Bolsa cai e dólar sobe acompanhando o cenário externo

São Paulo – O Ibovespa acompanhou a deterioração do ambiente de negócios em Wall Street, deteve o nível de 113 mil pontos apenas nos ajustes da sessão e fechou em queda em meio à redução no volume de transações na comparação com semanas anteriores.

Depois de começar o dia de lado pela terceira sessão seguida, o principal índice do mercado brasileiro de ações firmou-se em território negativo no fim da manhã e seguiu em baixa até fechar em queda de 0,69%, aos 113.001,16 pontos, antes um volume de R$ 27,96 bilhões.

No cenário local, as incertezas fiscais, os comentários do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, sobre a PEC emergencial e a disputa política em torno da vacina parecem ter finalmente entrado no radar dos investidores. “Não devia ter subido tanto”, observou um operador de renda variável ao comentar em retrospectiva o rali do Ibovespa em novembro.

O principal motivo para a piora, entretanto, foi a guinada da bolsa de Nova York, que até abriu em alta, mas passou a cair depois que o líder da maioria no Senado, o republicano Mitch McConnell, acusou a oposição democrata de ter alterado as bases do pacote de mais US$ 900 bilhões proposto na véspera. O “balde de água fria”, como McConnell descreveu a situação, dificulta um acordo bipartidário em torno de um pacote de estímulo à economia dos Estados Unidos antes do Natal.

Antes da virada em Nova York, o Ibovespa já operava em queda desde o fim da manhã em um aparente movimento de realização de lucros diante do baixo volume de negócios e da cautela que antecede a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC).

“O volume está muito mais baixo em relação às semanas anteriores e pode ser que a esticada [nos preços] esperada para o fim do ano já tenha chegado ao limite”, comentou Paulo Marques, operador de renda variável do Banco Daycoval.

Apesar da queda, o setor de saúde foi um destaque positivo na B3 hoje. A Rede D’Or captou R$ 11,39 bilhões em sua oferta pública inicial de ações (IPO) com a alocação dos lotes adicional e suplementar. Enquanto isso, as ações da Notre Dame Intermédica subiram depois de a companhia ter anunciado a compra do Hospital Lifecenter, localizado em Belo Horizonte (MG), por R$ 240 milhões.

O dólar comercial fechou em alta de 0,81% no mercado à vista , cotado a R$ 5,1730 para venda, em sessão de forte volatilidade e amplitude, acompanhando a piora no exterior em meio aos ruídos sobre as tratativas de aprovação de um novo pacote de estímulo fiscal nos Estados Unidos, com o impasse entre democratas e republicanos.

O diretor da Correparti, Ricardo Gomes, destaca o movimento global de “fuga de risco” justificado pelas incertezas que têm “permeado” os mercados, principalmente, vindo da falta de entendimento entre republicanos e democratas na busca de consenso em torno da aprovação de um novo pacote fiscal de estímulos à economia dos Estados Unidos.

“Além de acusações mútuas dessas lideranças, o que levou a minar a confiança dos investidores que, instintivamente, se refugiaram nos ativos de segurança”, avalia. Com isso, o real foi a moeda de país emergente com o pior desempenho na sessão, chegando a subir 1,3%, a R$ 5,20.

A estrategista de câmbio do banco Ourinvest, Cristiane Quartaroli, ressalta que o comportamento do real também se deu pelos ganhos recentes da moeda local, em meio ao forte fluxo de entrada de recursos estrangeiros na bolsa brasileira.

“O real, apesar de ter se beneficiado mais do que as outras moedas nas últimas semanas, é sempre ‘o patinho feio’ e tem pioras mais intensas. Mas isso vem do cenário local”, diz. Quartaroli destaca que a política interna e o cenário fiscal seguem como pano de fundo em relação à cautela dos investidores.

“O Congresso está meio paralisado, sem expectativa de andamento de reformas neste ano, com pautas travadas em meio ao nas eleições do Congresso. A LDO [Lei de Diretrizes Orçamentárias] já deveria ter sido aprovada e ainda não foi. Além disso, tem a discussão em torno do teto de gastos, uma grande preocupação do mercado”, explica.

Sobre a LDO, a profissional do Ourinvest acredita que possa ser votada no “apagar das luzes de 2020”, visto que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, tem falado em “fazer esforço” para votar a pauta ainda neste ano. Gomes, da Correparti, acrescenta que declarações de Maia corroboraram para a valorização da moeda estrangeira no mercado doméstico.

“Maia acirrou a crise com o Planalto ao afirmar que ‘vê um certo pânico’ na sociedade devido às incertezas quanto a disponibilidade da vacina contra a covid-19 no país. E ele foi ácido nas críticas sobre a falta de empenho do governo na definição do texto da PEC emergencial”, pondera. Segundo o parlamentar, o texto pode ser votado em janeiro.

Amanhã, com a agenda de indicadores esvaziada, Quartaroli acredita que o mercado deverá reagir ao comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), que será divulgado a partir das 18h30 com a decisão sobre a taxa de juros. A aposta do mercado é de que a taxa Selic permaneça, pela terceira vez, em 2,00%.

“Vai depender muito de como o BC vai se posicionar no comunicado, já que se espera uma sinalização do que será feito de política monetária para segurar a inflação. E o mercado tem se mostrado mais preocupado com isso do que o próprio Banco Central”, avalia a estrategista do Ourinvest.

Ela aposta que, após o Indice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subir 0,89% em novembro – na maior alta para o mês desde 2015 -, a inflação de dezembro deve ficar mais pressionada, principalmente, com o reajuste de energia elétrica após a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) reativar o sistema de acionamento das bandeiras tarifárias, interrompido durante a pandemia de covid-19. Desde o dia 1, está em vigor a bandeira vermelha.

Horas antes da última decisão deste ano do Comitê de Política Monetária (Copom), as taxas dos contratos de juros futuros (DIs) encerraram o pregão sem rumo único, com a indefinição sendo apontada para o dia desde a abertura do pregão. Os negócios alternaram altas e baixas até o início da tarde, quando a piora das bolsas e os ganhos do dólar pressionaram a curva a termo, com os vértices mais longos recompondo prêmios, enquanto os curtos aguardam a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom).

Ao final da sessão regular, o DI para janeiro de 2022 ficou com taxa de 3,035%, de 3,07% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 terminou projetando taxa de 4,46%, de 4,45% após o ajuste ontem; o DI para janeiro de 2025 encerrou em 6,11%, de 6,07%; e o DI para janeiro de 2027 tinha taxa de 6,96%, de 6,89%, na mesma comparação.

Após a renovação de recordes intradiários na abertura, os principais índices do mercado de ações norte-americano terminaram o dia em queda, diante da incerteza que tomou conta de Wall Street em meio às negociações de uma nova rodada de estímulos.

Confira a variação e a pontuação dos índices de ações dos Estados Unidos no fechamento:

Dow Jones: -0,35%, 30.068,81 pontos

Nasdaq Composto: -1,94%, 12.339,0 pontos

S&P 500: -0,79%, 3.67,82 pontos