BC queima reservas, mas exterior segura dólar acima dos R$ 4

Por Flávya Pereira

São Paulo – Com a escalada do dólar, há mais de dez pregões acima do nível de R$ 4, o Banco Central (BC) recorreu às reservas cambiais para conter a volatilidade da moeda nas últimas semanas, com operações de venda de dólares no mercado à vista, e ao mesmo tempo, operações de swap cambial reverso – equivalente à compra da moeda no mercado futuro. Após dez sem fazer essa operação, o BC colocou no mercado US$ 3,850 bilhões, e as ofertas continuam em setembro, somando R$ 11,6 bilhões.

Segundo o economista-chefe da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo, a estratégia de vender dólar no mercado “físico” é boa ao invés de o BC atuar por meio de operações de swaps cambiais por uma década.

“Há um certo consenso de que as reservas são úteis para proteger os países contra os solavancos provenientes de crises internacionais. Porém, não podemos desconsiderar o custo muito elevado [para manter reservas]”, diz o economista.

Para o diretor da Correparti, Ricardo Gomes, o País “não precisava carregar esse volume todo” de reserva cambial porque há demanda por moeda no mercado físico. Segundo a autoridade monetária, o montante era de US$ 389,0 bilhões em reservas, até o dia 26, em patamares históricos.

Ainda sobre as reservas, o economista da Tendências Consultoria, Silvio Campos, pondera que elas existem justamente para servir como “colchão de liquidez” para momentos de escassez e estresse. “É fato que não adiantaria vender reservas sem uma agenda interna de melhora de fundamentos econômicos, como no episódio de desvalorização forte entre 2015 e início de 2016”, ressalta.

“O BC está fazendo o que deve ser feito, além de identificar que a moeda estava subindo porque falta moeda no mercado à vista, tanto que qualquer oferta é enxugada”, diz Gomes. Sem alívio, o dólar avançou a R$ 4,19 nesta semana – maior nível desde 17 de setembro do ano passado – e levou o BC a atuar mais uma vez, porém, com a venda “seca” de dólares no mercado à vista, operação que não fazia desde 2009.

Apesar da variação positiva de 10% no mês, saindo da mínima de R$ 3,81 à máxima acima de R$ 4,19 no movimento intradiário, os economistas ouvidos pelo relatório de mercado Focus, do BC, estimam que a taxa de câmbio fique em R$ 3,80 ao fim do ano, contra a projeção de R$ 3,75 há quatro semanas. Gomes acredita que o BC não conseguirá levar o dólar, pelo menos, ao patamar de R$ 3,85, com as operações enquanto a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China não estiver resolvida ou com acordo avançado.

“As atuações do BC atendem à demanda do mercado, porém, outros fatores têm sustentado o dólar acima do nível de R$ 4,00 como a fuga de fundos estrangeiros, por exemplo”, diz. Neste mês, o fluxo cambial está negativo em US$ 2,1 bilhões, dados até o dia 22.

Campos explica que a expectativa de um dólar a R$ 3,80 está baseada na visão de manutenção de boas diretrizes da economia brasileira, com uma política macroeconômica “responsável”, além das reformas estruturais importantes, entre elas, a da Previdência.

Nas últimas semanas, porém, houve piora significativa do contexto internacional, a partir de novos episódios na escalada protecionista entre Estados Unidos e China e da postura ainda cautelosa do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) em sinalizar novos cortes da taxa de juros do país.

“O dólar retomou uma forte tendência de valorização global, movimento que afetou em cheio as moedas de países emergentes. É provável que a taxa de câmbio permaneça mais desvalorizada do que o mercado esperava, o que deverá resultar na revisão destas expectativas nas próximas semanas”, reforça.

O economista da Tendências pondera que a moeda estrangeira seguirá acima de R$ 4,00 e uma reversão só deverá ocorrer com uma acomodação das tensões internacionais. Em relação às ações locais, ele acredita que eventuais movimentos excessivos (da moeda), como nesta semana, deverão ser respondidos pelo BC com novos leilões de câmbio à vista.

“O importante para sustentar o real é preservar a atual agenda econômica. É viável que o câmbio volte futuramente para níveis abaixo de R$ 4,00”, aposta.

Edição: Eduardo Puccioni

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