ 3,0 bilhões no mercado. As intervenções não foram suficientes para conter a escalada da moeda ao longo da sessão no qual renovou máximas históricas intraday a R$ 4,6670 (+1,87%).

“A fuga de capital, amparada na aversão ao risco e incertezas quanto ao desempenho da economia do país, especialmente neste ano, justificam o movimento”, avalia o diretor da Correparti, Ricardo Gomes.

Ele acrescenta que a “iminência de zerar o resultado da arbitragem” entre taxas de juros externa, principalmente comparada a dos Estados Unidos – no qual o banco central norte-americano (Federal Reserve) cortou a taxa em 0,50 ponto percentual (pp) de forma inesperada na terça-feira – e a doméstica, com as apostas de que o Comitê de Política Monetária (Copom) deverá cortar a taxa Selic também em 0,50 pp no dia 18. “Não há razão para manter recursos externos aplicados no país, justificando o vultuoso fluxo de saída de recursos”, comenta.

Amanhã, o destaque na agenda de indicadores é o relatório de emprego dos Estados Unidos, o payroll, no qual a expectativa é criar 190 mil vagas de trabalho em fevereiro, segundo o levantamento realizado pela Agência CMA. O mercado ficará atento aos possíveis reflexos do coronavírus nas atividades do país.

“A própria ADP veio acima do esperado. Acredito que o payroll deve desacelerar em relação ao resultado de janeiro, mas deve vir em linha com o esperado pelo mercado”, comenta o economista da Guide Investimentos, Victor Beyrutti. Em janeiro, foram criados 225 mil postos. Já o relatório de empregos no setor privado (ADP) apontou que foram criadas 183 mil vagas, ante expectativa de 155 mil vagas.