Bolsa cai e dólar sobe acompanhando mercado externo

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São Paulo – O Ibovespa fechou em queda de 2,17%, aos 73.019,76 pontos, refletindo as perdas das Bolsas norte-americanas, em meio ao aumento de casos de coronavírus, e a baixa de ações de bancos, diante da possibilidade de tributação de dividendos. Mais cedo, o índice chegou a operar em alta e mostrava variações modestas com ajustes no último pregão do mês. O volume total negociado foi de R$ 23,9 bilhões.

Com a perda de hoje, o índice caiu 29,90% em março, na terceira queda mensal seguida e no pior mês desde agosto de 1998 (-39,55%), durante a crise da moratória russa. A queda no mês também foi maior do que a vista em outubro de 2008 (-24,80%), durante a crise financeira mundial. Já no primeiro trimestre deste ano, a perda é de 36,86%, segundo analistas, entre os piores trimestres da história.

“O nível de incerteza segue alto, não temos clareza de quando medidas de isolamento social vão acabar”, destacou o sócio da RJI Gestão e Investimentos, Rafael Weber.

Nos Estados Unidos, as Bolsas também caíram, com o índice Dow Jones mostrando o pior desempenho trimestral desde 1987. Os mercados reagiram mal às atualizações dos números de infectados e de mortos nos Estados Unidos, principalmente em Nova York. O governador do estado, Andrew Cuomo, disse que as mortes provocadas pela covid-19 subiram para 1.550 ante 1.218 de ontem. Nas últimas 24 horas, segundo Cuomo, foram registrados 9.298 novos casos de covid-19, elevando o total em todo o estado para 75.795.

Pela manhã, porém, as Bolsas chegaram subir após dados positivos dos índices dos gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) das atividades industrial e de serviços da China, que subiram em março, apontando que o país pode estar começando a se recuperar depois da paralisação em função do coronavírus.

Entre as ações, os papéis de bancos pesam negativamente, caso do Itaú Unibanco (ITUB4 -5,22%). Segundo Weber, ajuda na queda do setor algumas medidas que estão sendo tomadas, como a volta da possibilidade de taxação de dividendos.

O Senado Federal incluiu na ordem do dia de hoje o projeto de lei 766/2020, do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que eleva os benefícios do Bolsa Família em R$ 150 e cria uma transferência no mesmo valor para famílias pobres que não são beneficiadas pelo programa. O mesmo texto, porém, abre uma brecha para a cobrança de imposto de renda sobre dividendos para financiar o aumento do benefício.

Já as maiores quedas do Ibovespa foram da Cogna (COGN3 -19,96%), que divulgou dados trimestrais mais fracos, da Yduqs (YDUQ3 -16,51%) e da CVC (CVCB3 -14,28%)  Na contramão, ações ligadas a commodities mostram recuperação hoje, caso da Petrobras (PETR3 4,46%; PETR4 4,03%) e da Suzano (SUZB3 5,91%), entre as maiores altas.

Para o sócio da RJI Gestão e Investimentos, os próximos dias ainda podem ser de volatilidade, monitorando números de casos de coronavírus e a possibilidade de prorrogação de medidas de isolamento social. “O mês de abril não deve ser tão ruim quanto o de março, mas o mercado vai trabalhando com cenários e monitorando quarentenas. Seria muito ruim se a situação não começar a se normalizar dentro de seis meses, por exemplo, as Bolsas poderiam se ajustar novamente”, disse.

O dólar comercial fechou em alta de 0,34% no mercado à vista, cotado a R$ 5,1990 para venda, renovando o segundo maior valor de fechamento da história, em sessão de forte volatilidade em meio ao fim do mês e do trimestre. No exterior, a moeda estrangeira ganhou terreno enquanto ativos globais operaram mistos durante o pregão. No mês, marcado pelo rompimento do patamar inédito de R$ 5,00, o dólar se desvalorizou em 15,95%, maior variação percentual mensal desde setembro de 2011.

O gerente de mesa de câmbio da Correparti, Guilherme Esquelbek, reforça que a disputa pela formação de preço da Ptax – média das cotações apuradas pelo Banco Central (BC) – de fim de mês deixaram a moeda “bastante” volátil na primeira parte da sessão.

“Após a formação da Ptax, o dólar rondou a estabilidade reagindo o anúncio do Federal Reserve [Fed, o banco central norte-americano] de um novo programa de recompras de títulos para ampliar a liquidez no sistema financeiro em meio à pandemia do coronavírus”, comenta.

Um estresse pontual e o baixo volume de negócios levaram a moeda a renovar máximas sucessivas acima de R$ 5,21, o que refletiu em atuação do Banco Central com a venda de dólares no mercado à vista. Dos US$ 1,0 bilhão ofertados, foram aceitos US$ 755,0 milhões encerrando o mês em que a autoridade monetária elevou a atuação no mercado cambial com operações quase que diárias de dólares no mercado à vista ou no mercado futuro.

Ao todo, o BC gastou mais de US$ 23,0 bilhões das reservas cambiais oferecendo liquidez ao mercado diante da crise provocada pelo avanço do novo coronavírus.

Motivo pelo qual levou o dólar ao pior trimestre desde 2002, encerrando os três primeiros meses do ano com depreciação de 29,53%. “Trimestre que dificilmente será esquecido, em um quadro que compromete acentuadamente as perspectivas iniciais para o ano de 2020”, avalia o consultor de câmbio da corretora Advanced, Alessandro Faganello.

“Saiu totalmente fora do previsto. Se a gente estava com expectativa de crescer ao menos 2% no ano, hoje, a gente está com expectativa de não encerrar com cenário recessivo. Mas deve encerrar e a gente só não sabe o tamanho dessa retração”, acrescenta a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack.

Já o gestor de investimentos, Paulo Petrassi, avalia o período como “péssimo” no qual o cenário era expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). “Crescendo pouco, mas crescendo. Mas tivemos uma reviravolta, um ‘cisne negro’ que vai contribuir fortemente para a piora da economia global. Deveremos ter um segundo trimestre bastante negativo visto que a pandemia deve piorar o cenário aqui. Mas investidores deverão acompanhar o cenário na Europa, principalmente Itália e Espanha, e nos Estados Unidos”, destaca.

Para Faganello, a lição disso só “saberemos” em breve, mas ressalta que os indicadores que sairão a partir de amanhã com o consolidado de março deverão mostrar um pouco dos “estragos” causados pelo avanço da doença.

“Amanhã tem indicadores bem importantes. Talvez os dados da China venham positivos. Os demais, deveremos ver números bem ruins”, pondera. Na agenda de indicadores, tem o PMI sobre a atividade industrial da China, além de dados da indústria nos Estados Unidos e a prévia do relatório de empregos (payroll), e números da indústria na zona do euro e aqui.