BC deve manter Selic, mas altera comunicado com piora do balanço de risco

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Edifício-Sede do Banco Central do Brasil em Brasília. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

São Paulo, 14 de janeiro de 2021 – Não deve haver surpresas na decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) na primeira reunião deste ano, com a taxa básica de juros permanecendo em 2% pela quarta vez seguida. Mas assim como no último encontro de 2020, o comunicado que acompanhará o anúncio da decisão do Banco Central deve manter um tom duro (“hawkish”), refletindo uma piora no balanço de riscos e mantendo a possibilidade de alta da Selic em breve.

De um lado, tem-se os indicadores econômicos, com o ritmo da atividade doméstica e as leituras “salgadas” de índices de preços tornando o cenário mais assimétrico. Por sua vez, tem-se também as incertezas no front político, com as eleições para a presidência na Câmara e no Senado alimentando incertezas sobre a agenda de reformas e o ajuste fiscal. Envolto nisso, está o quadro ainda grave da pandemia no Brasil e a falta de data específica para o início da vacinação.

“A compreensão da dinâmica do aspecto sanitário e do cenário econômico apontam para um quadro brasileiro de grandes dificuldades”, resumiu o economista da Renascença Corretora, Marcos Pessoa. Ele enumerou erros e omissões do governo federal, como a demora na imunização da população brasileira contra a covid-19, o que tende a manter o número de casos e mortes causados pela doença no Brasil em forte alta.

“Esse cenário deve ampliar as medidas de isolamento social, afetando novamente a economia, tornando mais desafiador o fim do auxílio emergencial e as batalhas políticas pelo comando das duas Casas no Congresso”, avalia o economista da Renascença. Aliás, uma nova rodada do benefício e um novo decreto de calamidade podem entrar na pauta de votações ainda antes das eleições legislativas, em fevereiro.

Até por isso, o mercado financeiro não vê com bons olhos a vitória do candidato do presidente Jair Bolsonaro, o deputado Arthur Lira (PP-AL), na disputa. Para o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, o risco de uma Câmara presidida por um bolsonarista deixa o mercado nervoso. “Afinal, os delicados temas fiscais em jogo precisam de condução mais profissional para um desenlace razoável”, avalia.

DADOS MUDAM ORIENTAÇÃO

No front econômico, o resultado “salgado” da inflação oficial ao consumidor brasileiro (IPCA) ao final de 2020, com a maior taxa anual desde 2016, superando o centro da meta para o período, abriu a perspectiva de normalização da taxa básica de juros ainda no primeiro semestre – quiçá trimestre – deste ano. “O BC deve iniciar a alta da Selic em breve”, disse o economista-chefe da Necton Corretora, André Perfeito.

Para ele, o ciclo de aperto monetário deve começar entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano, com estabilidade ainda na reunião da semana que vem. “A taxa básica de juros deve fechar o ano em pelo menos 4%”, prevê. Segundo o economista da Necton, os dados de atividade somam-se aos números de inflação. “E, assim, pode mudar em parte o balanço de risco da autoridade monetária”, avalia.

Na curva a termo, a precificação é de alta ao redor de 1 ponto percentual (pp) na Selic até junho, totalizando um aumento de 1,75 pp até dezembro deste ano, com a primeira alta ocorrendo já na reunião de março. Com isso, o comunicado que acompanhará o anúncio da decisão neste mês pode trazer novidades.

A expectativa é em relação à retirada do trecho que se refere à ferramenta de orientação futura (forward guidance) sobre a Selic estável, após a mensagem da reunião de dezembro indicar que esse seria o primeiro passo antes do aperto. “Está aumentando a chance de o Copom retirar o forward guidance de juro estável na reunião da semana que vem, após o IPCA alto de dezembro”, avaliou o sócio-fundador da Novus Capital, Luiz Eduardo Portella.

Porém, o economista da Guide Investimentos, Victor Beyruti, avalia ser prematuro fomentar a expectativa de uma alta da Selic já no primeiro semestre deste ano, levando-se em conta o ambiente econômico deteriorado. “Em um cenário onde a economia já não sofre o impulso de uma política fiscal mega expansionista; o desemprego bate níveis recordes; a existência do vírus segue colocando pressão considerável sobre a atividade; e a política fiscal volta à austeridade, pressões desinflacionárias tendem a ganhar mais força”,
pondera.