Bolsa cai e dólar renova recorde com surto do coronavírus

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Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O temor em relação ao aumento do número de casos de coronavírus e ao seu impacto na economia global fizeram o Ibovespa encerrar o último pregão de janeiro em queda de 1,52%, aos 113.760,57 pontos. Na semana, as perdas foram de 3,90% e, no mês, de 1,63%, no pior janeiro para o índice desde 2016 (-6,79%), ano do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. O volume total negociado hoje foi de R$ 24,1 bilhões.

“Segue a instabilidade e a preocupação, já que a economia chinesa deve crescer menos e não sabemos o quanto ainda. Enquanto este surto durar, não há muito o que fazer, preços de commodities caem e deve ficar a volatilidade”, acredita o economista-chefe da Codepe Corretora, José Costa.

No exterior, as Bolsas norte-americanas também fecharam em forte queda em meio a rumores de aumento de número de casos nos Estados Unidos. O governo do país confirmou, há pouco, seis casos e declarou emergência interna, com 191 pessoas ainda sendo avaliadas.

A Comissão Nacional de Saúde da China confirmou hoje que quase 10 mil casos de contaminação por coronavírus, com mais de 200 mortes. O número de países com casos da doença já supera 20. Ontem, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou situação de emergência internacional, mas disse que as restrições a viagens e comércios não eram necessárias. No entanto, isso não está sendo suficiente para impedir que países recomendem cancelamento de visitas à China, o que deve impactar ainda mais a economia do país.

Entre as ações, as quedas foram generalizadas entre diversos setores. As maiores perdas do Ibovespa foram da Via Varejo (VVAR3 -4,43%), da CSN (CSNA3 -3,80%) e da WEG (WEGE3 -3,80%). Na contramão, entre as maiores altas ficaram as ações da Totvs (TOTS3 2,68%), da JBS (JBSS3 2,30%) e da Yduqs (YDUQ3 1,49%).

Na semana que vem, analistas acreditam que o coronavírus pode continuar trazendo cautela e impactar negativamente o Ibovespa. “Volatilidade será o nome do jogo no curto prazo: mercados vão reagir com muita euforia ou com muito pânico a cada novidade (positiva ou negativa) sobre a proliferação do vírus”, disseram os analistas da Rico Investimentos, em relatório.

A semana que vem ainda vai contar com uma série de indicadores, como o número de vagas de trabalho nos Estados Unidos. Já no Brasil, o início de fevereiro também promete ser agitado, com o fim do recesso do Congresso Nacional, reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), Indice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e continuidade da temporada de balanços.

O dólar comercial fechou em alta de 0,63% no mercado à vista, cotado a R$ 4,2870 para venda, renovando a máxima histórica pelo segundo pregão seguido, em dia de volatilidade após leilão de linha do Banco Central (BC), formação da taxa Ptax de fim de mês, mas tendo como pano de fundo o temor com avanço do coronavírus na China e em outros países.

Para o analista de câmbio da Correparti, Ricardo Gomes Filho, a forte valorização da moeda segue sendo influenciada, diretamente, pelos temores associados ao alastramento do vírus em escala global. “A notícia que a companhia aérea Delta decidiu suspender todos os voos semanais entre Estados Unidos e o país asiático até 30 de abril evidenciam a grande complexidade da epidemia”, avalia.

Diante disso, a moeda fechou a semana valorizada em 2,38%, enquanto no mês, subiu 6,80%, na maior alta percentual desde agosto do ano passado, devolvendo a queda de 5,3% registrada em dezembro. Este foi o pior janeiro em dez anos para o real. “Em performance, o real só perdeu para o peso chileno e para o rand sul-africano. Foi um mês de muitas notícias negativas”, comenta o economista da Guide Investimentos, Victor Beyruti.

Ele se refere não apenas ao avanço do coronavírus, que dominou o noticiário nos últimos dias, como também ao conflito geopolítico entre Estados Unidos e Irã, no início do mês, no qual o receio dos investidores em uma escalada para uma guerra entre as nações estressou o mercado. Em contrapartida, Estados Unidos e China assinaram no dia 15 a primeira fase do acordo comercial entre os países após as negociações se arrastarem por quase dois anos.

“Tivemos um movimento atípico em janeiro de saída de recursos estrangeiros. O coronavírus reforçou uma forte fuga de capital para ativos de risco”, diz o economista da Guide.

Na semana que vem, a agenda de indicadores deverá ditar os rumos dos ativos com números da atividade industrial e de serviços na China e nos Estados Unidos, além da balança comercial dos países e dos dados de emprego norte-americanos. Para a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, os desdobramentos da “epidemia” deverá seguir pautando os mercados.

Aqui, na quarta-feira, tem a decisão do Copom do BC no qual a aposta majoritária do mercado é de corte da taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto percentual, a 4,25% ao ano, renovando o piso histórico. “O mercado segue precificando mais um corte da taxa. Caso o BC mantenha em 4,50%, vamos ver uma reversão nos mercados”, comenta o economista da Guide.