Bolsa cai e dólar sobe com cenário político interno desafiador

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa encerrou em queda de 1,26%, aos 96.429,60 pontos, – no menor patamar de fechamento desde o dia 5 de junho (95.998,75 pontos) – com investidores mostrando maior cautela em relação à política local após especulações de investigações envolvendo o BTG Pactual.

A notícia de que o BTG teria um “Departamento de Operações Estruturadas” para lavar dinheiro trouxe temores adicionais em meio a um cenário externo já preocupante em função da guerra comercial e fez o Ibovespa encostar nos 95 mil pontos na mínima do dia (95.960,74 pontos). O volume total negociado foi de R$ 15,2 bilhões.

Segundo um operador, a notícia divulgada pelo site “O Antagonista”, de que o BTG Pactual teria uma espécie de “Departamento de Operações Estruturadas”, de acordo com uma fonte que prestou depoimentos confidenciais à Lava Jato, mexeu com investidores hoje.

Mais cedo, o presidente Jair Bolsonaro também disse que “está para estourar” uma acusação falsa contra pessoa importante que está do seu lado, o que, segundo o analista da Necton Corretora, Gabriel Machado, já havia gerado especulações no mercado, que já tem mostrado volatilidade em função do exterior.

“O mercado já está mais volátil em função das falas de Trump [Donald, presidente norte-americano], que cada hora diz uma coisa, e aí teve a questão do Bolsonaro. Se especulou até que a acusação poderia ser contra Guedes [Paulo, ministro da Economia]”, disse o analista.

“É um pouco da junção de tudo o que aconteceu lá fora e aqui no Brasil. A notícia do BTG joga holofote para tudo que aconteceu lá atrás, pode ser que resvale em outros bancos e ajude a criar um ambiente político desfavorável”, avaliou ainda o economista da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo, sobre a piora do humor hoje.

Além da notícia do BTG, um levantamento da Confederação Nacional do Transporte (CNT), em parceria com a MDA, mostrou que o número de pessoas que avalia o governo do presidente Jair Bolsonaro como ruim ou péssimo passou a ser maior do que o de pessoas que veem a atual administração como boa ou ótimo.

Para completar o dia de notícias políticas negativas, após o fechamento do pregão, uma notícia do site “Jota” também ajudou o Ibovespa futuro a ampliar a queda, caindo 2,49%, aos 95.950 pontos, às 17h35 (horário de Brasília). De acordo com o “Jota”, a Polícia Federal (PF) afirmou ao Supremo Tribunal Federal (STF), que há indícios que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, (DEM-RJ) cometeu crimes de corrupção passiva, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

Para o economista da Órama, amanhã e nos próximos dias será preciso avaliar se os rumores envolvendo o BTG e demais notícias políticas de hoje terão potencial para ter maiores repercussões no Congresso e atrapalhar o andamento de reformas. “Essa é a pergunta que temos que nos fazer, mas talvez seja prematuro para ter respostas. Ainda não vejo algo que vá reverter o quadro que eu estava enxergando há 10 dias atrás para a Bolsa. Há uma nuvem negra em cima, mas não dá para tomar decisões no meio da tempestade”, disse.

O economista não descarta que o Ibovespa possa buscar patamares mais baixos, voltando os 94 mil pontos, mas nesse nível ainda vê o índice voltando a atrair compras. “Em cerca de 94 mil acho que ainda entra compra, se cair mais que isso talvez possa atrair mais vendas”, alertou.

O dólar comercial fechou em alta de 0,36% no mercado à vista, cotado a R$ 4,1390 para venda – renovando o patamar registrado na sexta-feira de maior cotação do ano – influenciado pela piora das moedas de países emergentes com a escalada dos conflitos comerciais entre Estados Unidos e China, apesar de desacelerar a alta no fim do pregão. Em contrapartida, o dólar futuro disparou mais de 1%, a R$ 4,17, após notícias envolvendo o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia.

Sobre o mercado à vista, o operador de câmbio da corretora Advanced, Alessandro Faganello, ressalta que a guerra comercial também “traz muito mau humor” porque “a cada hora” o presidente norte-americano, Donald Trump, fala uma coisa. “Ao mesmo tempo que ele diz que as negociações estão avançando, ele anuncia um aumento de tarifa”, comenta.

O analista de câmbio da Correparti, Guilherme Esquelbek, diz que por mais que Trump tenha diga que seu país e a China irão retomar as negociações comerciais, os efeitos deste conflito estão afetando diretamente a economia global, “levando os investidores a buscar proteção”, destaca.

O cenário político doméstico volta ao radar dos investidores. Na reta final do pregão do contrato futuro para setembro, a moeda norte-americana disparou a R$ 4,17 (+1,14%) com uma notícia envolvendo Rodrigo Maia. Segundo o site “Jota”, a Polícia Federal informou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que há indícios de que o presidente da Câmara cometeu crimes de corrupção passiva, falsidade ideológica eleitoral e lavagem de dinheiro.

“A notícia pegou no mercado porque o Maia é uma peça importante na articulação da reforma da Previdência, e é um dos principais articuladores do governo para levar adiante outras reformas. Não deixa de abalar, principalmente, a Previdência”, avalia um analista de investimentos de uma corretora local.

Amanhã, com a agenda de indicadores mais fraca, o índice de confiança do consumidor norte-americano de agosto, a ser divulgado pelo Conference Board, pode chamar a atenção do mercado que “segue atento aos indicadores dos Estados Unidos”, comenta Faganello. Ele ressalta, porém, que o mercado seguirá focado na guerra comercial. “É dela que vem qualquer alta e virá qualquer baixa [da cotação do dólar]”, diz.

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