Bolsa cai e dólar sobe com mercado digerindo continuação de corte de juros nos EUA

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – Após chegar a ampliar perdas com a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e durante a fala do presidente da autoridade monetária, Jerome Powell, o Ibovespa reduziu a queda perto do fim do pregão e fechou em baixa de apenas 0,08%, aos 104.531,93 pontos, vendo sinais mistos sobre a possível continuidade do ciclo de corte de juros. O volume total negociado foi de R$ 27,05 bilhões.

Em um primeiro momento, o mercado viu um Fed dividido, já que a decisão de cortar a taxa de juros em 0,25 ponto percentual (pp) não foi unânime, e teve receio de que não houvesse sinalizações de novos cortes. Porém, Powell disse que se a economia piorar podem ser apropriados novos cortes e que o Fed irá parar de cortar juros quando achar que foi feito o suficiente.

Para o economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira, no geral, a decisão veio dentro do esperado, embora tenha ocorrido uma reação mais negativa logo após a decisão. “Acredito que o Fed está sendo razoavelmente dovish, mas talvez não tanto quanto esperavam alguns, sendo que o mercado ainda está preocupado com a desaceleração da economia”, disse.

Já o analista da Terra Investimentos, Régis Chinchila, destacou que o mercado não gostou da divisão do placar do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), com sete membros a favor do corte de 0,25 pp e três contra, mas que Powell afirmou que se “as coisas piorarem vão agir” e vai continuar a monitorar.

Investidores também aguardam ainda hoje, às 18h, a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), esperando um corte de 0,50 ponto percentual e possíveis sinalizações de novos cortes.

Entre as ações, as maiores quedas foram da MRV (MRVE3 -2,31%), da CSN (CSNA3 -2,25%) e da NotreDame Intermédica (GNDI3 -2,13%). Na contramão, as maiores altas foram da Cielo (CIEL3 9,00%), da Braskem (BRKM5 3,48%) e da B2W (BTOW3 3,43%). Hoje, a Cielo afirmou que não tem conhecimento de informações de coluna do jornal “O Globo”, que afirmou que a Stone estaria negociando com a companhia.

Amanhã, o Ibovespa pode continuar repercutindo a decisão do Fed, além de refletir possíveis sinalizações do Copom, podendo subir se forem indicadas novas quedas de juros, já que uma taxa de juros mais baixa atrai investimentos para a renda variável. “Acho que o mercado está relativamente tranquilo e tem espaço para chegar aos 105 mil pontos, depois podendo encostar no recorde histórico de 106.650 pontos.”, disse Bandeira. Amanhã, ainda serão anunciadas as decisões de política monetária do Banco do Japão (BoJ) e do Banco da Inglaterra.

O dólar comercial fechou em alta de 0,63% no mercado à vista, cotado a R$ 4,1050 para venda, na maior alta em duas semanas, reagindo ao segundo corte seguido de juros nos Estados Unidos. O Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) cortou a taxa em 0,25 ponto percentual (pp), indo para a faixa entre 1,75% e 2,00% ao ano. A indecisão do comitê do Fed quanto a decisão coloca investidores ainda mais atentos às duas últimas reuniões da instituição no ano, em outubro e dezembro.

“Deixou o mercado sem um norte”, comenta o diretor de câmbio do grupo Ourominas, Mauriciano Cavalcante, sobre o comunicado do Fed, dado como “sem novidades” comparado ao documento da reunião anterior, em julho.

Para a equipe econômica da Capital Economics, Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) está “mais dividido do que nunca” sobre o que fazer nas próximas reuniões. “Divididos com quase um terço dos membros querendo outro corte de juros antes do fim do ano, enquanto outro terço discordou do corte de hoje, e podem até querer que a taxa seja revertida novamente nos próximos três meses”, destaca.

Segundo o economista da Tendências Consultoria, Sílvio Campos, as projeções dos dirigentes para a evolução da taxa de juros nos próximos meses e anos procuraram evitar a percepção de que novas quedas estão contratadas. “O comunicado, praticamente mantido ante a última reunião, significa a continuidade da visão positiva sobre o consumo e o mercado de trabalho. Porém, houve um acréscimo no contraponto negativo à atividade, foi admitido o enfraquecimento das exportações”, avalia.

Campos acrescenta que, mesmo que as visões mais conservadoras possam mudar diante de uma eventual piora da atividade, nas condições atuais, os membros do Fed ainda “não querem” transmitir a mensagem de que um ciclo de flexibilização monetária à frente já está sacramentado.

Amanhã, o mercado deve seguir digerindo a decisão do Fed, podendo fazer ajustes após ficar pressionado no mercado local, além de reagir ao comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), que divulgará a decisão a respeito da taxa básica de juros (Selic) à noite. Pela manhã, tem ainda as decisões do Banco do Japão (BoJ) e do Banco da Inglaterra (BoE).